6.2.07

Herberto Hélder


Herberto Hélder foi indicado hoje pelo Penn Club Português como candidato ao Nobel da Literaura. Isso tem a importância que tem ou que se lhe quiser dar, mas a verdade é que a possibilidade de um autor de lígua portuguesa ganhar o dito prémio nos próximos mil anos é absolutamente remota. De qualquer maneira, fiquei contente que se tenham lembrado de Herberto Hélder, para mim o melhor poeta português da segunda metade do século XX. Um madeirense absolutamente ignorado por cá (para bem dos seus pecados, diga-se de passagem!).

Já agora, o outro escritor que o Penn Club indicou foi o também poeta António Ramos Rosa. Merecidamente, digo eu...

Os animais carnívoros

Os Animais Carnívoros

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina eurgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.

Herberto Hélder

Se houvesse degraus na Terra...

Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder

Poema de um funcionário cansado

Poema de um Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para uma amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo da algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra,
quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa

3.2.07

Há Ministro!

Este sábado, o "Sol" tem uma notícia surpreendente: O Ministro do Ambiente desmentiu que ameaçara demitir-se. É verdade, meus caros amigos. Há um tipo que é Ministro do Ambiente. Tem nome e tudo. Chama-se Nunes Correia. É a surpresa geral!

Cavaco enganado

Confesso que não morro de amores por Cavaco. Nem pelo actual ministro da Justiça, Alberto Costa. Por isso, dá-me uma espécie de prazer sádico vê-los "meter a pata na poça". Esta de conceder um indulto a um tipo que andava foragido à Justiça é de morte... Enfim, mais uma trapalhada do Governo (esta semana, foram várias). Mais uma vez com a serena complacência do homem que nunca se engana... E que raramente tem dúvidas, para mal dos nossos pecados.

Só!!!

11 dos 25 árbitros das ligas profissionais serão suspensos no âmbito do "Apito Dourado". A mim, sinceramente, só me espanta serem tão poucos...

Cavaco

Cavaco não quer que o BPI seja espanhol. Pois bem, mas o que tem Cavaco a ver com isso? Ainda ninguém lhe explicou as competências de um presidente da república? Só se for isso...

Parabéns, camarada

O Magno foi nomeado Vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto Santo. Eu, que o conheço bem, acho que é a melhor escolha. Tem capacidade de trabalho, tem formação e tem... cultura. Parabéns, camarada. Diverte-te. E vê se continuas a escrever qualquer coisa por cá.

A Figura de Dürer

Recuperámos a figura de Dürer: Uma força poderosa manipulando o mundo. Está a direita de quem entra.

2.2.07

Poema de fim-de-semana

Como já fui acusado de machista e até de misógino, deixo aqui um poema de fim-de-semana algo feminista. Divirtam-se!

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Sátira aos HOMENS quando estão com gripe

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai mulher que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai mulher , mulher , não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai mulher, mulher fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior, Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai mulher, mulher nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai mulher, mulher que vou morrer.

1.2.07

Referendo ao Aborto - Algumas questões aos partidários do Sim.


Como quase todos os portugueses, quando se reiniciou o debate do referendo sobre o aborto, eu já tinha uma opinião formada. Também como quase todos os portugueses, já estou cansado de ver uma campanha de agressões, insultos, falta de respeito democrático e, acima de tudo, farto das certezas de todos os que se envolveram directamente nela. Dos dois lados. Por isso, recuso-me a ver e a ouvir mais debates, mais conferências, mais argumentos.
Mas, por motivos familiares – a minha casa é uma verdadeira democracia! – tenho discutido e argumentado e fiz o exercício de ponderar razões para votar Sim, porque o aborto clandestino não é apenas uma preocupação dos que apoiam a mudança da lei.

Deixo aqui perguntas que, se forem respondidas categoricamente, serão suficientes para eu mudar de opinião.

1. Os defensores do Sim argumentam que apesar do embrião ser humano, não é pessoa humana (antes de mais, acho curioso ver esta distinção na boca de um Francisco Louça, de um Jerónimo de Sousa, ou mesmo de um Jorge Coelho. Então não é esta mesma Esquerda que nunca aceitou a distinção entre Indivíduo Humano e Pessoa Humana proposta pela Democracia Cristã, cujo expoente máximo é o Personalismo, de Mounier? Mas…adiante!).
Assim sendo, em que fase do desenvolvimento é que o embrião passa a ser pessoa? Sabemos que a ciência nos diz que o processo de vida é ininterrupto desde o momento da fecundação. O que falta então para conferirmos ao embrião a mesma dignidade que nos merece a mulher?

2. A formulação da pergunta: basta apenas a grávida manifestar o desejo de abortar. Então e se esta tiver 13 anos, ou 14, ou 15? Bastará dirigir-se a um estabelecimento de saúde e solicitar o aborto? O natural é que não, pois o Estado não lhes reconhece capacidade de decisão. Será, portanto, normal que exija a presença dos pais. Mas então, surge outra questão: o estudo da própria APF (feito por encomenda, diga-se de passagem) demonstra que a maior parte dos abortos são feitos por adolescentes, cuja principal razão é evitar que os seus encarregados de educação descubram. Estas miúdas passarão, por artes mágicas, a conversar com os pais, ou continuarão a recorrer ao aborto clandestino?;
3. Na maior parte dos países onde o aborto é feito a pedido da grávida, esta tem que se submeter a sessões de aconselhamento. Como será em Portugal? Estará um sistema de saúde que não promove educação para a saúde, que não consegue responder a cirurgias urgentes (conheço um senhor que tem marcada uma cirurgia oncológica de carácter urgente há 6 meses), apto a prestar este serviço? Estará este mesmo sistema apto para proceder às determinações legais antes das 10 semanas? Haverão unidades suficientes no país com capacidade para responder, atendendo ao encerramento de centros de saúde, maternidades e à legítima objecção de consciência de alguns médicos?
4. Como procederá o tal sistema repressivo do Estado quando uma mulher fizer um aborto às 11 semanas? Que atitude tomar em relação a ela, à clínica-de-vão-de- escada e à abortadeira? Mas e se for num estabelecimento de saúde legalmente autorizado? Que atitude será tomada em relação à entidade, ou mesmo à equipa?

5. As tais mulheres que não têm dinheiro para recorrer às clínicas espanholas e com as quais parecem muito preocupados os movimentos e partidos pelo Sim recorrerão a estes serviços, se o Estado não garante o seu anonimato?

6. Diminuirá o número de crianças espalhadas pelos bairros de lata, se estas famílias desestruturadas não estão formadas sequer para o uso do preservativo?

Eu sei que os movimentos pelo Sim não querem responder a estas perguntas (são incómodas, não são?), alegando não serem essenciais. Pois, para mim são. Respondam-nas e terão o meu voto!

PS – É curioso que num debate sobre um tema de ético-social, alguns defensores no SIM à mudança da lei façam da sua campanha uma perseguição à Igreja Católica. É ver cartazes contra a Fé dos Outros, são as suspeitas lançadas, são as invectivas, enfim, uma multiplicidade de ultrajes à escolha. Esta contemporaneidade, que assume como politicamente correcto perseguir os crentes, cheira a revolução jacobina. Eu já ouvi mesmo da boca de uma certa esquerda “mata-frades” que o Extremismo Islâmico é mais digno de respeito do que a Igreja Católica. Cada vez mais me convenço que esta não é apenas mais uma teoria da conspiração. A diferença é que, há 100 anos, esta mesma Esquerda usava como argumento para os levantamentos populares a miséria que então grassava, culpabilizando a Igreja por todos os males. Hoje, usa a Cultura, mas o objectivo é sempre o mesmo.

31.1.07

Quem muito se agacha, professora Caré...

Os professores que se manifestaram na Madeira contra Sócrates vão, esta tarde, à PSP prestar declarações pelo facto de terem "ousado contestar o glamoroso primeiro. E eu estou curioso para ver a reacção da sra. professora Caré.

É que, afinal, a maioria daqueles que foram intimados a ir à Polícia são, para além de docentes, dirigentes do Sindicato dos Professores da Madeira (SPM). O mesmo que a sra. professora Caré dirigiu durante anos. O mesmo que lhe deu a projecção política que hoje tem. ~

São, em muitos casos, antigos "companheiros de armas" da actual deputada socialista. Que fizeram - alguns deles - parte das direcções por ela presididas. E que hoje afirmam "nunca ter passado por situação semelhante", a ponto da intervenção das autoridades só ser comparável às famosas entrevistas "da PIDE" - as palavras entre-aspas são da autoria da actual presidente do SPM, uma das manifestantes intimadas.

Estou em crer que a sra. professora Caré não terá qualquer reacção. É que a cadeira de São Bento é tão... confortável. E o PS-M tão...subserviente.

Esquece-se a senhora professora Caré de uma frase que todos ouvimos da boca dos nosos avós: "quem muito se agacha o rabo lhe aparece". Mas era tão bom que de vez em quando se lembrasse...

A honestidade do Pinho


Com o primeiro ministro Sócrates na cadeira ao lado, o bom do ministro Pinho foi à China dizer que Portugal é um país convidativo para o investimento estrangeiro porque tem, e passo a citar, "os mais baixos salários da União Europeia".


Com esta afirmação, o apatetado Pinho - com o primeiro ministro sentado na cadeira ao lado - revelou a estratégia do Governo para o país captar dinheirinho de fora: Manter os salários baixos e mostrar a pátria lusa "na estranja" exactamente como era apresentada há 20 anos, ou seja, sítio bom para investir porque se paga pouco a quem trabalha.


Resumindo, enquanto todos os outros países da UE (incluindo os "novos") investem na tecnologia e na qualificação da mão-de-obra para atrair investimento, criando estratégias baseadas nesses dois vectores para aumentar a competitividade, Portugal tenta, segundo aquilo que o eufano Pinho orgulhosamente afirmou - com o primeiro ministro da cadeira ao lado - manter os baixos salários, porque essa é a nossa estratégia competitiva.


Creio que pela primeira vez o Pinho foi completamente honesto - com o primeiro ministro sentado na cadeira ao lado. Foi preciso ir à China, mas lá honesto o homem foi... Uma vez na vida. E ficámos assim a saber aquilo que nos espera nos próximos tempos...

27.1.07

Breves

- A CGTP faz campanha pelo Sim, no referendo ao aborto. E ainda me perguntam porque não sou sindicalizado! É que gosto pouco de ser marioneta ou pedra de arremesso!

- Os manifestantes que na Madeira criticaram Sócrates estão a ser interrogados pela PSP. É a beleza da democracia socrática (do nosso, pois claro)!

- Parece que o Governo da República anuncia investimentos que (acredite se quiser) já estão concluídos. Só não é de levar às lágrimas, porque infelizmente este é o Governo de Portugal.

- Ontem o FCP perdeu. É apenas a 2º derrota do actual campeão e já o professor lançou suspeitas sobre a equipa de arbitragem. Parece que o tempo de formação no Porto é bastante curto. Mas isto vai ser bonito, quando o Porto começar a perder com maior frequência.

Bom fim-de-semana a todos.

Liberdade para a economia ("tadinha"...!)

Uma tal Economic Freedom Network publicou um anuário sobre a liberdade económica, cotando os diversos países de acordo com uma série de critérios neo-liberais. De acordo com este relatório, Portugal está em 20º lugar, à frente de (pasme-se!) Espanha e mesmo da Suécia (não é piada. É mesmo verdade). Aliás, no que toca à liberdade económica, Portugal situa-se em 6º lugar entre os países que integram a UE, sendo a avaliação superior à média Europeia (a 25).

Parece uma boa notícia, mas nós, leigos em economia, temos algumas perguntinhas para colocar a este movimento neo-liberal:

1) A liberalização absoluta da economia é vendida como a banha da cobra, prometendo resolver todos os nossos problemas económico-sociais. Ora, estando Portugal tão bem classificado, porque raio não saímos desta cepa torta?

2) Como poderão os espanhóis e os suecos viverem melhor do que os portugueses, se a economia deles é tão oprimida?

3) Em que é que a liberalização total dos despedimentos melhorará a vida de todos nós?

É que sinceramente não percebo. Mas isto deve ser defeito de formação.

PS - É por estas e por outras que cada vez mais olho com desconfiança para este liberalismo contemporâneo. Perdeu-se tudo o que de político havia neste movimento, passando a ser apenas um cálculo económico. Não me venham é pedir que acredite ainda ser possível encontrar políticas sociais.

Debaixo d`olho

A JSD faz campanha na Madeira pelo “nim”.
É uma opção pouco inteligente da mulher eleita para comandar a maior organização política-juvenil na região. Até compreendo a ideia, mas quem quer fazer carreira política, tem que ter posição firme. Falo do aborto.


O clero madeirense continua órfão. Está difícil a escolha do novo líder da Igreja Católica regional. Já foi o ano passado que o actual bispo despediu-se com uma missa e ainda não se conhece o sucessor de D. Teodoro Faria. Fontes próximas da igreja, dizem que todos os eventuais candidatos demonstram pouco interesse pelo cargo. O homem que se segue, dizem, vem da diocese de Évora. Será?


Conceição Estudante, secretária com a pasta da saúde, “puxou as orelhas aos enfermeiros”. Foi um dia destes. É pena que a senhora não tenha coragem para fazer o mesmo com os médicos. Já ouvi vários discursos dela e em nenhum atreveu-se a chamar “os bois pelos nomes”. No auditório estavam os intocáveis senhores doutores. É pena que só faça política a reboque dos mais fracos. Foi, inclusive, deselegante com a classe. A única que é para mim, o motor do hospital. Isto porque os senhores doutores vão lá, fazem o mínimo, ganham o ordenado, e vão encher os bolsos para o privado. Não todos. A maioria.

25.1.07

Estamos em obras. Quer dizer, o Gonçalo & Companhia estão. Eu observo. Pelo incómodo pedimos desculpa. Eles renovam a imagem. Nada de confundir com outras paixões (FCP).

O Rei faz anos!


O Rei faz anos... Parabéns ao Rei!

Negócios com e sem futuro

De acordo com notícia vinda a Público ontem (gostaram do trocadilho?), uma empresa alemã propõe-se a explorar um negócio inovador: o aluguer de manifestantes para causas sem adeptos. Os preços variam entre os 10 e os 30€ por hora, podendo chegar aos 145€ por dia, num máximo de 300 manifestantes (número de pessoas que se registaram no site a vender este serviço). Reconheço que já vi coisas mais estranhas a merecer maior atenção psiquiátrica: a Dra. Ana Gomes, por exemplo. Mas a ideia não parece descabida de todo, porque por esta Europa fora há na verdade muita causa a precisar de manifestantes. E de ideias, já agora.
Na verdade, este novo negócio abre portas a novos segmentos de mercado e é todo um novo mundo que os radicais se aprestam a explorar. Já consigo imaginar manifestações em Bruxelas a defender o casamento entre cães e gatos e protestos violentos contra o fim do tremoço nas tascas portuguesas. A imaginação é, e será, o limite.
Pena que em Portugal, o negócio não tenha qualquer viabilidade porque o sector vive numa espécie de monopólio. Como se sabe, a seita do Dr. Louçã preenche na totalidade as necessidades parcas do mercado. E faz esse trabalhinho... de graça.

Uma festa

A plataforma do Não Obrigada, continua em intensa e mirabolante campanha. Agora propõe-se fazer uma festa designada convenientemente por Party 4Life. Desconheço o autor de semelhante ideia, aliás, uma designação copiada de alguma rave com Dj’s que apelam à pastilha sob o ritmo da dance music. Mas o fenómeno é demonstrativo do patamar a que se chegou.
As campanhas, de ambos os lados, estão pelas ruas da amargura. Argumentos baixos são respondidos com argumentos ainda mais baixos e o esclarecimento é o último dos objectivos propostos (sobre este assunto, ler o artigo muito lúcido de Pacheco Pereira no Público de hoje). Como disse há uns tempos atrás, a campanha não mudará a opinião de ninguém e será, toda ela, inócua, radicalizando-se à medida que se aproxima a data do referendo. Se exemplos faltassem para me dar razão, bastava ler alguns posts do blogue da já referida plataforma ou imaginar esta ideia da rave Party4Life.
Era bom que ninguém seguisse estes espalhafatosos caminhos e não fizesse dum drama real, uma festa de ocasião. Mas naturalmente temo que uma campanha normal não seja mais possível. Infelizmente para todos nós, há muito sofrimento silencioso neste país. Que merecia mais respeito. E que merecia outro tipo de atenção.

Anúncio (pedido de desculpa)



Escandalosamente roubado aqui.

Contribuições dos leitores

Imaginem um lugar onde se pudessem ler, gratuitamente, as obras de Machado de Assis, ou A Divina Comédia, ou ter acesso a contos infantis de todos os tempos. Um lugar que vos mostrasse as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci, ou onde se pudessem ouvir músicas em MP3 de alta qualidade. Esse lugar existe!!!!

O Ministério da Educação do Brasil, disponibiliza tudo isso; basta aceder ao site: www.dominiopublico.gov.br

Só de literatura portuguesa são 732 obras!

Estamos em via de perder tudo isso, pois vão desactivar o projecto por falta de uso, já que o volume de acesso é muito reduzido.

Vamos tentar impedir esta desgraça, divulgando e incentivando amigos, parentes e conhecidos, a utilizarem esta fantástica ferramenta de disseminação da Cultura e do gosto pela leitura.

AM

24.1.07

R'áis Parta

As inovações têm sempre estas merdas. Hoje, à hora de almoço, resolvi passar isto para a versão mais nova. Resultado: Os links que estavam separados por blogs de cá e blogs de lá desapareceram. Tal como os nossos perfis. R'àis parta a inovação...

Prometo que nos próximos dias vou resolver isto. Espero que com a ajuda dos outros tripulantes deste barco.

Ricardo


Confesso que gosto do Ricardo. O mais "português" dos futebolistas portugueses, reunindo em si as qualidades e defeitos geralmente apontados aos lusos. Inconstante, capaz do melhor e do pior em escassos segundos. É emotivo, valente mas às vezes deixa-se ir abaixo em situações inesperadas. Cria uma relação especial com os seus adeptos, que às vezes é de pura paixão e outras é de profunda desilusão.

O Ricardo não é consensual. É uma espécie de Pedro Barbosa debaixo dos postes. Um verdadeiro leão em dias bons. Um gato manso e gordo em dias maus.

De qualquer maneira, o Ricardo é um espectáculo. Quando defende penáltis sem luvas. Quando puxa a bola para si e num segundo resolve uma contenda interminável. Quando deixa os ingleses com os nervos em franja. Quando sai da baliza desesperado e falha a bola e recupera a tempo de salvar a vida. Quando voa a remates impossíveis. Quando motiva e se emociona. De qualquer maneira, o Ricardo é um espectáculo!

Agora, foi classiicado, pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, o sétimo melhor gurda-redes do mundo. À frente, por exemplo, de Kanh, Dida, Barthez, Abbondazieri (da selecção argentina) e de muitos outros nomes famosos.

Sabe bem ter um dos melhores entre os nossos...

23.1.07

E a Mónica?

Que papel estará reservado a Mónica Lewinsky numa nova Administração Clinton?

Constatação

Hillary Clinton pode bater o recorde de Roosevelt: mais de 12 anos à frente da Casa Branca.

Pessoal e intransmissível

Na América, é-se presidente de Clinton para Clinton ou de Bush para Bush. Que é como quem diz, de marido para mulher ou de pai para filho. Não é uma monarquia. Mas convenhamos que é parecido. Ainda assim, sou e serei sempre, Republicano. Como diz o velho ditado: mais vale um Bush na mão que dois Clintons a voar.

Sem limites

A dona Edite Estrela anunciou ontem, toda eufana, que o Parlamento dinamarquês apelara a Portugal para votar "sim" no referendo. De facto, a pequenez lusa não tem limites... nem vergonha, pelos vistos.

Hilariante, no mínimo

Nos EUA a corrida à Casa Branca já teve o seu início. Depois de Barack Obama, eis que a senadora de Nova Iorque e ex-primeira dama americana, Hillary Clinton, também anunciou a sua candidatura à nomeação democrata. Nada tenho contra o Partido Democrata americano (aliás, um estranho repositório de muitas tendências e opiniões), mas na América muita coisa é na realidade possível – basta ver os delírios dos ficheiros secretos ou mesmo alguns filmes do Oliver Stone para se ver o quão delirante pode ser o clima e a imaginação.

A senadora de Nova Iorque promete luta, como é óbvio. O vídeo emitido na sua página de internet é disso elucidativo. Muito charme à mistura e doses q.b. de suposto diálogo tipo chuva de ideias. Quem quiser acreditar que acredite. A ingenuidade é uma qualidade preciosa.

É até provável, pelos tempos actuais, que Hillary atinja o objectivo a que se propõe: tem experiência por casamento, tem apoio popular, aguentou-se com dignidade enquanto mulher enganada pelo então homem mais poderoso do mundo, é inteligente, é branca, é protestante e, inclusive tão na moda, é mulher.

Contudo, é necessário colocar certos freios nalguns excitados comentários. O facto de Hillary poder chegar à Casa Branca em nada mudará a política externa americana como alguns incautos imaginam. A América continuará igual ao que sempre foi: expansionista, influenciadora, dominadora. Porque há um erro de base que os europeus antiamericanos, um estranho epifenómeno cada vez mais preocupante, (para quando um grupo parlamentar no Parlamento Europeu, Dr. Miguel Portas?) cometem frequentemente. A América joga em vários tabuleiros e a sua política externa não se esgota em Bagdad ou no conflito israelo-árabe. Vai muito para além disso. Enquanto os europeus lutavam abnegadamente por se fazerem notados (um esforço cada vez mais efémero e simpático) a América fechou, só no ano passado, e por exemplo, importantes acordos com a Índia, China, Indonésia e México, demonstrando um jogo geoestratégico brilhante que aumentou a sua influência. Reparem que as economias emergentes são as que mais se querem aproximar do mundo americano, ao contrário do que muitos afirmam.

Nós por cá, sediados nesta fortaleza inexpugnável mas ironicamente inamovível, continuamos no irrealismo do costume. O mesmo que já nos trouxe a decadência que nos recusamos enfrentar. A América, independentemente da sua liderança, continuará essencial para o mundo. A Europa, inutilmente, não será mais do que um acessório - de pouco peso, de pouca chama, já quase sem alma. Uma amostra de civilização. É isso que infelizmente boa parte dos europeus ainda não percebeu. Ou não quer perceber.

O sargento foi preso... e bem

Um sargento que não cumpre. Uma menina infeliz (qual Cinderela, ou Floribela, para ser mais moderno). Uma "mãe Aidida". Um pai deliquente. Um juiz. O Estado. Fazedores de opinião. Movimentos de cidadãos. Pedidos idiotas de "habeas corpus". Jornalistas a espreitar atrás de portas. Nem o mais reputado argumentista de uma das telenovelas da TVI seria capaz de lembrar-se de melhor enredo. Só que infelizmente o caso é real. Parece que o circo voltou mesmo à cidade.

A "estória" da "menina em fuga e do sargento preso" revela, mais uma vez, o gosto português pela tragédia (que o meu amigo Magno parece partilhar).

Então vamos aos factos. Mostrando as coisas como elas são. O sargento que foi preso mereceu o castigo. Senão vejamos: foi intimado, por um Tribunal, a entregar a criança. Não só não cumpriu a ordem como "desapareceu" com a mulher e com a filha para parte incerta. E foi julgado por isso mesmo. E condenado. E bem (tratando-se, ainda por cima, de um militar). Pode, caso se sinta injustiçado, recorrer para instâncias superiores.

Não ignoro o contexto em que tudo isto se desenrolou. Não ignoro que, em Portugal, os processos de adopção são uma idiotice pegada, feitos para que as criancinhas cheguem mesmo à idade adulta em instituições decadentes. Não ignoro que a divisão do país em "capelinhas" faz com que ninguém fale com ninguém e que os processos corram separados por várias instâncias até ao juízo final. E não ignoro que, provavelmente, para a menina o ideal seria ficar com o homem do boné.

O problema é que não foi isso que foi julgado em Torres Vedras.

Pode ser que toda esta trama tenha um lado positivo, ou seja, pode ser que abra o debate sobre os processos de adopção em Portugal e sobre a forma imbecil e desumana como o país tem tratado os seus mais desprotegidos cidadãos. De qualquer maneira, não tem sido essa a discussão que andado na praça pública. O que se tem discutido são os promenores sórdidos de um caso particular. E pedidos idiotas de "habeas corpus", feitos por gente que, apesar de professar direito, de direito não entende nada. Porque não entente que as decisões dos tribunais devem ser respeitadas. Porque esse respeito é um dos fundamentos do Estado. E que a lei permite o recurso até à ultima instância. Nestas coisas, é necessário separar a razão do coração.

Magno, já agora, utilizar toda esta novela para falar do aborto não é nada inteligente, de facto...

22.1.07

Os grandes portugueses

A RTP lançou um concurso dedicado à eleição dos maiores portugueses de sempre. A iniciativa não passa de um passatempo, mas levantou interessante celeuma nos indígenas com a chegada aos 10 finalistas de dois actores sombrios: Cunhal e Salazar. Não se percebe o drama. Nem o espanto. Em Inglaterra, nos dez finalistas, estiveram o Lennon e a Diana. Nos EUA, a Oprah e o Elvis. Reconheçam que ter nomeações deste calibre, no nosso país, era o mesmo que seleccionar o José Cid, o Quim Barreiros ou a Catarina Furtado. Infelizmente para o nosso imaginário colectivo, nenhum dos ilustres anteriores logrou atingir a final, o que nos deixa com este insosso dilema, sem grande graça e imaginação, e a discutir a personalidade de dois dos principais candidatos à vitória.

Enquanto portugueses, um traço essencial da nossa pérfida personalidade tem a ver com essa atracção fatal pela autoridade e pelo respeitinho. Se por um lado, admiramos e amamos o ditador de pacotilha que nos regeu, por um outro, idolatramos e respeitamos essa espécie de cópia de Estaline que quis transformar Portugal na nova Albânia. Um e outro são carne com a mesma origem: inimigos declarados da democracia, mas heróis velados do glorioso, e ainda estranhamente vivo, povo português. Nada de transcendental, portanto. E nada que a nossa triste história não demonstre e comente em abundância.

A corrida ao primeiro lugar, entretanto, começou, mesmo que os fãs dum e doutro – Salazar e Cunhal – se alimentem do ódio ao seu contrário. Já imaginaram melhor publicidade para o nosso país?

21.1.07

A filhinha de Deus


Não sou habitual comentador de “notícias” do género das da TVI. Mas até da Lua se vê que a condenação a 6 anos de prisão do pai adoptivo (e sargento, o que só o enterrou mais) da menina de Torres Novas é de uma total injustiça.

Só quem nunca assistiu a um processo de adopção em Portugal é que pode dizer o contrário. Nada nestes casos, mas mesmo nada, funciona sequer nos limites do tolerável. Nem mesmo quando as evidências são mais claras do que a água. E a evidência é que não se trata de um sequestro; a evidência é que a mãe biológica deu-o para adopção; a evidência é que o pai biológico nunca quis saber da pequena e é, ou sempre foi, um faminto e um reles desgraçado; a evidência é que a pequena cresceu cinco anos com os pais adoptivos, que para ela são também os “biológicos”.

De facto, este melodrama põe a nu, coisa que toda a gente já está farta de saber, a justiça desarticulada e hiperbolicamente objectiva que temos.

A coisa, provavelmente, acabará com um parecer mais ou menos criptográfico emitido pelo conjunto dos “deficientes motores”, quase todos com visíveis marcas de trombose, que formam o nosso Tribunal Constitucional. E tudo ficará na mesma, pois o povo não percebe nada de leis.

Olhem, em termos mais simples e práticos, e “asneira” por "asneira”, um aborto consciente e autorizado teria evitado toda esta novela em torno desta filhinha de Deus.

19.1.07

As abjectas palavras de Eduardo Prado Coelho.

A desonestidade intelectual e a baixeza moral de Eduardo Prado Coelho não param de surpreender. O colunista do Público, mais conhecido por adorar cobrir-se com pele de vestal da moralidade humanista, tem, de vez em quando, umas saídas muito mais adequadas à qualquer moço de recados, do que a um opinion maker.
Desta feita, na sua crónica do dia 18, a coberto de uma suposta crítica às afirmações proferidas por um clérigo (Monsenhor Luciano Guerra) sobre o aborto, Eduardo Prado Coelho (EPC) ataca traiçoeira e cobardemente uma instituição como a Igreja Católica que, por muito que lhe custe, reúne entre os seus membros uma grande parte da sociedade portuguesa. Fazendo crer que as suas críticas apenas se destinam às afirmações do clérigo em questão (algumas delas, de resto, muito infelizes) e que sabe separar aquela que é a posição de Igreja sobre o aborto, das posições adoptadas por alguns dos seus membros e sob o chapéu de uma suposta e auto-proclamada neutralidade, este candidato a “mata-frades” enfia a farpazita que tanto o orgulha e que motiva toda a sua ladainha. Depois de tanto alarde sobre isenção, EPC afirma: Gostaria que a doutrina da Igreja fosse de generosidade, alegria, amor pela vida. Mas, na maior parte das vezes, é este conjunto inacreditável, bolorento, enferrujado, de absurdos.
Não gosto do EPC e gostaria sinceramente de reconhecer-lhe tanta honestidade, quanto cultura e inteligência. Porque reconheço-lhe uma destreza mental que não é comum à maioria dos demais colunistas. Todavia, de cada vez que leio a sua coluna, mais do que admirar as qualidades intelectuais, culturais e literárias, abomino a vileza com que se dirige àqueles que pensam de forma diversa. Porque EPC, não sendo um imbecil qualquer, sabe perfeitamente que as posições assumidas pelo Monsenhor Guerra, ou pelo senhor pároco X ou Y, não fazem a doutrina da Igreja sobre as suas orientações ético-religiosas. E é vil, porque EPC conhecendo, omite, deliberadamente, todas as encíclicas e textos religiosos libertados por Roma sobre esta matéria. Como pensamento nascido do homem (o dogma da infalibilidade apenas se refere às questões religiosas), as orientações da Igreja são criticáveis. Mas EPC, pela responsabilidade que tem, deveria ser suficientemente honesto para não entorpecer a mente dos seus leitores com estes ardis. Se quer criticar a posição da Igreja Católica sobre o aborto, faça-o directamente. Se quer criticar o Catolicismo, é livre para o fazer. Não é legítimo, contudo, que de forma deliberada, EPC aproveite as afirmações infelizes de um clérigo, para confundi-las com a doutrina da Igreja. Porque conscientemente, não está a atirar apenas a água, mas o bebé. E isto é baixo, desonesto e abjecto.

PS - E antes que me venham acusar de tendencioso - que sou!-, oiçam ou leiam as palavras do Patriarca de Lisboa sobre métodos contraceptivos, aborto, pílula do dia seguinte. Porque ele sim, representa a Santa Sé em Portugal.

18.1.07

Apropriado

Na próxima época, o Benfica jogará de cor de rosa. Nada mais apropriado para uma equipa de "papoilas saltitantes" - juro que esta expressão faz parte do hino do clube do "barbas"...

O aborto segundo Vasco

Um dos mais inteligentes textos sobre o referendo. Embora não partilhe de alguns dos seus pontos de vista, confesso que ler o Vasco Pulido Valente é sempre um prazer.

Este texto, só descobri agora, numa viagem na blogosfera.

O Aborto

O referendo sobre a IVG, ou mais prosaicamente sobre o aborto, foi marcado. O Presidente da República, para presumível espanto dos portugueses, pediu "serenidade". Se o referendo se distinguir por alguma coisa, será com certeza por um excesso de serenidade. O cardeal Policarpo já disse que se tratava de um problema político e não religioso; um problema do Estado e não da Igreja. Os grandes partidos do "centrão" não se envolveram no caso. E é provável que menos de 50 por cento do eleitorado nem sequer se dê ao trabalho de ir votar. Claro que se constituíram uns pequenos grupos de personalidades, que defendem o "sim" ou defendem o "não", com o costumado zelo, mas não suscitaram, nem parecem vir a suscitar grande entusiasmo. Há boas razões para este desinteresse do país. Por muito que doa a uma certa demagogia, materialmente, a questão do aborto acabou por se tornar numa questão
residual. O uso dos contraceptivos (que não custam caro) e, sobretudo, a "pílula do dia
seguinte" (venda livre a menos de quatro euros) fizeram do aborto o resultado da
ignorância, da irresponsabilidade ou da má sorte.
A despenalização (para mim, obrigatória e tardia) não irá produzir um efeito social apreciável. O valor do referendo é, na essência, simbólico. É o confronto entre duas concepções do homem e da vida, que antigamente, de facto, provocou alguma excitação e violência. Só que hoje, num tempo em que se desvanece o sentimento do "sagrado", esse confronto também se diluiu e comove muito pouca gente (católica ou não). A gravidade da despenalização (a que, repito, sou favorável) está num ponto de que ninguém fala: no aborto gratuito no Serviço Nacional de Saúde. Não porque o Serviço Nacional não possa suportar o encargo. Mas porque se o Estado protege uma "cultura demorte", para usar a expressão do Papa Ratzinger, tem necessariamente de proteger uma "cultura de vida". Ou, traduzindo, se o Estado oferece o SNS a quem quer abortar, tem necessariamente de oferecer meios de subsistência a quem não quer abortar (a uma jovem grávida de 14 anos, por exemplo). Sabemos que pela "Europa" inteira a gravidez se transformou num processo de emancipação (da escola, do trabalho, dos pais), que sobrecarrega o Estado e criou uma "subclasse" parasítica e permanente (a cada filho, a mãe recebe mais dinheiro). Convinha que em Portugal a despenalização evitasse este corolário perverso. Infelizmente, não se vê bem como.

Vasco Pulido Valente

In Público, 2 de Dezembro de 2006

Gracices

Um dos blogs de que mais gosto. E talvez por isso, um dos que mais esqueço. Ontem, com o Angel e com a Tânia, lembrámo-nos dele. E de quem o preenche. (Será que a arrecadação ainda recebe gente?).

16.1.07

Um caso

A equipa do Dr. Louçã tem vindo acusar os defensores do não, e nomeadamente a equipa do Dr. Bagão Félix, de estar a ser financiada por milionários conservadores interessados em fazer chumbar o referendo. A história, uma demência completa, começou durante o fim-de-semana e foi hoje continuada por um tal de Jorge Costa, num sinal claro de que a tese, para além de perigosa, é também contagiosa. Para quem se diz muito interessado e empenhado no referendo, há que convir que este método de campanha (que basicamente se resume a fazer queixinhas do adversário) faz conjecturar sobre os seus verdadeiros propósitos. Com tanta asneira junta, é justo desconfiar de certos episódios políticos que servem, descaradamente, uma certa esquerda apelidada de folclórica quando esta se sente órfã das causas de ruptura que tanto gosta de desfilar. De facto, caro leitor, e na realidade complexa que nos amarra, se no referendo acabar por vencer o sim, o Dr. Louçã ficará mais pobre e com menos coelhos para sacar da cartola. E já agora sem as meninas à saída dos tribunais. Sem o aborto (uma causa social fracturante), o que ainda lhe resta é radicalmente pobre: a eutanásia, os casamentos dos homossexuais, a adopção pelos mesmos e talvez os charros fumados livre e impunemente nas salas de aulas (ao mesmo tempo que proíbem o cigarro em nome da higiene atmosférica e o professor em nome do ensino livre e sem barreiras). Convenhamos que não é muita coisa. Nem grande coisa. O Dr. Louçã tem legítimas razões para estar preocupado. Afinal, a partir de Fevereiro, há menos um drama no seu repertório. Ou, se preferirem, menos um número no seu eterno festival de circo. E como todos nós sabemos, em época de crise, o público não abunda.

Yo no creo en brujas pero que las hay... las hay!

O Ministério da Educação anunciou hoje que irá criar a figura do professor-tutor para o 2º ciclo, que será responsável pelas disciplinas de Português, Matemática e Ciências da Natureza. À partida, esta não me parece uma má ideia, uma vez que permitirá às crianças uma passagem menos agressiva entre o 1º e o 2º ciclo.
Espero, sinceramente, que se dê tempo às universidades para preparar curricula adequados, que se façam experiências e que só se avance para esta nova metodologia quando houver profissionais formados e certeza de que o modelo funciona. Mas tendo como exemplo o que se passou com as Actividades de Enriquecimento Curricular, em que bastou a Sra. Ministra sonhar durante a noite para se implementar durante o dia - sem que se tivesse acautelado formação para os professores de inglês e de educação física (cuja formação está apenas indicada para alunos com idades superiores a 10 anos, cujos processos cognitivos são, naturalmente, diferentes de alunos em estádios de desenvolvimento inferiores), ou que se tivesse confirmado se o mercado tinha capacidade para responder à necessidade de milhares de professores de música qualificados – eu não fico descansado. Espero é que a barraca que o Ministério provocou sirva de exemplo. Sob pena de se hipotecar (ainda mais) o futuro da Educação em Portugal. É como lá diz o ditado de nuestros hermanos...

Interessantes

"Alguns anos depois" e "Gustavatantodele" são dois blogs da Madeira que descobri aqui. Interessantes, por sinal. As portas são ali ao lado.

Um professor de música que não sabe tocar nenhum instrumento


É verdade, inteiramente verdade. Conheci hoje um professor de música (ele com azar e eu com sorte) que, afirmou o próprio, não sabe nem nunca soube tocar um instrumento musical que seja.

Juro que me apeteceu bater-lhe e depois mandar acoitá-lo publicamente. E olhem que não faltou muito. O ele ter dito que não sabia tocar qualquer instrumento musical não é em si o mais grave. O mais grave é este energúmeno ser diplomado e “ensinar” miúdos. E quantos outros como este já não debitou o Ensino Superior em Portugal.

Afinal, como suspeitava, sempre tive razão. A educação está como está porque, em primeira instância, existem muito maus professores. Não me digam que há muitas excepções porque sei isso muito bem.

15.1.07

O engodo

Disparando na direcção errada, como é habitual em si, o Sr. Hermínio Loureiro (que ainda não cumpriu a promessa de suspender o seu mandato) trouxe a profissionalização da arbitragem para a ordem do dia. A ideia é tão simplória como a mente que a avança: já que todos os protagonistas envolvidos no jogo são profissionais, os árbitros também têm de ser profissionais. Talvez fosse escusado comentar semelhante idiotia vinda de quem vem, mas se hoje, e como dizem, há corrupção como será se o sustento desta gente depender do modo como apita domingo a domingo? Mais: como se pode confiar nas classificações dos árbitros quando se conhecem tantos vergonhosos casos de situações surreais onde há claro benefício do infractor? O futebol em Portugal é cada vez mais uma utopia. Nesta jornada, em sete jogos até agora, apontaram-se oito golos. Isto depois de mais de um mês de descanso que não serviu para arejar as cabecinhas de técnicos medíocres e de jogadores preocupados em demasia com os seus desempenhos teatrais de má qualidade. No sábado, em jogo transmitido em sinal aberto, Belenenses e Sporting deram um bom exemplo de como o problema não está na arbitragem e na sua profissionalização. O problema está em tudo o resto: nos jogadores banais, nos técnicos insignificantes, nos dirigentes interesseiros e no público pouco exigente que ainda alimenta este circo. O Sr. Loureiro pode continuar descansado. Conseguiu o que todos os outros antes de si também conseguiram por tempo indeterminado: desviar as atenções do verdadeiro problema estrutural que o nosso futebol atravessa. Enquanto isso, lá vai ele passeando de terra em terra apresentando as suas salvadoras ideias para o pântano. Como a história infelizmente nos ensina, o Sr. Loureiro não é nenhum salvador: é apenas mais um coveiro.

A ler

"Lisura". "Porto Santo". "Cimentos". Três textos a ler com interesse atenção. Aqui.

Timing

Será que o "timing" de encerramento do NM tem alguma coisa a ver com um anúncio feito há uns dias por Augusto Santos Silva? Há reuniões de que se fala muito, outrs de que se fala pouco e outras de que não se fala de todo...