"Reúne sete ou oito sábios e tornar-se-ão outros tantos tolos, pois incapazes de chegar a acordo entre eles, discutem as coisas em vez de as fazerem" - António da Venafro
21.1.09
Colonial, mas correcto!
Por isso, neste caso, apesar da macieira estar podre, a verdade é que as maçãs são mais do que comestíveis. E espero que, se houver alguma dignidade partidária, não se volte a insultar desta forma os contribuintes madeirenses. Porque nem os deputados merecem, nem o seu trabalho justifica.
Tu disseste (Who Cares?)
Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"
Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"
Eu disse "eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"
Adolfo Luxúria Canibal
Dedicado a alguém muito especial que só tem uma questão a atormentá-la: Who Cares?
20.1.09
Os dados estão lançados
A tomada de posse de Obama representa um momento de esperança. Até eu, que não fui um adepto de primeira hora do novo presidente, convenci-me aos poucos de que os Estados Unidos e o mundo necessitavam de outro tipo de discurso, que recuperasse a crença de que outro caminho, sendo desejável, é também possível.
Obama é um político extraordinariamente inteligente. Ontem, fez questão de baixar as expectativas. Mas mesmo assim, a fasquia está muito alta. Esperemos que o capital de esperança que trouxe não se volte contra ele, porque de desilusões estamos todos fartos. Pede-se:
- Que consiga dar voz ao povo, combatendo os abusos dos "donos" da globalização;
- Que consiga perceber que os recursos são finitos e que urge uma nova política ambiental;
- Que abra caminho a uma sociedade mais consciente, menos baseada nesta espécie de consumismo apocalitico; Isso faz-se pelo discurso e pelo exemplo;
- Que abra caminho a uma sociedade onde o crescimento não seja um valor em si mesmo, um valor abstracto, mas sim um factor concreto que contribua para dar melhores condições de vida à maioria;
Não é pouco. Mas por isso e para isso é que foi eleito, à revelia das grandes máquinas partidarias norte-americanas. Foi a esperança que congregou à sua volta milhões de cidadãos, nos EUA e no mundo, que o empurraram para a vitória.
É um caminho dificil. Que levará tempo. Resta saber se Obama terá vontade e força para o percorrer, não sucumbindo ao primeiro revés. Os dados estão lançados. O capital de esperança é enorme. Esperemos que não traga uma desilusão ainda maior.
19.1.09
Governo obriga escolas a cometer ilegalidades
E é esta qualidade legislativa que uns patetas aplaudem!
Avaliação docente vai até ao final do ano civil
De acordo com as luminárias do ME, a avaliação terá de estar concluída impreterivelmente até ao final do ano civil. A razão é simples: até ao final do ano lectivo não há tempo para aplicar a avaliação. Ora, o que aqueles iluminados esqueceram é que este é um ano de concurso nacional. O que, naturalmente, origina reestruturações nos corpos docentes das escola. Ainda para mais, porque é um concurso com a validade de três anos. E isto implicará que avaliados e avaliadores deverão continuar o processo, apesar de poderem estar em lados opostos do país.
E é este modelo que as escolas têm de implementar.
50%? Qual quê... Uns três ou quatro!
Uma ordem do além
Maradona confessou à imprensa internacional ter ordenado a Rui Costa e ao Benfica a utilização de Di Maria contra o Olhanense para poder observar o jogador.
A agremiação que joga de vermelho acatou a ordem e o bom do argentino lá fez uns minutitos contra os algarvios.
Mas é compreensível. Não é todos os dias que se recebe uma ordem emanada directamente do maior astro do mundo da bola, que até inspirou a criação de uma Igreja que o idolatra. Foi, de facto, um chamamento do além!
Foi quase tão surreal como o frango do Moretto contra o Belenenses, que o árbitro resolveu estragar anulando aos azuis um golo limpo como a camisola do Nuno Gomes depois de um jogo!
Ah Ganda Benfica!
18.1.09
Alguém acredita?
Há quantos anos o eng. Sócrates é primeiro-ministro?
Há quantos anos prometeu baixar os impostos? A baixa de impostos não foi uma das bandeiras da sua campanha de 2005?
Já o fez?
Porque ráio de carga d'água vem agora prometer, outra vez, uma baixa de impostos para aqueles que menos ganham?
Alguém acredita nas lágrimas de carpideira do eng. Sócrates, que sendo primeiro-ministro há quase quatro anos vem agora dizer que em Portugal os impostos não têm na consideração que deviam a diferença de rendimentos?
Alguém acredita em semelhante figura?
Desviar as atenções
O eng. Sócrates fez do casamento entre homosexuais uma das bandeiras da sua moção eleitoral. Como se fosse um tema vital para o país.
É tão bonito desviar as atenções daquilo que realmente interessa...
17.1.09
Mais perguntas...
Another one!
3ª pergunta de um milhão (pode ser que cheguemos aos 10 milhões).
- não servirá, contudo, como elemento de investigação? Porque motivo o caso nunca foi investigado a fundo pelas autridades portuguesas?
Mais uma pergunta de um milhão
Funny Man
Acho piada a esta menina (KT Tunstall). E a esta canção.
Que querem, às vezes dá-me para isto...
Uma pergunta
16.1.09
Resposta ao amigo Sancho
- Só quem não conhece a bola indígena é que acredita que aquela merda de golo contra o Rio Ave foi para benefício do Sporting... Tratou-se, isso sim, de uma manobra de diversão para desviar a atenção do verdadeiro "roubo de igreja", que fez corar o mais temível dos assaltantes de bombas de gasolina e de velhinhas indefesas, ocorrido dias antes na Luz.
É fácil perceber porquê. Para o Sporting, o jogo tinha tanto interesse como uma salada de cenouras para um leão. A equipa que o Paulo Bento apresentou destacava-se pela ausência de alguns dos mais importantes jogadores do plantel. O jogo estava controlado e o empate servia perfeitamente, mantendo a equipa no primeiro lugar do grupo à entrada da última jornada, na qual joga em Alvalade contra o "temível" Paços de Ferreira.
Pelo contrário, o Benfica - Braga serviu para várias coisas:
- Manter o Benfica na corrida ao título. Não duvides que uma derrota ou um empate, depois da triste figura que as papoilas saltitantes fizeram contra o... como é que se chama... pera aí... ah, Trofense, transformava o inferno da Luz num vale de lágrimas, enxugadas com "pañuelos blancos" dirigidos ao dançarino de flamenco, desculpa, treinador Quique. A confusão seria tanta que para fugir ao barbas e companhia até o Rui Costa teria de alugar um barco e pedir protecção à PSP, a Nossa Senhora das Aparições e à Estátua do Eusébio.
- Afastar da rota do título, e de forma quase irreversível, uma das equipas que melhor joga futebol em Portugal, ou seja, o Braga.
Não duvides, caro amigo Sancho, que o Sporting - único clube dos grandes que não tem, entre os seus dirigentes, arguidos, suspeitos, etc no "Apito Dourado - vai pagar, e com juros, aquele golito do Vuc. Já estou a ver o filme...
Abraço
15.1.09
Tindersticks
O homem tem razão!
14.1.09
Provavelmente, a pior taça do mundo!
O FC Porto está cá para jogar contra o Nacional. Hoje, às 4 da tarde, as duas equipas sobem ao relvado.
Como o prezado leitor saberá certamente, hoje é quarta-feira. Não é feriado. Nem dia santo. Nem há tolerância de ponto. É uma singela e cinzenta quarta-feira.
Com estes dados, será fácil antever que a "moldura humana" - sempre gostei do léxico dos comentadores de bola - presente na Choupana será de 15 gatos literalmente pingados. Vá lá, vinte, na melhor das hipóteses...
E porquê? volto a repetir, porque hoje não é sábado (pareço o Vinicius de Moraes mas ao contrário), é uma singela e cinzenta quarta-feira.
E a Liga afirma querer "dignificar a competição"...
Culpa têm é os patrocinadores, que aguentam esta merda toda em que se transformou a bola indígena. E que - é o caso da Carlsberg - se esfoçam para garantir o retorno dos valores e dos meios investidos. Se houvesse um ano, um só, em que os patrocinadores, em comum acordo, mandassem os senhores dar uma volta ao bilhar grande, as coisas mudavam certamente. Porque é imoral chamar as empresas a patrocinar o que quer que seja e depois fazer tudo o que está ao alcance para não lhes dar retorno.
Sai uma Carlsberg, camarada Hermínio?
13.1.09
Mário Lino exige aos empresários informação sobre datas previstas para inaugurações
De génio
O Instituto de Emprego e Formação Profissional, organismo sob a tutela do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, lançou um concurso para o preenchimento de 26 vagas na categoria de Técnico Administrativo Principal. A prova escrita versava, imagine-se, a análise de um discurso de... José Sócrates!
Ai se fosse cá...
Para saber mais:
Terra de Azurara
Marilyn sempre viva
Em Julho de 1962, num hotel de Bel Air, Los Angeles, Bert Stern organizou uma sessão fotográfica com Marilyn Monroe. A diva despiu-se e Stern, que durante anos a fotografara, disparou. O resultado da sessão foram sete imagens da diva parcialmente nua.
Algumas semanas depois, Marilyn morreu, com 36 anos. As fotografias, que entretanto Stern emprestara à revista Eros, desapareceram nos arquivos da publicação.
Mais de 40 anos depois, em Setembro de 2008, o fotógrafo foi contactado por dois colegas de profissão, Michael Weiss e Donald Penny, que tinham os originais com eles e queriam licenciar o resultado daquela tarde de trabalho em Los Angeles.
Bert Stern não foi de modas e intentou uma acção num Tribunal de Nova Iorque exigindo um milhão de dólares de indeminzação e a devolução das imagens.
Hoje, Stern, Weiss e Penny chegaram a um acordo. E as fotografias voltam ao arquivo do primeiro.
O mais curioso desta "estória" é que Bert Stern afirma só ter percebido que as imagens nunca lhe tinham sido devolvidas no momento em que foi contactado pelos dois fotógrafos supra-citados, ou seja, em Setembro do ano passado...
Eis uma das fotografias
Barcelona on-line
A cidade discute-se on-line com a mesma intensidade com que se discute nas assembleias municipais ou com a mesma paixão com que grita nas manifestações da praça San Jaume, sintetiza o La Vanguardia na sua edição de hoje.
Redes sociais como o Hi5, o MySpace ou o Facebook podem converter-se num meio para diminuir a distância entre eleitos e eleitores ou continuarão a ser utilizados com o objectivo único de comunicar ideias e projectos políticos?
Em Barcelona, a primeira ideia tende a impor-se.
12.1.09
Mais nascimentos? Ah, isso foi o Sócrates...
Repita lá outra vez...
Ditosa Pátria, minha amada
(perfeitamente dispensável)
na "N", na 1, na 2
(ainda bem que não há uma 3)
desde sexta-feira passada!
Parece-me que a RTP exagerou um ... bocadinho na cobertura e na importância dada à eleição do melhor jogador do mundo...
Mas tá certo... Este ano há eleições e o país precisa é de boas notícias.
Ah, e se a Mariza ganha um grammyzinho que seja!
Ou um prémiozito dado pelos nossos compinchas franceses...
Ou outra merda qualquer, sei lá, um cabaz de compras num sorteio promovido pela CNN, por exemplo!
Ah, Ai sim, o Futebol e Fátima elevarão o nome desta ditosa pátria, minha amada, aos altares da Glória, levando à boleia o primeiro sargento Sócrates y sus muchachos...
(que Nossa Senhora de Fátima o acompanhe!)
A RTP já arrancou em força...
(e vai ter de descalçar uma bota do caraças se o bom do Ronaldo fica em segundo ou terceiro...)
Post-Scriptum: Antes de ser acusado de anti-patriota, anti-madeirense, anti-social ou antidepressivo, digo e escrevo que gostava de ver o Ronaldo ganhar o bendito prémio, deixando-lhe também o pedido para que não o leve de carro para casa...
Giulia y los Tellarini
Mais uma banda que nuestros hermanos esconderam durante um porradão de tempo. Felizmente, um senhor de nome Woody Allen decidiu incluir esta Barcelona, de Giulia y los Tellarini no seu Vicky Cristina Barcelona...
A velha questão
Bons escritos, piquena...
Dave Matthews Band - The Space Between
Uma bela canção, de uma grande banda que começa, lentamente, a recuperar da morte de LeRoi Moore. Saxofonista brilhante, Moore, um dos fundadores da Dave Matthews Band morreu, em Agosto de 2008, na sequência de um acidente com uma mota todo-o-terreno. Já Dave Matthews passou metade do ano envolvido na campanha de Obama.
Após quatro anos longe dos estúdios de gravação, a DMB apresentará, em Abril deste ano, um novo álbum de originais. Esperemos que bem melhor do Stand Up, editado em 2005.
The Space Between como banda sonora para o tempo de espera
Tindersticks
Ah ganda Baptista!
Qual Aimar, Cardozo, Bynia... Qual Rui Costa, qual Leonor Pinhão, qual carapuça! O Baptista é que é... Ele corre, ele finta, ele apita para todos os lados... O homem é uma potência... Vivó Baptista! Mais três ou quatro jogos assim é terá uma estátua igual à do Eusébio. E Já agora, que vivó Eusébio!
Com "jogadores" do calibre do Baptista os vermelhuscos poderiam até, quem sabe, ser campeões europeus. Pena é que o reforço só possa mostrar os seus dotes artísticos por cá, nos nossos belos e cada vez mais vazios campos da bola... Ah ganda Baptista! Agora Todos, em uníssono: Vivó Baptista! Viva!
7.1.09
Mão cheia de nada...
O outro lado também existe
Aviso, contudo, os meus amigos que me vão enviando estes links que também quero receber imagens das vítimas dos atentados terroristas do Hamas e outros movimentos islâmicos.
Como também gostaria de ver a esquerda europeia fazer concentrações e manifestar-se contra esses mesmos atentados. Porque vítimas existem dos dois lados. E é doloroso ver ver a vida extinguir-se nos olhos de qualquer criança: seja ela palestiniana, israelita, sudanesa, ruandesa ou de qualquer outra parte do mundo!
Manuela Ferreira Leite também se enganou!
Assim se governa Portugal!
Janeiro
Já tinha saudades do dia ser claro e a noite escura. Sem luzinhas a afastar a dictomia. Agora, para consolo da minha pobre alma, esses tempos estão de volta. É bom viver em Janeiro!
6.1.09
Eu fui à Austrália
Adelaide, Alice Springs, Darwin. Um trio de cidades que povoa o meu universo mítico. Um ponto de partida. Um ponto de passagem. Um ponto de chegada. Ligados por trilhos cantados. O Outback como prova de fogo.
- Você também leu o Bruce Chatwin?
O Outback levou-me à Austrália. No Fórum Madeira. Com a Nicole Kidman e com um ex X-Men de nome Hugh Jackman (tipo que eu, francamente, conhecia muito mal).
Foi uma viagem demorada. Não se chega à Austrália assim, de uma hora à outra e sem algum sofrimento. O continente é duro. O filme também. Um épico romântico, imagine você imaginando também que épicos e românticos não são os meus filmes favoritos!
Viajei pela ilha durante quase três horas, guiado pelas câmaras do senhor Baz. Vi belas paisagens. E encontrei-me com uma fita que será, posso apostar, "oscarizada". As interpretações da sra. Kidnam e do sr. Jackman são boas, a "estória" é dicotómica e por isso fácil de entender e leva meia sala de cinema às lágrimas e tem algum humor à mistura e tem aventura, acção, drama, etc e tal, ou seja, quase tudo aquilo de que a Academia gosta.
Eu gostei das paisagens. Da forma como muitas delas foram filmadas. E da ideia de aproveitar a importância do canto na cultura aborígene. O resto do filme não é mau, a sério. Mas como os romances épicos não são o meu forte...
Roubei-o à Sónia
Ficaram no fundo do congelador para uma ocasião especial. Chegavam para três pessoas, fossem as ditas grelhadas ou estufadas, ou algo do género. Deixei-as em paz até àquele domingo.
Afinal tinha-se despachado mais cedo, conseguia chegar a Lisboa ainda esta noite. Soube bem sabê-lo a caminho, estava irritada, não me apetecia nada, nem coisa nenhuma. Apeteceu-me estar com ele. Desliguei o telefone e fui direitinha ao super-mercado. Para o jantar só me faltava um pimento e cebolas mas pus no cesto leite, queijo e fiambre, pão, umas bolachinhas e umas laranjas. Queria que houvesse na cozinha aquele essencial que podemos comer sem cozinhar ou esperar que a anfitriã acorde. Queria que ele se sentisse à vontade.
Apanhou-me de táxi, ajudou-me com os sacos e largou os dele. Estávamos de novo frente a frente. Tirando uns cabelos brancos, que não condizem com um ar de criança que se sempre lhe vi, estava igual, mais bonito até. Estava com ar de homem. Falámos com calma, sem pressas, sem discursos de saudades. Não nos víamos há cinco anos, (ou será seis?) mas falamos, ao longo dos anos, por telefone e pela Net. Foi assim que acompanhei os seus amores e desamores, o trabalho, os problemas, a vida. E ele a minha.
Não havia pressa mas havia que começar a fazer o jantar. Pu-lo a descascar batatas e a cortá-las em rodelas grossas. Admirei a naturalidade com que o fez. Depois tomei conta do balcão e dei-lhe uma garrafa de vinho branco para abrir. Não foi fácil. Chegámos até a pensar a enfiar a rolha para dentro mas ele foi persistente e lá se ouviu o clássico ploc!
Enquanto escutava a tranquilidade com que falava, fui tirando as entranhas às ditas. Depois dediquei-me a cortar cebolas às rodelas enquanto falou das lágrimas que verteu por causa da outra. Daquela que era a tal, à que virou as costas, apesar dos concelhos contrários que lhe dei naquela tarde, primeiro por telefone, depois pelo MSN. Lembro-me da bonita tarde de Primavera que estava. Sei que me deu razão, mesmo antes de tomar a decisão, mas não conseguiu fazer de maneira diferente. Cortei o pimento às fatias. Só nós é que podemos viver a nossa vida, não é? Enquanto falava do coração partido, esmaguei alhos. Falava sem dramatismo, sem culpa, apenas com objectividade, tal como fazem as pessoas crescidas. É importante conseguir ler a própria vida.
Pus o tacho ao lume com o azeite a aquecer. Olhei-o de alto a baixo, estava atraente, com um corpo delineado. Lembrei os dias em que desejei aquele corpo e o levei por caminhos desconhecidos. Houve uma altura em que aquele corpo não sabia bem como moldar-se a outro, por mais que quisesse. Dei-lhe o meu por fases, por toques, por movimentos ligeiros, ternos. Foi ternura, e não paixão, que levou o meu corpo de encontro ao dele, é a ternura que nos mantém juntos, apesar de separados por um avião.
Mudámos para o tema da fé. Enquanto ele falava sobre o caminho que segue, pus uma camada de cebolas e alhos no tacho, por cima uma camada de rodelas das batatas que cortou para nós, depois outra camada de lulas. Sim, decidira fazer-lhe uma caldeirada de lulas. É substancial e faz-se a si própria, permitindo espaço para a conversa, que é o que mais interessa. Caldeirada é às camadas e não mexer mais. Em lume brando.
Enquanto pus ao calhas cubos de tomate lá para dentro, falei-lhe da minha antiga fé e temperei tudo com o respeito e contenção que tenho para com todas as religiões. Sal grosso, pimenta, uma folha de louro, pimentão-doce e uma pitada de orégãos.
Voltei a repetir a ordem das camadas enquanto lhe expliquei que para mim a ordem do caos é só uma: o amor. O amor move montanhas, faz milagres, o amor é a única coisa que interessa. Como quem não quer a coisa, pus um raminho de coentros na panela e rectifiquei os temperos despreocupadamente.
Falámos do trabalho, da nossa parca arte. Das histórias que passam pela nossa voz, pela nossa escrita e pela criatividade de que não abdicamos. Das pessoas, as que conhecemos e as que trabalham connosco. Perdida na conversa esqueci-me de pôr a mesa. Desliguei o lume e dei um tempinho para apurar.
Enquanto falava do equilíbrio que tem hoje a comer, servi a caldeirada e fui buscar o pão que me esquecera na bancada. Jantamos com o tema da alimentação equilibrada à mesa. Quando pediu para repetir, aí, fiquei orgulhosa. Acendi um cigarro enquanto o vi comer o segundo prato com deleite. Fiz café. Para a sobremesa ficaram mais histórias, mais memórias.
Almocei caldeirada dois dias depois. Estava picante de jindungo de malaguetas indianas que fiz há tempos. Claro que estava boa. Foi temperada com amizade e ternura. Sem mexer.
Sónia Andrade
Nota: Obrigado pela nossa amizade




