6.1.07

Momentos

Tal como a sua delegação regional na Madeira, o movimento “Não Obrigada” apresentou-se ao país. Porta-vozes da efeméride: o Dr. António Borges e a Dra. Maria José Nogueira Pinto que, como sabem, são dois elementos que nada têm a ver com partidos políticos. A primeira preocupação do movimento foi afirmar que o “Sim” pode custar anualmente entre 20 e 30 milhões de euros ao Estado. Não sei qual é a lógica de tratar um problema social complexo com regras aritméticas ou matemáticas. Mas como todos nós sabemos, o Dr. Borges é mais especializado em álgebra variada, em equações de segundo grau e em candidatar-se virtualmente a presidente do PSD e a primeiro-ministro do que versado em temáticas sociais. Claro que ninguém lhe passa cartão político, nem tem pachorra para o aturar porque, tirando ele e a mulher dele, já toda a gente percebeu que a presença do Dr. Borges serve mais para subtrair do que para... adicionar.

5.1.07

Sempre o sistema

O bode expiatório benfiquista para a perda do campeonato já está encontrado: o maldito do sistema. Primeiro afastaram o Veiga (uma cabala infame orientada pelo Estado contra esse arauto da pureza e da ética desportista que é o José Veiga). Agora afastaram esse pivô da acção ofensiva do Benfica, Nuno Assis, responsável por cinquenta assistências e oito golos decisivos só esta época. Não há quem aguente. Perante tanta tragédia, só falta descobrir que foi a D. Carolina que dopou o bom do Nuno Assis a mando do Pinto da Costa. Numa casa de strip. E a beber champanhe.

O Notícias II

Aproveitando-se do fechamento de um jornal o Dr. Serrão veio a público condenar a má gestão de um grupo de empresários conotados com o PSD, como se isso fosse a razão única do lamentável desfecho a que se chegou. O Dr. Serrão mostra bem a sua ignorância e a sua impreparação para assumir qualquer responsabilidade maior do que o cargo que actualmente ocupa e que lhe dá, a título excepcional, direito a carro preto e motorista nas alturas de campanha. Este tipo de alegação elucida bem a política de golpes baixos que se assume como principal estratégia de acção, ou de reacção se preferirem, do chefe desta tribo. O Dr. Serrão nunca investiu em nada na vida (com a notável excepção dos jackpots do euromilhões) e por isso não sabe como funciona o estranho mundo dos negócios e as dificuldades em que vivem muitos empresários (não confundir o grosso dos empresários com os Belmiros ou os donos de bancos). E confortavelmente também se esquece das vezes que recusou, por exemplo, falar para o Notícias impedindo alguns jornalistas de fazerem, eventualmente, um melhor trabalho.
O Dr. Serrão, por mais que finja, não gostava do Notícias, por evidentes motivos. Nem ele nem a sua actual direcção. E para ele o fechamento do jornal foi uma verdadeira satisfação sem preço. As suas lágrimas de crocodilo não passam, por isso, de uma cena acessória, carregada de hipocrisia, em que as palavras que as acompanham são como aqueles placebos farmacêuticos: inócuas e apenas para enganar patetas.

O Notícias

Este caso do Notícias da Madeira é um bom exemplo da hipocrisia que muitas vezes reina na sociedade madeirense. Antes do fecho, o Notícias era mais recordado pelo dono do que propriamente pela sua primeira página, o que digamos não deixa de ser um curioso dilema. Agora, de repente, o corpo de jornalistas do Notícias era o melhor do mundo e este projecto constituía-se como uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama jornalístico regional. Pelo menos, no dizer de muita gente indignada pelo seu fecho e que, desconfio eu, nunca comprou o jornal. Devo dizer que compreendo as preocupações corporativas. E que compreendo, acima de tudo o resto, o drama das pessoas que vão perder o seu emprego e que demonstraram sempre muito brio pela sua actividade em condições nem sempre ideais. Mas sejamos sinceros: nesta sociedade pouco instruída, a verdade é que pouca gente compra jornais (incluindo muitos daqueles que agora se indignam e que passam a vida a pedir os jornais emprestados nos cafés). E ainda menos gente lê, de facto, jornais ou qualquer outra coisa para além da legendagem de um filme de série B com o Van Damme. Se não há leitores, muito dificilmente haverá publicidade. Sem publicidade, não há receita. Sem receita, não se compensa a despesa. São regras muito simples.

Confesso que o Notícias não fazia parte das minhas leituras habituais. E, muito sinceramente, não via ali nada de transcendental que justificasse uma mudança minha e dos meus hábitos de leitura. Talvez houvesse alguns jornalistas interessantes, com algumas peças interessantes (nomeadamente na revista), mas pouco mais do que isso. Mas isso é culpa minha porque tenho de confessar também que sou um leitor pouco atento à realidade regional, apostando mais na Net (blogues e jornais), nos jornais nacionais de referência em papel e nas revistas especializadas que me chegam a casa pelo correio. Num tempo global, com a internet, a rede das redes, a concorrência pela nossa atenção é maior. E a verdade é que, e isso custa-nos reconhecer e aceitar, nesta terra não há assim tantas notícias quanto isso. Pelo menos, que eu dê por elas. E pelo menos, quando vivemos num mundo pejado delas.

NOTÍCIAS da Madeira: um abraço aos amigos!

O NOTÍCIAS da Madeira encerrou. Lamento profundamente, mas como disse o Gonçalo, essa é notícia que não surpreende, porque sempre foi reconhecido que alguns dos seus accionistas nunca quiseram apostar seriamente num projecto de comunicação social. O seu investimento passou por outros objectivos, que não o de fazer notícias. Mas essa é uma questão que terá de ser vista por quem de direito e nos lugares próprios.
Mas lamento profundamente. Iniciei e terminei a minha breve aventura na comunicação social no NOTÍCIAS. Tendo uma matriz editorial que não se conjugava com as minhas referências, aprendi a gostar de ler o matutino, bem como outros órgãos de comunicação social mais populares. A voz do cidadão anónimo também é importante, aprendi. Na sua redacção, também aprendi algumas coisas sobre comunicação, nomeadamente a perder alguns tiques e preciosismos (pretensiosos, porque não?) intelectualóides. Aprendi a escrever para o José, a Maria, o António. E essa foi uma aprendizagem pessoal importante. Mas, perdoem-me os puristas, o que acima de tudo ganhei naquela redacção foi amigos. Muitos e bons e tenho que aqui fazer justiça a eles (entre actuais e antigos trabalhadores): o Miguel Torres Cunha, o Miguel Nóbrega, a Luísa Gonçalves, a Carmo Silva, a Sónia Franco, a Carla (Chavelha), a Yvette, a Lúcia, o Paulo, são alguns dos amigos que por lá fiz. Conheci gente fantástica, como o Duarte, o Márcio, a Patrícia, o Raúl, o Lopes, o Graça, o Filipe, a Marisa. São, por isso, motivos pessoais e egoístas que me fazem lamentar o encerramento do NOTÍCIAS. Mas também lamento, pelo facto deste ser o único órgão de comunicação social de cariz popular da Madeira e defendo hoje, como sempre defendi, que existe espaço na Região para um órgão desta natureza.

Partilho do post-scriptum do Gonçalo e espero voltar a ler brevemente textos dos jornalistas que agora ficaram desempregados, pois acho que todos eles têm qualidade para voltarem a afirmar-se. Espero que não se deixem abater e que insistam no sonho de dar notícias.

Um abraço solidário a todos vós!

PS – Permitam-me este PS, mas é a amizade que me move: Miguel, o virtuoso da fotografia e da condução és tu. Portanto, bora lá, que outros retratos te aguardam!

4.1.07

Infelizmente, não surpreende

Por várias razões, era um projecto condenado. Por várias razões, sendo que nenhuma delas está relacionada com a capacidade dos jornalistas que lá trabalharam.

O encerramento do Notícias não surpreende. Infelizmente, não surpreende.

Post-Scriptum: Gostava de voltar a ler, brevemente, coisas escritas pela Sónia, pela Patricía, pelo Duarte, pelo Graça, pela Carla, pela Luísa...

O Clube dos Pensadores

Está já previsto um novo ciclo do “clube dos pensadores” que pretende reunir grandes carolas portuguesas como Manuel Maria Carrilho, Luís Filipe Menezes, Garcia Pereira, Santana Lopes, Rui Sá e Álvaro Castelo Branco. Esperemos que este clube não se torne, muito sinceramente, exclusivo e que daqui não saia nenhum livro com ideias para “salvar” Portugal ou coisas mais perigosas como “compromissos”, ”conferências” ou “debates”. A maioria de nós conhece demasiado bem os políticos em epígrafe para não desconfiar do seu altruísmo, dedicação e motivação. E, claro, das suas ideias. Por isso, o melhor conselho que lhes podíamos deixar era que se abstivessem: que se abstivessem de aparecer; que se abstivessem de falar; que se abstivessem de fazer mais ciclos; e que, e se não for muito incómodo, se abstivessem mesmo de pensar. Acreditem que ninguém daria pela diferença.

Pluralidade

Amavelmente, vários amigos e conhecidos meus, enviaram-me via email um panfleto que anunciava o arranque de uma campanha regional pelo “não ao aborto”. Garantem os mentores (ou os autores da mensagem, se preferirem) que a “Plataforma Não Obrigada” é “apartidária”, “não confessional”, “plural”, e “muito abrangente que nasce da sociedade civil”. Desconheço o movimento e por isso não comento o seu aparente distanciamento partidário, a sua anunciada não confessionalidade (será que esta palavra existe?) e mesmo a sua “abrangência” ou penetração na sociedade civil madeirense. Mas quanto à suposta pluralidade de opiniões – e basta ler um dos textos introdutórios do blogue – vou ali e já venho.

3.1.07

Blog "Não Obrigado"

http://naoobrigadamadeira.blogspot.com/

Não, Obrigada

Será lançada amanhã a campanha regional da plataforma de defesa da vida contra o aborto "Não Obrigada". O evento, aberto ao público, decorrerá no Café Pátio, Funchal, às 18:00 horas.

A Plataforma "Não, Obrigada" é apartidária, não confessional e plural, tendo nascido na sociedade civil. Reúne pessoas, e grupos, que têem em comum os factos de serem contra a liberalização do aborto e contra a partidarização do debate.

Amanhã, a apresentação contará com a presença de Margarida Neto, antiga Alta Comissária para os Assuntos da Família.

Se defende o "não" no próximo referendo, não deixe de aparecer no Pátio.

2.1.07

Iam lá fazer uma coisa dessas?!

A casa da minha prima Amélia tem uma linda vista sobre o Funchal. Com um poio pós-moderno onde mais de 100 pessoas se podem abicar para ver o fogo.

Todos os anos, no dia 31, a minha tia Celeste (mãe da minha prima Amélia), prepara broas de mel e salgadinhos para mais de 100 convidados. E compra bolos rei da padaria das redondezas. E arranja um polvinho de escabeche e uma carninha de vinho e alhos. Junta, depois, umas azeitonas nuns pratos azuis muito simpáticos e uns cubinhos de queijo da Ilma numas tijelas todas catitas.

Lá pelas 8 e meia, os convidados começam a chegar. O primeiro é sempre meu primo Adriano, com o Fiat Uno de 1995. Normalmente, traz a namorada, a mãe, o pai e uma tia dele de que nunca me lembro o nome.

A festa é pimpona. Toda a gente põe uns chapéus na cabeça, joga umas bombas casa do vizinho, toma uns copos de espumante português, bebe wiskhy escocês e cervejinha de cá. À meia noite vê-se o fogo, mete-se passas pela goela abaixo e beija-se e abraça-se que tiver mais próximo.

Depois, o meu primo António, mais conhecido como DJ G, toma conta da aparelhagem até de madrugada e é dançar até que alguém atire uma garrafa de gás!

E é assim todos os anos.

Curiosamente, há uns tempos o meu primo Adriano (o do Fiat Uno de 95), teve uma ideia parva:
"E se a gente pedisse à televisão p'a vir cá filmar a Festa? Tem uma vista linda fogo e somos mais de 100... E a gente aparecia-se no telejornal"

disse ele, enquanto bebericava o que restava de uma garrafa de espumante Real Fundação, que abrira três minutos e meio antes.

"Que estupidez",

gritámos 50 em coro.

"tás mas é bêbado. A televisão não ia fazer directos para ai's notícias a partir de uma festa numa casa privada. Isso era impossível. Isso era, realmente, impossível"

sentenciou o primo Juvenal, que tem a mania das frases dificeis.

E com razão. A televisão ia lá fazer uma coisa dessas? Que ideia, a do meu primo Adriano...

Mas "pó ano há mais"...

Ah g'anda Governo

Os jogadores da bola, esses pobres "explorados", ameaçam fazer greve caso sejam obrigados a pagar, como qualquer contribuinte, IRS.

Curiosamente, pela maneira como a maioria joga, parece que todos os domingos são dias de greve...

O assunto, de facto, não tem importância nenhuma. Mas será tema de abertura de notíciarios e de debates nos próximos dias. Um tal de sr. Evangelista, presidente do sindicato que junta os craques do pontapé na bola, terá tempo de antena de sobra. O sr. Ministro das Finanças também. E enquanto semelhantes figuras esgrimirem os seus argumentos, ninguém se lembrará de que há coisas bastante mais significativas a acontecer. E que tendencialmente não são tão favoráveis ao Governo. O ano começa, assim, com mais uma operação de cosmética.

"Ah ganda governo que quer pôr os chulos da bola a pagar", gritará a populaça. E se calhar, tem razão.

31.12.06

Alzheimer futebolístico

O futebol português está há tanto tempo parado que já nem me lembro que clube vai em primeiro.


PS: Como é mesmo o nome daquele ex-administrador do Benfica que nada tem a ver com aquele processo onde desapareceram 800 mil contos referentes àquele jogador que era do Benfica, do Sporting, do Atlético de Madrid, do Boavista e do Braga desde pequenino?

As aulas bilingues

O Dr. Louçã, um anjo imaculado, prepara-se para apresentar no Parlamento uma proposta que pretende introduzir nas escolas portuguesas o ensino bilingue (não importa a língua) para os filhos dos imigrantes. A coisa vem no Expresso (uma comédia à parte na tragicomédia que é este país) e não deixa de ser perturbadora. O Dr. Louçã, como toda a gente sabe, é conhecido por ser um comediante cáustico com uma propensão natural para explorar o drama alheio enquanto gesticula e fala com ar de pessoa bastante entendida nos assuntos que aborda. O Nuno Rogeiro, por exemplo, também é muito parecido, embora ligeiramente melhor no comentário sobre a máquina de guerra norte-americana e os seus efeitos sobre ditadores indefesos.
Mas o Dr. Louçã não é particularmente sério (já vos tinha dito que é um comediante?) e até entre a sua horda há já alguns que começam a contestar a sua inócua e interminável liderança, há demasiado tempo afundada numa espécie de limbo sabático, ao qual o efeito do excesso de haxixe não deve ser estranho. Eu confesso que prefiro o Carlos Malato às homilias do Dr. Louçã, mas como gostos não se discutem o que importa aqui é a proposta que demonstra bem a originalidade e a simplicidade desta gente. E a proposta é um verdadeiro delírio que, a ser aprovada, promoveria exactamente o contrário do que pretende combater: a dita exclusão dos imigrantes, porque toda a gente sabe que só dominando a língua é possível uma verdadeira integração no país de acolhimento.
Os guetos sociais não se combatem mantendo os excluídos numa redoma que tenha por objectivo recriar as suas especificidades e ambientes naturais, venham eles de onde vierem. Já um velho ditado dizia que em Roma sê romano. Só para a tribo do Dr. Louçã é que isto parece complicado de entender. Mas pode ser que haja esperança. Quem sabe falando uma outra língua?

Cuidado com o ditador

A justiça iraquina matou o seu antigo ditador. Nestas coisas obituárias, e depois de vermos o morto, há sempre um sentimento que nos invade que nos faz expirar aquele inevitável “Coitado” (a minha mãe, por exemplo, ou mesmo algumas das minhas tias, soltaram um coitado demasiado prolongado que me deixou preocupado).
Nós somos assim a lidar com a morte. Ainda este ano, prestamos homenagem sentida ao Camarada Vasco e a Álvaro Cunhal, conhecidos inimigos da democracia mas reconhecidos amigos de regimes responsáveis pela morte de milhões. Sei que milhões, na linguagem estalinista, significa uma simples estatística, o que por certo deve perdoar-lhes a ousadia e a intromissão no assunto. Mas a memória, ou a falta dela, é um problema ocidental grave (pronto, reconheço que a ténue possibilidade de uma tal de Ségolène chegar ao poder na França também me deixa preocupado).
Esquecer o que Saddam verdadeiramente foi, como esquecer o que Álvaro Cunhal representou, não é apenas uma questão de memória selectiva que nós jogamos bem no fundo sempre que um actor comprometido desaparece de cena. E por uma simples razão: a homenagem ao carrasco limpa e desculpabiliza os seus actos, transformando-o em pretensa vítima. E isso, por uma questão linear e óbvia, é uma falta de respeito grosseira pelas verdadeiras vítimas: todos aqueles que às mãos do sanguinário regime morreram por simples arbitrariedade, diferença, mesquinhez ou maldade. É por eles que não devemos trair a sua memória. Nem a nossa.

30.12.06

Poças do Gomes

Já uma vez aqui falei sobre as Poças do Gomes, vulgo Doca do Cavacas. Na altura referi-me à abusiva medida da Câmara Muinicipal do Funchal em cobrar uma taxa de entrada. Mas não falei do essencial: os códigos de honra que por lá se estabeleciam e que foram assumidos por diversas gerações. Valores como a Amizade, a Lealdade, a Honra, eram cultivados entre as sucessivas gerações dos putos locais. Eu tive o privilegio de ter crescido ali e de ter sido herdeiro desta tradição que a qualquer estranho poderá parecer pueril, pretenciosa e megalómana mas que aos Gomes, aos Sousas, aos Pereiras, aos Henriques, aos Martins, aos Ferreiras (e a outros mais) constituem a sua melhor e maior herança, pois esses valores foram decisivos no seu processo de formação. Hoje, habitam a zona entre a Ajuda e a Praia Formosa - passando pelo Amparo e Piornais - milhares de novos residentes. É a nova centralidade do Funchal, dizem os responsáveis autárquicos. Mas sempre que volto, não consigo deixar de me sentir nostálgico quando me deparo com atitudes de novos residentes que contradizem a velha tradição enunciada. Gosto de lá viver e gosto de conhecer os novos vizinhos. Mas sinto que para eles, nada do que falamos tem qualquer significado. E por isso não entendem a lealdade absoluta que une os amigos das Poças. Perda deles!



PS - Um feliz ano novo a todos conspiradores e aos leitores deste blogue.
Sobre a dignidade do Ministro de Economia e a bondade do Primeiro-Ministro para com a Madeira, veja-se o elucidativo texto do Jorge Freitas Sousa no Diário de Notícias da Madeira.

29.12.06

Recuperado. Escrito há muito, muito tempo...

UM CONTO

Bar de Alterne, Funchal. Madrugada de um sábado qualquer. Noite fria.

Entramos em bando, escada acima, depois de nos ser cedida a passagem por um homem com cara de poucos amigos, entre uns risinhos que pretendiam disfarçar a excitação do momento e a adrenalina pura de quem entra num sítio desconhecido. Era ali o fim da noite.
A despedida de solteiro só ficaria completa depois daquela visita especial que é um ritual instituído, que toda a gente conhece mas que ninguém comenta. Sem aquilo nada teria ou faria sentido. Pelo menos na memória, na importância, no cerimonial que de cada vez que alguém se casa se assume como espécie de passagem para uma nova etapa da vida e como demonstração pública, ou privada, da sua pseudo-masculinidade.
No primeiro andar a sala é escura, com mesas de madeira muito baixas e sem qualquer piada. As paredes estão vestidas de espelhos pintados com alusões ao natal e com enfeites coloridos do mais medonho que já vi. Não consigo saber se as mesmas são deste ou de outros natais. Mas isso ali não interessa. Os rapazes estão agitados; em grupo os rapazes são sempre mais fortes, mais corajosos, mais inventivos. Mais audazes. Mas também mais palhaços e agressivos. Os mimos variam entre o puro sadismo, a ofensa gratuita e o directo ao assunto. Saber quanto é para o show, para a dança, para o espectáculo de strip é a pergunta do momento. Euros não faltam. Que nos satisfaçam o pedido.
As profissionais do sector, utilizando linguagem sindical, estão estrategicamente sentadas, sós ou em grupo. Fumam e bebem. Umas de mini-saia outras de calças, mas todas têm em comum o facto de serem simplesmente horrorosas e vestirem-se espalhafatosamente. Aliás, umas até conseguem vestir-se sem roupa o que para a maioria das mulheres é um rude paradoxo. Têm caras sofridas. São velhas e novas mas de idades indefinidas. Talvez vinte. Talvez trinta. Uma, pelo menos, seguramente cinquenta. Outra, sozinha numa mesa, está em gravidez avançada, não sei se de um cliente, se de um namorado a quem sustenta algum pernicioso vício. Não sei. Há ainda outra que se diz brasileira, mas a quem se nota a pronúncia forçada e uma que diz vir de Lisboa. A concorrência deve estar a apertar.
Ali há muito que não há esperança. Nem nas novas, nem nas velhas, nem na grávida, nem na brasileira, nem na lisboeta. Nada. Todas sabem que aquilo as desgasta, que as desgastou, que o seu futuro, e parte do seu passado, está entre aquele lance de escadas e as quatro paredes que as prendem àquele sítio ou ao andar de cima onde mais intimamente satisfazem desejos e fantasias dos eventuais clientes, habituais ou esporádicos, tal e qual como acontece agora no seu presente. Não passam dali. O seu sorriso, a sua conversa, nunca as levará mais longe; dali nunca fugirão do pesadelo em que mergulharam as suas vidas há muito tempo quando Deus e o mundo lhes viraram as costas e sós decidiram enfrentar o seu destino. Quem chega ali, não desce mais: bateu no fundo e vive na mais abjecta decadência e sujeita-se ao mais infame dos tratamentos.
Tudo é alimentado por um bar e por uma cabine de dj que são cuidados pelo mesmo indivíduo que faz de porteiro, um indivíduo carrancudo que não aparenta ser muito forte (mas que deve saber truques de karaté de certeza absoluta), num verdadeiro três em um. Não há tempo a perder. Numa última instância uma delas ajuda a servir e muda a música ambiente. Basta para satisfazer as poucas necessidades da casa vazia para um sábado. Para além de nós, conto dois clientes numa já animada bebedeira. Estão sós. Nenhuma das moças os acompanha e nenhuma delas parece se importar com isso. Bebem cerveja. Nestes sítios é conveniente que assim seja: beber coisas que possam ser ingeridas pela garrafa. É higienicamente mais seguro. Eles personificam outro tipo de decadência: a solidão dos homens; o seu desespero; o alcoolismo; a queda vertiginosa ao abismo daquele submundo estranho mas que visto nos filmes é altamente perturbador, aliciante e, quem sabe, até viciante.
Escolhemos finalmente uma qualquer moça, magra, muito magra, das novas e que dizia ser cá da terrinha, que fez o show com um mínimo de profissionalismo exigido. Acabava de garantir o seu rendimento mínimo da noite. Isso era importante. Estava satisfeita. Nós ríamos (também faz parte da decadência), e mostrávamos satisfação plena por aquele momento (também faz parte da mesma decadência). Estava finalizada a nossa missão. Estávamos prontos para ir embora. Lanço um último olhar: elas continuam impávidas. Sinto agora que aqueles enfeites de natal não estão ali desde o ano passado: estão desde sempre porque só sendo sempre natal se consegue continuar a sobreviver ali. Os olhos não mentem, não conseguem mentir nem esconder a tristeza que os alimenta. Cada uma tem um percurso de vida que conta misturando mentiras que se tornam verdades e verdades enriquecidas com mentiras. Olho e pergunto-me: a quem interessa as suas histórias sempre iguais e sempre diferentes? Ali, a ninguém seguramente.

Andar no tempo...

... e ver a máscara cair. Promessas e promessas. Bazófias várias. Tudo a ruir.

Um Mundo Novo

Largando as comunidades tradicionais. Vivendo cada vez mais isolado. Vendo o novo mundo entrar pelos olhos adentro, confortavelmente sentado numa cadeira, falando e comunicando com o mundo e falando e comunicando com gente espalhada nesse mundo. Tudo é partilha, é rede, é conhecimento. Tantas possibilidades de ser e não ser virtual. Podemos escrever, viver uma segunda vida, partilhar conhecimentos, conhecer gente, falar com pessoas, gerir um clube de futebol, vender e comprar, procurar o mundo no mundo, ouvir o mundo, ler o mundo, rir e chorar com o mundo ... tanta coisa. Seremos hoje mais felizes? Não sei. Mas ao menos podemos ver o mundo.

A menina Natal

Alguém descobriu que as criancinhas preferem as meninas natal aos pais natal. A estapafúrdia ideia está na placa central do Funchal, inundada por um bando de adolescentes apostadas em mostrar as pernas pelo bom do comércio. Claro que as pernas pretendem vender. E mostrar. E insinuar. E claro que as meninas não são inocentes que não percebam o seu verdadeiro papel e a mensagem subliminar que alguém, através delas, pretende fazer passar. Depois do marketing vocacionado para as crianças, nada como inventar o marketing vocacionado para os pais dessas mesmas crianças. Afinal, são eles que têm a carteira e o subsídio para gastar. Talvez por isso as meninas natal sejam uma criação recente num tempo onde tudo se vende e tudo se compra (perdoem-me a frase feita).
Há muito tempo que o Natal entrou nesta decadência sexual insultuosa para o seu verdadeiro espírito. Um espírito cada vez mais mercantilista e estereotipado cujo objectivo único e tirânico é contentar uma massa disforme de gente que não se suporta e que o natal faz sair à rua. Na verdade, passamos um ano inteiro a dizer mal de toda a gente e pouco mais de meia dúzia de dias à procura da redenção e da paz interior que nos faça pedir perdão a Deus (ou a algum Deus), através de curiosos incentivos e subornos.
Lá longe, de certeza absoluta, alguém se diverte muito com este assunto. Neste tempo complicado, que devia ser espartano por sinal, continuamos a insultar o que fomos, esquecendo o que verdadeiramente somos. Mas esta extraordinária experiência esclarece uma dúvida essencial: afinal, nem todas as pessoas são escolhidas a dedo. Há algumas que são escolhidas a perna.

28.12.06

O Rio de Janeiro continua lindo






Quando o Estado deixa de ter o monopólio do uso "legítimo" - à luz dos seus cidadãos - da acção coerciva, geram-se situações extremadas, que poderão desembocar no fim abrupto do próprio Estado.

No Rio, há muito que se vive um clima de tensão semelhante ao de uma guerra civil. De um lado, "mílicias" que ninguém controla tentam impôr a sua lei, invadindo favelas e executando, sem julgamento, criminosos ou pretensos criminosos. Do outro, grupos de fora-da-lei respondem com extrema violência.

Os poderes político e judicial quedam-se impotentes, sem conseguir controlar quer uns, quer outros.

Os acontecimentos de hoje no Rio deverão servir como alerta (mais um alerta): se não conseguir controlar a criminalidade, será o próprio estado brasileiro a ser posto em causa. E, face ao cenário geopolítico que envolve o Brasil, seria de todo o interesse que a comunidade internacional dedicasse alguma atenção e algum tempo a analisar o assunto.

Na América do Sul, se há coisa de que ninguém necessita nestes tempos é de outro ditadorzeco atrevido como Morales, Chavez e outros que se aproximam.

Stuart Staples - Leaving Sons


As vantagens da Fnac I.

15.12.06

APF - Associação para a promoção do quê?

As senhoras e senhores dirigentes da APF, que ao longo de quase 3 décadas tem formado dezenas de socialistas e reclama-se, pomposa e presunçosamente, como Associação para o Planeamento da Família – como se este planeamento fosse uma prerrogativa sua! – entendem que a prática de aborto não deixa sequelas psíquicas nas mulheres que o praticam. E são estas e estes senhores (para ser minimamente educado) que querem promover a Educação para a Sexualidade nas escolas. É esta gente que quer ser (e, infelizmente, tem sido) parceiro privilegiado do Estado para a promoção de uma cultura de planificação familiar, de educação para a sexualidade e os afectos e educação para a saúde. Estas pessoas que querem ter um papel determinante da formação das nossas crianças. Eu por mim, sou claro: jamais submeteria um meu educando às mãos desta gente. Mil vezes o radical oposto!

13.12.06

Sócrates: play dead!

O Governo de Sócrates surpreendeu-nos a todos, esta semana, com o anúncio de uma tal Empresa de Serviços Partilhados da Administração Pública (ESPAP), que terá como objecto a reforma da Administração Pública e futuramente será responsável pela gestão dos recursos humanos e aquisição de bens e serviços.
Para além de algumas dúvidas que se me colocam em relação à legalidade desta empresa, não posso deixar de estranhar que num momento em que se pretende diminuir a máquina no Estado e os seus custos, se crie uma empresa que irá cobrar ao Estado pelos serviços prestados. A mim parece-me que esta é apenas uma medida sub-reptícia para poder pagar os ordenados milionários aos seus administradores que serão, com certeza, homenzinhos do PS. É a economia outsourcing no seu melhor: o Estado poupa em despesas com recursos humanos, enquanto o dinheiro dos contribuintes portugueses é habilmente utilizado para pagar fortunas a meia dúzia de abutres.
E por falar em outsourcing, já repararam que o Estado português, que deveria garantir a moralidade no sistema laboral, cada vez mais promove o sub-emprego e recorre a empresas para prestação de serviços, cujos funcionários ocupam vagas e lugares imprescindíveis ao bom funcionamento da máquina? Dir-me-ão: “é a economia, estúpido”. Pois que seja, mas não me agrada viver num país em que o Estado é a principal entidade que viola a moralidade, na sua relação com os cidadãos. E não me venham argumentar que é legal, porque não deixa de ser imoral. A título de exemplo: neste momento as Actividades de Enriquecimento Curricular, que devido aos horários implicam a contratação de 10% da média de funcionários das Autarquias, são quase exclusivamente leccionadas por professores com contratos de prestação de serviços ou por empresas que pagam miseravelmente aos seus docentes. Outro exemplo: tenho um amigo, licenciado, que durante 5 anos foi gestor de Edifícios da PT, colocado por uma destas empresas, a receber a maravilhosa quantia de 700€. São, efectivamente, estes os maravilhosos benefícios prestados pelos especialistas portugueses! E o nosso PM ainda nos vem acenar com a flexisegurança. Já só apetece mesmo dizer: “Sócrates: play dead!”

9.12.06

O referendo

A exemplo de alguns socialistas e outros democratas que tais, vi hoje Jorge Coelho defender que se o resultado do referendo sobre o aborto não for vinculativo, a Assembleia deverá legislar de qualquer maneira.
Para além de ver aqui uma cedência à esquerda mais radical - será que o ex-homem forte do PS vai iniciar agora a rotura com a direcção de Sócrates? -, vejo também uma atitude profundamente anti-democrática que só serve para descredibilizar - ainda mais - os deputados da Nação. Mais, a ser feito, conseguirão destruir definitivamente esse ex-libris da democracia participativa que dá pelo nome de referendo, colocando mesmo em causa este sistema político.
Inferir que da fraca adesão nos referendos está a vontade do povo em colocar o seu destino nas mãos dos políticos, é uma atitude irresponsável e pretensiosa. Se o povo não está mobilizado, é porque reconhece que a classe política portuguesa não é digna da sua confiança. Trata-se de uma incapacidade e incompetência dos dirigentes que não conseguem motivar os cidadãos para a participação. Sorte é ainda haver quem participe, perante os tuaregues que proliferam do deserto da política portuguesa.
Sabemos que este conceito da participação nunca foi acarinhado pelos dirigentes deste país. Esta mentalidade é antiga, mas mantém-se bem viva. Basta ver a morte anunciada do instrumento referendo que alguns líderes de opinião têm feito passar. Mas será uma ignomínia sem tamanho transformar esta desconfiança surda em prática política. Será um retrocesso ímpar na recente história democrática portuguesa e será, definitivamente, uma traição irreparável aos ideais de Abril.
PS - Por aqui ninguém se lembrou do 25 de Novembro. Pois bem, eu tal como comemoro o 25 de Abril, bebi à saúde dos militares que se opuseram à tentativa de tomada do poder por parte de forças estalinistas.

7.12.06

Ninguém lhe pergunta nada?

Bem sabemos que o Dr. Bernrdo vive numa redoma de vidro, protegido do "mundo mau" enquanto espera que Serrão e sus muchachos se estrepem, algo mais que previsível.

Mas faz-me confusão que ninguém lhe pergunte nada. pelo menos uma perguntinha... Mas é que nem o JM...

Então a TAP aumenta as tarifas para a Madeira e mantém os preços nos Açores e ninguém lhe pergunta nada sobre o assunto? Mesmo que o aumento acabe por prejudicar aqueles que são... negócios de familia?

Fala-se sobre a possibilidade de liberalização do mercado do transporte aéreo e... nada?

Fala-se sobre o claro desrespeito da TAP pelos madeirenses, practicando preços inacreditáveis e... nada.

Ninguém lhe pergunta nada sobre a tão famigerada LFL (sendo o Dr. Bernado membro do Executivo, era normal...)

Ninguém lhe pergunta nada sobre...nada. E eis que paira, o Dr. Bernardo, sobre as trapalhadas do Governo a que pertence. À espera que outros dêem a cara.

E ninguém... lhe pergunta nada.

O pior é se os "timings" se baralham. Essa é que era grave.

6.12.06

E assim vai o nosso mundo

O presidente da Assembleia Legislativa da Madeira volta a ser notícia pela pior razão

Depois da estúpida norma por causa do vestuário dos jornalistas, agora, é a restrição da circulação dos profissionais da comunicação social no parlamento.

É triste quando os maus exemplos vêem de cima. Mais grave ainda, por ser do órgão máximo da soberania na Madeira.

A restrição imposta viola um princípio básico da lei de imprensa. O livre acesso dos jornalistas às fontes de informação. Caso o Senhor Presidente não saiba a lei faz parte da Constituição da República Portuguesa . A não ser que a Madeira já seja independente e eu não tenha conhecimento da novidade.

A lei diz:

" Artigo 2º - A liberdade de imprensa abrange o direito de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações.

Artigo 3º - O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.

O Direitos dos jornalistas b) A liberdade de acesso às fontes de informação, incluindo o direito de acesso a locais públicos e respectiva protecção.”


Senhor Presidente, ainda está a tempo de emendar o erro. Caso contrário, não fique chocado se a Comunicação Social disser e escrever que a Madeira é uma república das Bananas, ou da América Latina. Lá matam, aqui são mais refinados nos ataques que desferem aos jornalistas.

Para quem não conhece, as regras impingidas, limitam a circulação dos jornalistas nos corredores da Assembleia. Veda o acesso ao bar, à troca de impressões com os deputados. Elemento fundamental no processo de cruzamento da informação e das fontes.

Ninguém invadia as zonas “privadas”, como os gabinetes dos Grupos Parlamentares, ou a presidência do parlamento.

É portanto, mais uma medida que ninguém percebe. Até o próprio obreiro terá dificuldade em explicar a última obra.

1.12.06

Mistura

O novo 007 pareceu-me uma mistura de panfleto publicitário com Extreminador Implacável 2. Haja paciência para aguentar aquilo até ao fim...

24.11.06

Aborto: será uma questão de crença?

Porque todos nós começamos a ficar fartos da política e dos políticos, hoje escrevo sobre um tema que gera paixões e divide profundamente e legitimamente a sociedade portuguesa: o aborto e o referendo que se aproxima (isto é, caso o Presidente da República decida convocá-lo).


Até ao momento, tenho visto os defensores do Sim à pergunta do referendo alegarem 4 razões fundamentais para justificarem o seu voto.

a – são as mulheres que mandam no seu corpo;
b – é uma vergonha mulheres serem julgadas por praticarem ou serem sujeitas a um aborto;
c – as condições deploráveis a que algumas mulheres se submetem;
d – famílias e mulheres sem condições para educarem uma criança.

Alguns defendem apenas uma, outros defendem várias e outros, menos cuidadosos, defendem todas.

Eu voto Não. Como sei bem que os defensores da liberalização (é disso que se trata, deixem-se lá de eufemismos) não estão interessados nas minhas razões, e como também sei que mesmo que as ouçam, não as valorizam, vou apenas dizer porque não concordo com os argumentos pelo Sim.

a) Vociferem o que quiserem vociferar os movimentos feministas mais apaixonados e mais ou menos radicais, mas jamais aceitarei discutir com base de que no corpo das mulheres mandam elas. Um embrião não é um apêndice do corpo feminino. As mulheres que disponham como quiserem do seu aparelho reprodutivo, mas nunca lhes reconhecerei o direito de disporem de um embrião. Porque um embrião é uma vida, numa fase que ainda compreendemos pouco, mas que não deixa de ser uma vida. Não sou eu que o digo, é o dr. Gentil Martins.

b) O argumento de que é vergonhoso mulheres serem julgadas também está enfermo de falácias:
1.º - um dos casos mais mediáticos foi o de uma mulher de Setúbal, que fez um aborto aos seis meses. Ora, caso a liberalização (insisto) tivesse sido aprovada em 1998, a sra. teria sido julgada na mesma. Para além disso, perdoem-me, mas abortar voluntariamente aos seis meses não me parece defensável racionalmente. Qual é o argumento?
2.º - quando uma mulher fizer um aborto, recorrendo aos antigos métodos, às 11 ou 12 semanas, como é que vai ser? Serão essas mulheres julgadas? Continuaremos com essa vergonha? O que é que a alteração da actual lei irá mudar?

c) Este é um dos poucos argumentos a que sou sensível. Não conheço nenhum local onde pratiquem abortos. Nunca tive que recorrer, mas não me parece que aquela ideia que a Dra. Odete Santos defende, de abortos feitos com agulhas de tricotar, tenha alguma relação com a verdade. Com tantos medicamentos abortivos, de venda livre, que existem no mercado, não sei se continua a ser necessário agulhas que estraçalhem os fetos. A realidade continua a ser hedionda e brutal, mas acredito que sem esta ficção demagógica.
O não quer dizer que os abortos sejam menos perigosos. But, then again, qualquer aborto está envolto no perigo, que não sei se diminui por ser feito num hospital público. Realço ainda o facto de que estes párias continuarão a existir, uma vez que continuará a haver clientela (gravidez com mais de 10 semanas).

d) Este é um argumento complicado: o que são consideradas condições adequadas para criar uma criança? Os meus pais nunca foram ricos e criaram 6 filhos. Conheço pessoas ainda mais pobres que também educaram os seus filhos, com, amor, carinho, e sem que lhes tivesse faltado qualquer bem essencial. Por outro lado, sabemos que o mundo é volátil e as minhas condições financeiras de hoje, poderão não ser as de amanhã. Em relação ao abandono de crianças, sejam honestos e digam lá: acreditam que o mundo vai passar a ser um lugar melhor para as crianças? Que estas terão mais amor e melhores condições? Que vão deixar de haver os abandonos, os maus tratos? Acham mesmo que a miséria vai desaparecer? Ou, sequer, que as crianças irão desaparecer da miséria?

Reconheço que a questão é complicada. Mas sinceramente não revejo qualquer peso aos argumentos apresentados. São demasiado falaciosos. Ainda assim, continuo aberto à discussão. Argumentem! Afinal, também é para isso que os blogs servem.

22.11.06

Georges Remi


O criador de Tintim dá pelo nome de Georges Remi. E por que se chama Hergé então? Porque, pegando nas iniciais de cada nome, invertendo a sua ordem e soletrando cada letra por extenso dá her(r) e ge(g), daí o Hergé. Felizmente, já sabia isto muito antes de pôr os pezinhos no Museu da Banda Desenhada de Bruxelas.

Coisas da Bélgica




Pierre Marcolini



Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas do mundo não ensinam mais que a confeitaria.

(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)


Comer chocolates é melhor do que fazer quase tudo. E então se for na melhor chocolataria do mundo, não sei se será o superior dos prazeres.

A chocolataria Peirre Marcolini de Bruxelas é um daqueles espaços únicos no mundo que, mesmo sem seguranças à porta, afugenta logo a saloiada, a qual, em regra, pouco quer saber da pureza do cacau ou da sua proveniência (Equador, Madagáscar ou Venezuela). E muito menos quer ouvir as explicações dos funcionários trajados com cores de chocolate semi-amargo.

Neste lugar tudo é absolutamente cuidado, mas sem folclore e sem nos impingirem nada: a apresentação da iguaria, a sua disposição na vitrina e a cara, quase sempre neutra, de quem sabe o que vende. Depois, vem a caixinha, e que caixinha! Já na rua, e com a cumplicidade de uma nova amiga de muito bom gosto, fiquei sem saber se o que levávamos na mão era uma jóia ou um doce.

Na América, pois claro

Sem grande esforço facilmente se conclui que a ciência económica e, por arrasto, a da gestão, é uma invenção dos EUA. Ou, pelo menos, foi nos EUA que se aperfeiçoou como verdadeira ciência.

Desde 1969, ano em que foi criado o prémio nobel da economia, a esmagadora maioria dos premiados são norte-americanos, e quando não o são, são ingleses, o que é substantivamente o mesmo. Quanto a mim, só isto chega para explicar quase tudo aquilo que representa a sociedade americana hoje no mundo.

Milton Friedman, claro, também está lá. “A liberdade de escolher” foi o seu livrinho que, mesmo sem darmos conta, mudou parte do mundo. Certo Gonçalo?

Stimorol


Como um sem número de coisas boas, há muito que o Stimorol não se vende em Portugal. Disseram-me que era porque tinha alguns elementos com propriedades cancerígenas. Pois bem, mas na Bélgica podemos encontrá-lo. E não me parece que possamos dar lições de saúde aos belgas.

Por mim, mesmo sem ser fã de chicletes, aprecio o pacotinho que ainda mantém o grafismo dos anos 70 e, mais importante do isso, não deixa que as “pastilhinhas” se colem umas às outras quando expostas ao calor. Quer isto dizer que já faço parte do clube da Lenca.

16.11.06

"Até que dê sim"

Uma amiga, quando quer exemplificar a insistência absurda numa tese, numa ideia ou noutra coisa qualquer, utiliza a expressão "é como o referendo ao aborto. Vai tentar até que dê sim...".

E isto vem a propósto de um texto (muito bem) escrito aqui. A ler.

Milton Friedman


Não é um dos meus heróis (o Magno não dirá o mesmo). Mas é indiscutivelmente um dos mais marcantes economistas do século...

Regresso

Hoje, voltei a um sítio onde não ia há anos. E senti saudades. Do cheiro, dos monitores encostados uns aos outros, da "maior notícia do mundo" prestes a sair, do tocar incessante dos telefones, das portas que abrem e fecham constantemente...

Só 350 milhões?

Ao que parece, o Governo da Republica "escondeu" 350 milhões de euros da dívida pública. Para quem se dá ao luxo de apontar o dedo, não está nada mau...

Será que o Ministro das Finanças multar-se-á a si próprio? Espero para ver.

Festival

O Festival Internacional de Cinema do Funchal continua com mais espectadores do que o ano passado, com melhores filmes e com boa cobertura mediática. Quem parece ainda não saber o que se passa é o Governo Regional, atendendo ao "distanciamento" com que tem acompanhado o conjunto de eventos. É pena que aquele que poderia ser um óptimo cartaz turistico só recolha o apoio da Câmara Municipal do Funchal, que pese embora todas as suas limitações financeiras, faz o que pode...

12.11.06

Viva Portugal

1 - Foi bonito ver no Expresso desta semana Miguel Sousa Tavares elogiar o melhor primeiro-ministro português. Fiquei sensibilizado e deduzo que Sócrates também terá ficado. Começo a achar que mais dia, menos dia, MST vai mesmo para a RTP. É bonito ver que a amizade entre os dois prolifera a olhos vistos. O que é óptimo porque a amizade é uma relação nobre. Gostava é que o MST deixasse aquela sua pose de eu-que-sou-isento-tenho-reserva-moral-para-dizer-tudo-o-que-me-apetece. Porque também começamos a perceber que as suas opiniões estão profundamente inviezadas pelas suas crenças pessoais. Era bem melhor que o opinion-maker assumisse que gosta de fazer favores ao PS de Sócrates, como já assumiu que não gosta de Jardim. Pelo menos era mais honesto.

2 - De Santarém, nada de novo: os fiéis socialistas continuam a beijar o chão que Sócrates pisa. Esperemos que não sejam espezinhados.

3 - Parece que a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) vai investigar as pressões do PS aos jornalistas da RTP. Não percebo o silêncio do Sindicato dos Jornalistas que ainda não tomou qualquer posição sobre o assunto. Mas continuo à espera.

4 - Sócrates diz ouvir a rua. É pena que este fabuloso democrata não oiça os jornalistas quando lhe fazem perguntas incómodas. Não são muitas vezes, mas sempre que acontece Sócrates dá a sua melhor parte e o que mais gosta de dar: as costas. É interessante o processo de transformação que afecta o nosso PM: no início, sempre que a pergunta ponha em causa as suas posições, Sócrates assumia a postura de virgem ofendida e dizia: pelo amor de Deus! Agora, fica com ar furioso, não responde e pressiona, por trás do pano, os jornalistas. Cheira-me que qualquer dia começa a esmurrá-los. O que até nem seria mau, para ver se acordam e deixam de proteger este governo miserável.

5 - Por falar em jornalistas, é usual ver, nos dias que correm, a comunicação social questionar a progressão automática na carreira dos professores e demais função pública. Será que a rapaziada esquece que também eles têm um sistema de progressão automática? Afirmam que nem todos os jornalistas podem ser editores. Ora, pois bem, mas também nem todos os professores pertencem aos órgãos dirigentes das escolas.

Definitivamente, a falácia toldou a mentalidade a esta gente.

O que move Maximiano Martins

Não existem muitos socialistas madeirenses que mereçam o meu reconhecimento e admiração. Maximiano Martins foi uma excepção. Não só pela sua competência técnica e política, mas pelo facto de denotar um profundo sentir democrata. Por isso, sempre me pareceu que o deputado reunia condições óptimas para vir a ser, um dia, candidato a presidente do Governo Regional.
Todavia, nos últimos tempos, as suas atitudes têm sido uma desilusão. Isso mesmo fiz saber ao deputado, através de carta, aquando da polémica sobre o Centro Internacional de Negócios da Madeira (proposta para descida de IVA para as empresas de novas tecnologias). Na ocasião, o deputado teve a amabilidade de responder e reservando-me o direito de não publicar a sua resposta - não me parece curial, tendo em atenção que a troca de respondência obedeceu a um critério de eleitor-eleito - , retiro apenas uma citação; Maximiano Martins afirmou-me: Eu defendo, segundo o meu critério e a minha consciência, os interesses mais gerais da Madeira, dos madeirenses e do meu país.

Na ocasião, a sua afirmação bastou-me: afinal, podia divergir, mas teria que reconhecer a legitimidade da posição contrária. Todavia, desde o debate na 2, no passado sábado, as suas palavras têm me atormentado e não me saem da cabeça. Para quem não viu, quando inquirido sobre a bondade da proposta do Governo para a Lei das Finanças Regionais (LFR), o deputado eleito pelo círculo eleitoral da Madeira apenas soube dizer, em sua defesa, que a actual lei previa a sua revisão em 2001. Nada sobre a violação do Estatuto Político-Administrativo da Madeira, nada sobre o empolamento do PIB devido ao off-shore, nada sobre a real perda de fundos que a RAM irá sofrer e que, mais do que o Governo Regional e o seu presidente, irá prejudicar o povo madeirense. A sua posição foi não só frustrante, mas agoniante. Que interesses mais gerais da Madeira poderia o deputado defender com a apologia desta proposta do Governo, que prejudica objectivamente e de facto o povo madeirense? Para mim, foi a gota final que fez transbordar o copo: não tenho mais ilusões sobre o que move o deputado Maximiano Martins. Hoje, sei bem que a defesa clubística do seu partido é mais importante do que a defesa da Madeira e dos madeirenses. E isso jamais poderei aceitar.