
Rauchenberg
ou a tradução do (meu) momento presente
"Reúne sete ou oito sábios e tornar-se-ão outros tantos tolos, pois incapazes de chegar a acordo entre eles, discutem as coisas em vez de as fazerem" - António da Venafro
Uma banda portuguesa que vai dar seguramente muito que falar. E isto não é um cliché...
Gosto cada vez mais do senhor Nick Drake.
Sabem, acho que o senhor Drake é a prova de que se existe alguma coisa justa ela é a arte, pois garante o reconhecimento da qualidade, da originalidade e da criatividade mesmo que postumamente, como é o caso.
Gosto do dedilhar da guitarra do senhor Drake. Gosto da melancolia daquilo que canta. Gosto do universo poético em que se movimenta, construído com apaixonadas palavras de descrença. Enfim, gosto cada vez mais do senhor Drake.
Estes senhores (Cinematic Orchestra) são, de facto, muito bons. Muito, muito bons.
Em Banguecoque, Oliver Stone decidiu continuar a alimentar a sua senda teórica sobre a morte de JFK.
Stone, que realizou esse inenarrável “JFK” sobre a morte do próprio Kennedy, diz mesmo que a versão oficial americana não passa de um “conto de fadas nacional” e que Lee Harvey Oswald não foi mais que um “bode expiatório” para resolver o problema.
Já sabemos que as teorias conspiratórias abundam por aí como cogumelos: desde o homem que não chegou à lua, passando por Roswell ou pelos frangos que não tinham cabeça da KFC, há devaneios para todos os gostos e fantasias para todos os feitios. A paranóia de Stone é a resolução do assassinato de JFK para que a estória não continue a ser o tal “conto de fadas” e Lee Harvey Oswald o tal eterno “bode expiatório”.
Para evitar ansiedades e ajudar a resolver o problema sem recurso a medicação, resta-nos pedir ao premiado realizador que contacte o Sr. Chávez da Venezuela, um prodígio na resolução deste tipo de enigmas. Vai rapidamente descobrir que a culpa é mesmo do mordomo, perdão, dos EUA, o que neste caso em particular só pode significar que tem toda a razão.
De acordo com a teoria enunciada pelo presidente da Venezuela, o terramoto que devastou o Haiti foi causado por obra e graça dos EUA porque estes desenvolveram uma arma secreta capaz de provocar terramotos, cujo objectivo final – já que o Haiti foi apenas um primeiro teste – é atingir o Irão na mesma proporção. Se até agora, caro leitor, conseguiu ler isto sem se rir ou sem levantar as sobrancelhas você não passa de um crédulo sem remédio. Ou de um romântico incorrigível.
Nós, por cá, continuamos sem saber se tão complexa teoria é fruto de profunda e apurada introspecção ou se um simples desvio de atenções da anunciada e previsível catástrofe para onde caminha a sociedade e a economia idealizada pelo Sr. Chávez.
Na verdade, numa altura em que o dinheiro não abunda porque o petróleo perdeu força, nada como dramatizar o cenário e embelezar a comédia com os adversários do costume onde, claro está, os EUA surgem à cabeça como mentores e executores de tão maquiavélicos planos.
Não se espante assim, caro leitor, se a coisa por si só, implodir em pouco tempo, não por culpa do rumo socialista do Sr. Chávez, mas por culpa de uma qualquer arma americana que racionaliza os alimentos e a electricidade, fecha canais de televisão incómodos e nacionaliza a propriedade privada não alinhada com o desvario permanente.
Se entretanto, a novela acabar com toda a gente metida em coletes de força, também não se apoquente: a culpa só pode ser, e uma vez mais, dos EUA.
- Isto é bom, Man!
- Pois é, Man...
Man Man, ao vosso dispor. Com os hábitos do coelho (tradução literal para Rabbit Habits, como qualquer leigo pode constatar).

E depois de uma quase certa eleição para vice-presidente do BCE, eis que o Dr. Vítor Constâncio se vê agora em situação aflitiva e aparentemente empatado com um rival inesperado. A trapalhada é tanta, que ficou mesmo decidido adiar em um mês a escolha de um novo vice-presidente para que todos os problemas jurídicos (!?) sejam devidamente esclarecidos pelos responsáveis pela eleição.
Não sei se uma análise mais cuidadosa ao currículo do Dr. Constâncio, que inclui contorcionismos variados e cegueiras momentâneas, terá feito com que alguns ministros recuassem nas suas intenções de voto. Mas uma coisa é certa: é necessário que este imbróglio se resolva rápida e urgentemente. E isto por um único e singelo motivo: se o Dr. Constâncio não for, não será um azar dele. Será mesmo um incrível azar nosso.
O Dr. Santana Lopes foi recentemente condecorado pelo PR em virtude do trabalho realizado pelo país. Claro está, que logo o mundo se ergueu contra tão vil reconhecimento porque o Dr. Santana não passa de um político medíocre que foi, no dizer dos entendidos, o pior primeiro-ministro de Portugal em 35 anos de democracia.
Lamento que seis meses de mandato sirvam para tudo, até para o ridículo costumeiro vindo nas vozes e nas palavras dos que simplesmente odeiam o Dr. Santana, mais por inveja, julgo eu, do que por outro motivo qualquer.
O Dr. Santana não foi feliz no seu mandato porque, como todos muito bem se recordam, houve contingências estranhas e uma campanha política indecente orquestrada por pessoal importante que o colocou na rua em nome de interesses dúbios e de justificações pouco transparentes. É por isso que ainda hoje sinto que ele foi uma marioneta nas mãos de gente poderosa que, com indecorosa conivência, decidiu mudar radicalmente o tabuleiro político português.
Sou, talvez, dos poucos que ainda reconhece ao Dr. Santana valor político e uma série de qualidades: é um político autêntico que mostra sempre o que é, que nunca se esconde de nada e que luta abnegadamente pelas coisas em que acredita. Se notarem bem, tudo isto são pormenores em vias de extinção pública e política, num momento em que na nossa sociedade há uma especial apetência pelo plástico imaculado da aparência.
No deve e no haver, o respeito pelo Dr. Santana devia ser, no mínimo, uma obrigação. Mas de um país de ingratos, não se deve esperar grande coisa. Nem sequer um mínimo de decência ou um mínimo de consideração.
Pelo que vi no telejornal da RTP-Madeira de hoje, o congresso do PS-Madeira esteve ao rubro neste seu primeiro dia.
Mas se pensa, caro leitor, que a discussão aconteceu por causa do futuro da Madeira, de uma estratégia que una os socialistas ou da Lei das Finanças Regionais, enganou-se redondamente. O motivo de tão acesa discussão foi mesmo uma suposta fraude eleitoral qualquer, que aconteceu numa suposta secção qualquer e que envolveu um suposto militante qualquer. Foi, digamos, muito educativo e muito edificante. Talvez mesmo muito promissor.
No cinema, Avatar provoca furor. Toda a gente fala do filme e Cameron, um cineasta menor, é elevado aos píncaros ao inaugurar, ao que dizem, uma nova era cinematográfica.
Lamento discordar da maioria que ama e idolatra Cameron.
Se por um lado, o filme conta com um efeito tridimensional interessante, por um outro, o filme é um argumento muito pobrezinho e moralmente deprimente, sem qualquer meada por onde se pegue e que convém, desde logo, não ser levado a sério.
No fundo, a historiazinha de Cameron não é mais que uma tentativa fútil de apontar o dedo à civilização ocidental e ao seu estilo de vida aparentemente predador que ele, Cameron, condena e abomina, mas onde, curiosamente, muito bem sobrevive.
A qualidade argumentativa, inexistente, em Cameron fica assim, e uma vez mais, bem patente. Entre o amor da burguesa e o rústico (ao som da Céline Dion, a rebentar com os meus tímpanos) ou um qualquer regresso à época das cavernas (onde ele acha que seríamos todos mais felizes), o Sr. Cameron só prova que pode ser muito bom nos efeitos especiais e nas megas produções, mas que não percebe patavina da vida e do mundo em que vive. Daí o delírio permanente. Contagiante, por sinal.
Uma das mais originais compositoras que os últimos anos nos apresentaram.
Pouco conhecida do grande público português, a menina Natasha Kahn, nome de baptismo de Bat For Lashes, foi indicada, em 2008, para os Brit Award nas categorias de revelação e de melhor artista feminina, mas não ganhou nenhum dos prémios.
Em 2009 editou o segundo álbum, Two Suns. O primeiro, de onde foi tirado este Horse and I, aparecera no mercado em 2006, sob o nome de Fun and Gold.
Aconselho a audição. A sério, faz bem à saúde
Florence and The Machine, uma das bandas revelação em 2009. Embora não seja muito o meu género, se calhar vale a pena seguir a menina Florence e os seus amigos. Digo eu...
Acordou...
Não foi o barulho da chuva fina que lá fora ia teimosamente regando o jardim... Nem foi o despertador cujo mostrador, como todos os fins-de-semana, fizera questão de virar ostensivamente para a parede... Nem sequer foi um sonho bom ou mau, ou mesmo indiferente, nem frio, calor, fome ou sede...
Acordou...
Simplesmente.
Aos pé da cama, o gato enrolado abriu os olhos para os fechar logo de seguida.
Com o braço estendido, num lento e largo movimento, afastou as cobertas.
Sentou-se, abriu os braços e, num longo bocejo, espreguiçou-se.
Levantou-se e dirigiu-se à cozinha, descalça, contrariando um dos eternos conselhos da mãe. Vagarosamente. Quase cambaleante, afastando o cabelo da cara com a mão direita enquanto, com as costas da mão esquerda, limpava o sono dos olhos.
Adivinhando o pequeno-almoço o gato levantou-se de um salto e seguiu-a, enrolando-se dengosamente nas pernas das calças do pijama de flanela. Interesseirão, pensou e sorriu enquanto servia o Bowie. No dia em que chegara, um amigo comparou-o ao cantor por ter um olho de cada côr, riram e o nome pegou.
Café, preciso de café, disse e sorriu novamente ao aperceber-se de que estava a falar sozinha.
Aqueceu um resto de “chafé” da véspera no micro-ondas, pegou na caneca e foi sentar-se no sofá.
Olhou para o telefone em cima da mesa e decidiu ligar-lhe. Sempre fora mais adepta das mensagens escritas, mas ele insistia que gostava de ouvir a voz dela e ela, secretamente, gostava de que ele gostasse.
Bom-diaaa... disse arrastadamente com a voz ainda suja do sono, Já acordei... E foram falando mais um pouco, sem dizer nada, como aliás convém àquela hora.
Quando desligaram, ele ficou a olhar para o telefone por alguns instantes e sorriu. Gostava dela. Gostava da voz dela. E gostava da voz dela ao acordar, um pouco rouca e ainda mais melosa do que o costume. Sorriu de novo ao imaginá-la no pijama com gatinhos, cabelo em desalinho, descalça (contrariando um dos eternos conselhos da mãe), sentada no sofá, braço esquerdo à volta dos joelhos encostados ao peito, caneca de café morno pendurada na mão direita e aquele olhar verdejante perdido no mar de inverno para lá da janela. Bela... Dona daquela beleza que só quando se conhece e se ama se consegue ver... Bela como só ele sabia...
Imaginou-se a abraçá-la... Sorriu, com aquele sorriso sorridente, que os amantes conseguem sorrir e que os outros acham ligeiramente, enfim... parvo.
E sorriu assim, parvamente, o resto do dia...
Uma das canções que marcou a obra, marcadamente política, de Léo Ferré. Les Anarchistes.
A letra:
Y'en a pas un sur cent et pourtant ils existent
La plupart Espagnols allez savoir pourquoi
Faut croire qu'en Espagne on ne les comprend pas
Les anarchistesIls ont tout ramassé
Des beignes et des pavésIls ont gueulé si fort
Qu'ils peuv'nt gueuler encoreIls ont le cœur devant
Et leurs rêves au mitan
Et puis l'âme toute rongée
Par des foutues idées
Y'en a pas un sur cent et pourtant ils existent
La plupart fils de rien ou bien fils de si peu
Qu'on ne les voit jamais que lorsqu'on a peur d'eux
Les anarchistesIls sont morts cent dix fois
Pour que dalle et pour quoi?
Avec l'amour au poing
Sur la table ou sur rien
Avec l'air entêté
Qui fait le sang verséIls ont frappé si fort
Qu'ils peuvent frapper encore
Y'en a pas un sur cent et pourtant ils existent
Et s'il faut commencer par les coups d'pied au cul
Faudrait pas oublier qu'ça descend dans la rue
Les anarchistesIls ont un drapeau noir
En berne sur l'Espoir
Et la mélancolie
Pour traîner dans la vie
Des couteaux pour trancher
Le pain de l'Amitié
Et des armes rouillées
Pour ne pas oublier
Qu'y'en a pas un sur cent et pourtant ils existent
Et qu'ils se tiennent bien le bras dessus bras dessous
Joyeux, et c'est pour ça qu'ils sont toujours debout
Les anarchistes
Uma canção anarquista (ou libertária) francesa. interpretada pela banda "4 Barbus".