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13.10.07

Untitled

"(...) - Senhor de Saint-Savin - disse-lhe Roberto -, não temeis acabar na fogueira?
Saint-Savin ensombrou-se por um instante.
-Quando tinha mais ou menos a vossa idade admirava o que foi para mim como um irmão mais velho. Como um filósofo antigo chamava-se Lucrécio, e era também filósofo, e para mais padre. Acabou na fogueira em Toulouse, mas antes arrancaram-lhe a língua e estrangularam-no. Assim, vedes que se nós filósofos somos rápidos de língua não é só, como dizia aquele senhor na outra noite, para nos darmos bon ton. É para tirar partido dela antes que no-la arranquem. Ou não, brincadeiras à parte, para romper com os preconceitos e descobrir a razão natural das coisas."

Umberto Eco, in A Ilha do Dia Antes
Fotografia de Witkin

12.7.07

True love

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria.
O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.
Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o Amor."

S. Paulo, in Bíblia (I Epístola aos Coríntios, 1.13)
PS - Nos posts com excertos não costumo fazer comentários, mas não resisto a este. Há alguns anos, um amigo disse-me que o Cântico dos Cânticos terá sido uma das leituras mais eróticas que alguma vez havia feito. Pois para mim, esta é uma das mais belas passagens sobre o Amor. Absolutamente divinal, que mostra bem o que deveria significar ser-se cristão.

11.7.07

Tempo para ser feliz

"E, sentado num rochedo, palpando-lhe a crosta enrugada com os dedos, via o mar subir silenciosamente, à luz do luar. Pensava no rosto de Lucienne, que tantas vezes acariciara, e no calor dos seus lábios. Sobre as águas, o luar, como um óleo espalhado, desenhava longos sorrisos errantes. A água devia estar tépida como a boca de uma mulher, macia e disposta a abrir-se sob os lábios de um homem. Mersault sentia como a alegria é irmã da dor, absorto por completo naquela silenciosa exaltação em que se tecem e entretecem as esperanças e os desesperos da vida de um homem. Consciente, e no entanto estrangeiro, devorado pela paixão, e desinteressado ao mesmo tempo, Mersault via que a sua própria vida e o seu destino tinham ali o seu termo e que todo o seu esforço, dali em diante, seria para se habituar àquela felicidade e enfrentar aquela verdade terrível."

Albert Camus, in A Morte Feliz

10.7.07

"Lassidão tingida de espanto"

"Começar a pensar é começar a ser consumido. A sociedade não tem grande coisa a ver com estes princípios. O veneno está no coração do homem. É aí que ele deve ser procurado. Esse jogo mortal, que vai da lucidez perante a existência à evasão fora da luz, é preciso segui-lo e compreendê-lo. (...)
O suicídio é apenas a confissão de que a existência não vale a pena. (...)
Qual é então esse incalculável sentimento que priva o espírito do sono necessário à sua vida? Um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões, é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro. Tal exílio é sem recurso, visto que privado das recordações de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. Este divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o cenário é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo. (...)
O sentimento do absurdo pode esbofetear qualquer homem à esquina de qualquer rua. Em si mesmo, na sua nudez desoladora, na sua luz sem esplendor, é inapreensível. (...)
Acontece que os cenário desabam. Os gestos de levantar, o carro-eléctrico, quatro horas de escritório ou de fábrica, refeição carro-eléctrico, quatro horas de trabalho, refeição, sono, segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada segue-se com facilidade a maior parte do tempo. Só que um dia o «porquê» se levanta e tudo recomeça nessa lassidão tingida de espanto. (...) A simples preocupação está na origem de tudo."

Albert Camus, in O Mito de Sísifo

4.7.07

Que é como quem diz: separar o trigo do joio.

"Quando falámos da realidade religiosa concreta, distinguimos a sua dimensão de eternidade, seus amálgamas com formas temporais caducas e os compromissos para que os homens a arrastam. O espírito religioso não consiste em cobrir tudo isto com apologias, mas, muito antes, em libertar o autêntico do inautêntico, o permanente do caduco. Aqui se encontra com o espírito do personalismo.
Os compromissos do cristianismo contemporâneo acumulam muitas sobrevivências históricas: a velha tentação teocrática do domínio das consciências pelo Estado; o conservadorismo social que liga o destino da fé a regimes utltrapassados; a dura lógica do dinheiro, que guia o que deveria servir. (...)
Quem quiser manter os valores cristãos em todo o seu vigor deve organizar, para todo os lados, a ruptura do cristianismo com as desordens estabelecidas. (...)
O Cristianismo já não está sozinho. Realidades maciças e valores incontestáveis nascem aparentemente fora do seu âmbito, suscitam morais, heroísmos, quase santidades.
Por outro lado, parece que o cristianismo ainda não realizou com o mundo moderno (desenvolvimento da consciência, da razão, da ciência, da técnica e das massas trabalhadoras) a união conseguida com o mundo medieval. Estará a atingir o fim? Não será este divórcio prova evidente? Um estudo mais desenvolvido destes factos leva-nos, no entanto, a pensar que esta crise não é o fim do cristianismo mas o fim duma cristandade, dum corrompido regime do mundo cristão que rompe suas amarras e parte à deriva deixando atrás de si os pioneiros de uma nova cristandade. Parece-nos que, depois de durante séculos ter talvez roçado a tentação judaica da instalação directa do Reino de Deus no plano dos poderes terrestres, o cristinanismo regressa lentamente à sua posição primitiva (...)."

"Toda a gama de comportamentos que a fenomenologia religiosa liberta, reencontram-se em quadros novos, sob formas geralmente degradadas, muito retrógadas em relação ao cristianismo, exactamente na medida em que o universo pessoal e suas exigências são mais ou menos eliminados."

Emmanuel Mounier, in Personalismo

Munch, Golgotha

2.7.07

Poderia ser mentira?

"Neste terrível lamaçal de mentira e de cobardia, ouve-se de vez em quando: «Actos! Actos! Actos! Nada de palavras!». E o facto supremo, o grande facto, o facto fecundo, o facto redentor, seria que cada um dissesse a sua verdade. Sem nada mais do que isso, estaríamos do outro lado do abismo que se nos abre debaixo dos pés.

E contudo há miseráveis que, não se atrevendo a defender a mentira, a hedionda mentira, tratam de fazê-la passar por ilusão e falam-nos do seu poder e do alívio que se procura ao enganar conscientemente.

Não: a arte é o que mais longe está da mentira, e a mentira é o que de mais profundamente inestético existe. Não: a mentira não é nunca consolo, e a ilusão consoladora não é mentira."

Miguel Unamuno, in Solidão

28.6.07

O mestre, sempre o mestre a apontar o caminho

"Repito o que lhe disse: quando se perde humanidade não vale a pena ser-se filósofo; se viesse um deus à terra, embora o papel coubesse melhor a um demónio, e lhe trouxesse a verdade, mas com o encargo de levar em troca o amor dos homens, não deveria haver em si outra atitude que não fosse a de recusa. (...)
Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol".

Agostinho da Silva, in Sete Cartas a um jovem filósofo.

23.5.07

Filosofia: belo exemplo de divulgação filosófica

Enquanto em Portugal os pretensos e auto-denominados filósofos discutem sobre os benefícios da filosofia analítica, versus filosofia continental, os brasileiros mostram como é que num mundo global se pode fazer divulgação filosófica com qualidade, isto é, falando para todos. A revista Filosofia é marcada por bons textos (não, não são teses, são apenas textos para leigos, mostrando que respostas tem a filosofia para os problemas modernos), concepção gráfica fabulosa e fotografia genial. A revista tem o condão de mostrar que a filosofia não é coisa do passado e que não precisa de ser cinzenta, feita por velhos caquéticos. Todas as páginas, todos os artigos, são de uma limpeza refrescante, a que não estamos habituados!
Definitivamente, um muito bom exemplo do Brasil que, com toda a certeza, não será seguido em Portugal, porque andamos todos demasiado ocupados mirando o nosso umbiguinho e discutindo quem é mais filósofo.

Para quem estiver interessado, a revista é editada pela editora Escala e em Portugal tem já uma tiragem de 15.000 exemplares. Áh e a edição deste mês é fantástica.