27.2.07

O Cúmulo do Ridículo

Esta segunda-feira os madeirenses menos atentos devem ter ficado expectantes. Afinal não existem partidos na Madeira.

O que existem são filiais. Será que também têm negócios na zona offshore da região?

É que o Presidente da República recebeu, ontem, os partidos em Belém e só vi emplastros. Não ouvi nenhuma voz da Madeira.

Se não podem existir partidos regionais, porque é que estes “senhores” cantam de galo? São uma espécie de foras da lei. Não se percebe porque é que reclamam tempos de Antena, espaços no serviço público de rádio e televisão? Se não existem, não têm direitos. Se aparecem, não deviam.

Onde estão os partidos da autonomia, se nem partidos podem existir? Como é que os políticos deixaram que a situação chegasse a este cúmulo?

Finalmente, o Óscar

A Academia de Hollywood premiou um grande relizador, em deterimento de um excelente filme.
Babel foi o derrotado dos Óscares. É verdade que Martin Scorsese já merecia uma estatueta. Só não sei se "The Departed — Entre Inimigos" é um trabalho notável. Ainda não vi o filme, mas uma coisa é certa. Scorsese é senhor de uma cinematografia invejável. Estamos a falar de mais de 40 filmes. O Óscar fugia-lhe, mas acabou por levá-lo segunda-feira para casa. Foram necessários: - Táxi Driver (1976 - curiosamente recebeu 4 nomeações para os óscares), O Toiro Enraivecido (1980), Nova Iorque Fora de Horas (1985) Tudo Bons Rapazes (1990). Em 1995 o delicioso Casino. Scorsese no seu melhor. Falha com Kundun (1997). É provavelmente o menos "hollywoodiano" de todos os filmes do realizador. Vi-o e não gostei. Mais recentemente devem estar lembrados de O Aviador (2004) com Leonardo Di Caprio no papel de um esquizofrénico amante de aeronaves.

É uma longa carreira de trabalho árduo, de um dos conceituados realizadores da actualidade. Scorsese é capaz do melhor e do pior. Não é um autor regular. Isso não lhe retira mérito. Acrescenta-lhe expectativa. Quando estreia um filme, deste homem, ninguém pode dizer que já sabe o que vai ver.

23.2.07

O gozo de Jardim


Depois de muita tinta já ter corrido, apresento aqui as razões pelas quais concordo com a demissão de Alberto João Jardim e que me levam a crer que esta é uma tomada de posição extremamente inteligente. As razões que motivam o ataque são evidentes: prejudicar Alberto João Jardim (AJJ), preparando o assalto ao poder pelo PS-Madeira. Não sei quem congeminou a estratégia, mas desconfio que terá partido da Rua do Surdo. O que é relevante, contudo, é que o tiro sairá pela culatra e poderá ter repercussões futuras extremamente graves para a actual direcção do PS-Madeira e para os (actualmente) instalados em Lisboa.

Passemos, então, às razões que legitimam esta tomada de posição por parte do ainda Presidente do Governo Regional da Madeira.


Do ponto de vista democrático esta decisão fundamenta-se pelo facto do Governo da RAM ver serem mudadas as regras de financiamento, colocando em causa o cumprimento do Programa de Governo aprovado há 2 anos. Ora, perante um tal cenário, é responsável, sensato e legítimo, que seja sufragado um novo programa. Por outro lado, o Governo da RAM entende que a Lei das Finanças Regionais é discriminatória para com a Madeira e atenta contra a Constituição da República e o Estatuto Político-Administrativo, pelo que, não tendo sido vetada pelo Presidente da República, não resta outro caminho que não a demissão. Existe, ainda o argumento de que esta é uma lei persecutória feita à medida da pessoa do Presidente do Governo. Ora, se se entende que o Governo da República cria uma lei que visa apenas prejudicar eleitoralmente o presidente de um Governo Regional, sem qualquer respeito pelas instituições, prejudicando, assim, todo o povo de uma Região, que caminho se poderá adoptar a não ser a demissão?

Do ponto de vista político, esta medida não só é legítima, como é extremamente inteligente porque:


1. denuncia as movimentações sub-reptícias do PS para derrotar o PSD-Madeira;
2. maximiza a oposição ao Governo da República que, num momento em que goza de um certo consenso publicado, irá ter em braços um processo eleitoral que tornará público, enfaticamente e com repercussões nacionais, todos os erros, asneiras, mentiras e aldrabices do Governo;
3. abre ruptura no PS, com um mais que provável afastamento do PS-Madeira em relação à governação socialista;
4. cria um sarilho ao Presidente da República, uma vez que a Lei das Finanças Locais estará efectivamente a ser plebiscitada e, com toda a certeza, será chumbada pela maioria da população madeirense;
5. poderá permitir ao PSD-Madeira uma das maiores maiorias absolutas de sempre, a reboque da revolta popular;
6. reduzirá as esperanças do PS-Madeira chegar a Governo, adiando sine die esta possibilidade (miragem???);
7. provocará uma derrota sem precedentes (estou certo) ao PS-Madeira atendendo à colagem desta direcção ao Governo do Eng. Sócrates, reduzindo a nada Jacinto Serrão e seus pares.

E para isto, Jardim tem alguns trunfos:
a) a vitimização, provocada pela atitude efectivamente persecutória do Governo da República;
b) o capital que detém junto da população sobre a capacidade de governação (alguém terá ilusões que, mesmo em tempo de crise, AJJ está infinitamente melhor preparado para Governar do que qualquer socialista madeirense?)
c) a próxima legislatura não é efectivamente benéfica para o PSD-Madeira, uma vez que muitos deputados deixarão a Assembleia Legislativa Regional. Esta tomada de decisão, contra o PSD-Madeira será devidamente explorada, com a demonstração que Jardim defende os interesses da Madeira, mesmo contra os interesses do Partido.

Por tudo isto, eu percebo perfeitamente o terror que deve imperar na Rua do Surdo. Mas, uma vez mais, neste tabuleiro da política, Jardim demonstra que não é derrotado facilmente. Goste-se ou não do Presidente do PSD-Madeira é preciso reconhecer que para derrotá-lo é preciso ser detentor de know-how político que não existe em abundância por terras lusitanas.

Strange Kind of Love


Há muito tempo que não ouvia este senhor. Vale sempre a pena recordar, ainda que a música entristeça!

A strange kind of love
A strange kind of feeling
Swims through your eyes
And like the odors
To a wide vast dominion
They open to your prize
This is no terror ground
Or place for the rage
No broken hearts
White wash lies
Just a taste for the truth
Perfect taste choice and meaning
A look into your eyes
Blind to the gemstone alone
A smile from a frown circles round
Should he stay or should he go
Let him shout a rage so strong
A rage that knows no right or wrong
And take a little piece of you
There is no middle ground
Or that's how it seems
For us to walk or to take
Instead we tumble down
Either side left or right
To love or to hate.

Peter Murphy

Até sempre, Zeca!


Porque hoje passam-se 20 anos sobre a morte do maior resistente à ditadura, que provou que a cantiga é mesmo uma arma. Até sempre Zeca!

Pombas

Pombas brancas
Que voam altas
Riscando as sombras
Das nuvens largas
Lá vão
Pombas que não voltam
Trazem dentro
Das asas prendas
Nas bicos rosas
Nuvens desfeitas
No mar
Pombas do meu cantar
Canto apenas
Lembranças várias
Vindas das sendas
Que ninguém sabe
Onde vão
Pombas que não voltam

Bem escrito

Bom Ponto de Ordem, o do Jorge Freitas Sousa ontem, no DN.

O tapete

Consta que pelas bandas da Rua do Surdo decorrem animadas reuniões, entre cervejas e camarões, para preparar a sucessão de Serrão (isto rima e é de propósito).

Parece-me que, aprecebendo-se da hecatombe que aí vem, Victor Freitas já começou a puxar o tapete (devagarinho, como convém), ao líder a prazo (cada vez mais curto).

Nos próximos dias surgirão novidades. Ora se surgirão.

22.2.07

Concordo e subscrevo integralmente!


Concordo e subscrevo integralmente!


Alberto João Jardim demitiu-se de presidente do Governo Regional da Madeira. Este facto político mereceu da parte dos analistas um dos seguintes comportamentos: o silêncio ou a crítica. Apoio, nem um.
Mas, afinal, de que é culpado Alberto João Jardim?
É ‘culpado’ de a Madeira ter um dos melhores aeroportos de todos os territórios insulares. É ‘culpado’ de os que aí desembarcam conseguirem chegar ao centro do Funchal em dez minutos, quando antes era preciso mais de uma hora para fazer o mesmo percurso. É ‘culpado’ de se chegar em poucos minutos ao Curral das Freiras ou a Porto Moniz, quando antes qualquer visitante do arquipélago precisava de quase um dia para fazer o mesmo percurso.
É ‘culpado’ de ter um sistema de Saúde que antecedeu a introdução em Portugal do paradigma de solidariedade social das democracias mais evoluídas. Matéria tanto mais significativa quanto, no Continente, assistimos à destruição quotidiana do nosso ainda incipiente Estado Social.
É ‘culpado’ de ter uma excelente rede escolar, apoio domiciliário universal aos idosos, acompanhamento alargado da primeira infância.
É ‘culpado’ de ter sensibilidade social, governando para o povo e contra os interesses dos senhores feudais do tempo da ditadura.
É ‘culpado’ de, contrastando com a maioria da classe política pós-25 de Abril, viver na mesma casa onde vivia há trinta anos, ter o mesmo carro há mais de uma década, não se lhe conhecerem sinais exteriores de riqueza.
É ‘culpado’ de, também contra a corrente nacional, praticamente não ter tido casos judiciais a ensombrar a sua gestão de trinta anos.
Mas neste território de discussão alguns analistas preferem desvalorizar a obra e denegrir o homem. Para eles nada disso tem valor porque “foi feito à custa dos impostos dos continentais”, de acordo com uma governação qualificada de “democraticamente deficitária”.
Contudo, são estes mesmos analistas que passam ao lado das diferenças abissais de desenvolvimento existentes entre o Litoral e o Interior continental, entre alguns, poucos, portugueses com nível de vida médio europeu e um País real que agoniza com mais de 20% da sua população a sobreviver no limiar da pobreza.
Os mesmos analistas que acham que o povo é inteligente quando na Madeira vota à esquerda, contrariando Jardim, como já aconteceu diversas vezes, nomeadamente em eleições presidenciais, e é estúpido e analfabeto quando apoia esmagadoramente o presidente do Governo Regional.
Jardim foi coerente. Foi eleito para executar um programa e, a meio do campeonato, viu alterarem-se unilateralmente as regras do jogo. Pede legitimamente uma nova legitimidade.
É uma lição e um exemplo que devia ser seguido. Principalmente por quem prometeu governar sem subir impostos, sem cercear direitos sociais, sem portajar Scut, sem aumentar o desemprego.


Luís Filipe Menezes, Político

19.2.07

Concordo em absoluto

Tá tudo dito
"Nem mais uma sílaba antes da reunião de amanhã, porque já disse tudo o que eu tinha a dizer. Mas fica um registo, um último, acerca das reais intenções dos que não querem eleições. Eu percebo que existem calendários para algumas "aves de rapina" que ficam (?) alterados. Por isso a antecipação estraga-lhes o esquema de assalto ao poder. A mafia ainda não se organizou a tempo. Não se organiza a tempo. Quer dizer, Alberto João Jardim pode ser enxovalhado pelo colonialismnio lisboeta, pode ver as dificuldades aumentar, pode constatar que o programa de governo será posto em causa por falta de recursos (a calendarização foi feita em função de determinada realidade financeira entretanto altrerada), para que esses mafiosos mal-cheirpsos que andam a minar o PSD há muito tenham mais tempo para darem cabo de tudo o que ainda resta? Falta de dinheiro? Mas quanto quais são os recursos financeiros do PSD e demais partidos regionais? Acham que vale a pena desmistificar esse argumento? Será que alguém vai ter que esclarecer as bases o eleitorado fixo do PSD desses montantes?"

Assino por baixo este texto publicado no www.ulpraperiferias.blogspot.com

É óbvio há muito tempo que a antecipação de eleições é o melhor cenário para o PSD-Madeira. Porque permite, como refere o autor do texto, desmontar a estratégia de tomada de poder do PS-Madeira que passaria por colocar militantes (ou simpatizantes) em locais-chave - incluíndo um dos principais órgãos de comunicação social cá do burgo, bem como utilizar serviços da Répiblica como "contra-poder". Mudará também os "timings" de alguns socialistas convenientemente instalados em Lisboa. Mas, e o que está subentendido no texto do ultraperiferias, permitirá também "limpar" o PSD. É que as "aves de rapina" que verão os timings alterados não estarão só no outro lado.

A haver eleições, vai ser curioso observar as movimentações.

17.2.07

Notícia do SOL one-line

Anúncio na segunda-feira
Jardim já comunicou ao PSD que se vai demitir


Está tudo a postos. Jardim vai anunciar aos sociais-democratas que se demite de Presidente do Governo Regional da Madeira e formalizará a saída a meio da próxima semana. O PSD não indicará substituto forçando Cavaco a convocar eleições antecipadas. E o sucessor de Jardim será o próprio Jardim

Alberto João Jardim vai mesmo anunciar a sua demissão esta segunda-feira. O SOL soube junto de fonte social-democrata que o Presidente do Governo Regional da Madeira já informou a direcção nacional do PSD do que se irá passar na próxima semana. Confirma-se que a reunião de segunda-feira com os sociais-democratas madeirenses servirá a Jardim para informar a sua estratégia política. O objectivo é a sua reeleição, para um novo mandato, com maioria reforçada. ..............

o blogue www.ultraperiferias.blogspot.com foi mais rápido. Dá como certa a demissão de Jardim.

16.2.07

A banda que veio do frio


Descobri os Sigur Rós no famigerado de vagares..., com a hopelandic e desde então fiquei fã. Da banda e dos gostos musicais da hopelandic. Pena que nunca mais a tenha encontrado pela blogosfera. Mas quem é vivo....


PS - Quem quiser saber mais sobre os Sigur Rós, visite a sua página oficial. Vale a pena. Áh e oiçam o Olsen Olsen. É absolutamente fantástica.

Vulgarização do aborto já começou!


Parece que a Esquerda portuguesa, a começar pelo PS, não quer consultas de aconselhamento para as mulheres que pretendam abortar. A vulgarização do aborto, que ninguém queria reconhecer, já começou. Para quê aconselhar, se o aborto é pura e simplesmente um acto médico?, questiona esta Esquerda lúcida, esclarecida e moderna. Por isso é que os movimentos defensores do Sim não queriam discutir a regulamentação da lei. Porque nunca reconheceram qualquer dignidade à vida humana intra-uterina, mas sabiam que não o poderiam assumir. Para eles, o feto mais não passa de um conjunto amorfo de células sem qualquer importância. É um apêndice no corpo da mulher, podendo esta dispor dele como muito bem lhe aprouver. Se quiser tirá-lo, pois bem, esteja à vontade. É um direito que lhe assiste.

Espero é que depois disto, a hipocrisia (curiosa, esta inversão do adjectivo) acabe e que odetes, chiquinhos, jominhos, zezinhos, coelhinhos e outros que tais não se atrevam a afirmar que são contra o aborto. Porque não pode ser contra o aborto quem não acha importante aconselhar e mesmo dissuadir a realização desta aberração. Porque não pode ser contra o aborto quem não considera importante que seja demonstrada à mulher fragilizada que existem alternativas ao aborto. Que por muito que a gravidez esteja a ser vista como um problema insolúvel, poderão haver soluções menos definitivas e violentas para a mulher e para a vida que carrega dentro de si. Não pode ser contra o aborto quem não acha importante a presença de um psicólogo e mesmo de um assistente social numa consulta de aconselhamento.
A argumentação desta gente miserável é a de que o objecto do referendo estaria a ser subvertido e acenam logo com um alegado condicionalismo ao poder de decisão da mulher, esquecendo que nenhum aconselhamento é vinculativo. No final, haja ou não tentativa de dissuasão, a decisão última será sempre da mulher. Portanto, deixem-se lá de retóricas idiotas e assumam que nesta questão, apenas é equacionada a liberdade da mulher. Que não existe mais nenhum elemento que deva ser ponderado. Que o aborto é uma coisa normal e vulgar e que deve ser entendido como tal.
O que sinto hoje é uma revolta do tamanho do mundo! Portanto, não me venham pedir que seja racional, perante esta total e absurda irracionalidade. Definitivamente vivemos numa cultura decadente!

Musical Hair.

A palhaçada continua


Já não bastava Manuel Pinho afirmar que a maior vantagem competitiva portuguesa são os baixos salários, agora é a própria Agência Portuguesa para o Investimento (API) a apontar essa pérola para cativar o investimento estrangeiro. A frase publicitária é a divinal: “Portugal apresenta um dos mais baixos custos laborais da União Europeia, tanto no sector dos serviços como na indústria”. Mas sendo belíssima, pode ser complementada: Eu acrescentaria ao spot publicitário que vende Portugal ao investimento estrangeiro: “O Estado financia a criação da empresa, não é necessário o pagamento de impostos ou à segurança social e pode levar o seu investimento sempre que lhe apetecer e sem qualquer tipo de responsabilidade social".

Mas há mais. Para que não restem dúvidas, essa magnífica página publicitária ostenta orgulhosamente um gráfico que mostra que os trabalhadores portugueses recebem menos do que os trabalhadores do Chipre, Eslovánia e Grécia.
Esta campanha não só é idiota e imbecil, como também demonstra bem o que pensam os socialistas portugueses do seu país e o querem para o seu povo.
Definitivamente, estes gajos que estão no Governo estão pouco se lixando para as aparências. Não são sérios e agora já nem sequer querem parecer.

Coisas Inconvenientes

“Uma verdade inconveniente” estreou a semana passada na Madeira. Curiosamente a Calheta foi o local da primeira exibição.
Uma semana depois, a capital continua entretida com outras fitas. Pior, só as escolas. Os programadores já disponibilizaram o filme para os alunos, mas o pouco flexível sistema de ensino, não se interessou.
Já vi o trabalho de Al Gore e não tenho dúvidas. Merece o Óscar de melhor documentário. Além do filme estar muito bem executado, é didáctico

Recomendo-o a dois políticos. Aos Senhores Secretários da Educação e do Ambiente.

Quer um quer outro gastam fortunas em campanhas. Fazem, inclusive, produções caseiras de medíocre qualidade científica e de imagem, para mostrar aos nossos alunos. Convidam oradores que não enxergam um palmo de terra além do nariz. Ou falam da colónia de lobos-marinhos ou da freira da Madeira. Agora existe um brilhante trabalho sobre o ambiente e não incentivam as escolas a vê-lo.

O outro senhor é Alberto João Jardim. Ganhou o referendo sobre o aborto na Madeira, perdeu-o no país. Ameaça pedir a inconstitucionalidade da Lei. Depois diz que ninguém o leva a sério. Pudera.

13.2.07

Uma obra de arte

Este fica para a História

Zero(s)

O resultado do referendo, na Madeira, provou mais uma vez o que valem eleitoralmente a dona Violante SARAMAGO, o sr. Serrão, o Dr. Maximiano, a dona Aurora e companhia: um grande e redondo zero.

12.2.07

Non Sense

Ontem vi o Dr. Louçã agradecer aos católicos terem votado Sim no referendo. Não me espantaria que qualquer dia o homem fosse pregar os disparates do costume para o átrio das Igrejas.

Resolvida que está esta questão, estou sinceramente curioso para ver qual será a grande bandeira que o Bloco de Esquerda irá desfraldar, mas deixo já aqui umas sugestões:

1. Liberalização das drogas;

2. Criação, em força, de salas de chuto;

3. Casamentos de homossexuais;

4. Casamentos católicos de homossexuais;

5. Adopção de crianças por casais homossexuais;

6. Despenalização da eutanásia;

7. Proibição de Cultos Religiosos em locais públicos (como em Fátima, por exemplo), que o Estado é laico e não se quer cá atrasados mentais que têm fé em divindades;

8. Extinção da propriedade privada;

9. Expulsão da Embaixada dos Estados Unidos.

Salvador Dali, Crucificação Hipercúbica

Efeitos colaterais do fim-de-semana

Passei um dia destes a ler. Quer dizer. Não foi bem o dia. Uma hora e tal em voz alta.
Por momentos só me ouvia. Tinha conseguido eliminar o barulho do oceano. Mas foi por pouco tempo. Assim que levantei a vista do jornal estava um homem a olhar para mim. Estava incrédulo. Fiz questão de acalmá-lo. Disse-lhe que poderia ficar para ouvir as notícias. O homem não ligou. Bateu duas vezes numa cerca de madeira. Bateu a segunda vez. Abriu uma pequena passagem. Estive quase a lhe dizer que seria mais fácil saltar. Enganei-me. O estranho era eu.

Passeava pela “Madeira nova”, quando decidi tomar café à beira mar e aquecer-me ao sol. O café estava encerrado. Ainda por cima quando lá cheguei não havia uma única alma por perto. As mesas faziam companhia às cadeiras. Não resisti. Puxei uma, sacudia-a. Ainda vi caírem uns grãos…imaginei que fosse sal. Sentei-me. Abri o jornal e mergulhei a vista nele. De 10 em 10 segundos levantava a cabeça para ter a certeza que continuava só.

Nunca mais perdi o rasto do homem. Passou de novo por mim, só que desta vez com um carro de mão carregado de “paletes salgadas”. Do nada surgiu um segundo indivíduo. Mais velho. Tinha à volta de 45 anos. Foi para junto do primeiro. Meia hora depois juntou-se a eles um rapaz. O primeiro trabalhava, os outros faziam-lhe companhia. Continuei a minha imperturbável leitura. É óbvio que deitava o olho para observá-los. Numa das vezes apanhei-os a beber “Coral”. A porta do balneário estava entreaberta. Fiz que não vi. Não queria perturbá-los. Era o mínimo que podia fazer.

Continuei a leitura. Já tinha lido os argumentos do SIM e do NÃO. Era o primeiro dia da campanha do referendo sobre o aborto.

Àquela hora o Primeiro-ministro já tinha chegado à China. O País tem mais de 1 bilião de habitantes. Muita gente. Faltava o mais importante. O Presidente da República para recebe-lo.

Foi no mesmo dia que se soube que tinha falecido a mulher mais velha do mundo. Tinha 114 anos. Era norte-americana. Fiquei contente. Não pela morte da senhora, mas pela data do aniversário. Nasceu no mesmo mês em que vi a luz do dia.

Uma hora depois já tinha lido o Calvin & companhia. Altura em que os homens abandonaram o local. O primeiro ficou de propósito para trás. Ao passar perguntou:
-Porque é que lê em voz alta?
-Por causa do trabalho
-Do tribunal.?
-Não! Pronuncia-se melhor as palavras.
Fez-me sinal com os olhos que tinha percebido, mas percebi que não tinha.
Tirei-lhe as dúvidas. Disse a verdade. Ele foi embora.

11.2.07

A dieta do Dr. Cavaco

Como toda a gente sabe, o Dr. Cavaco adora não se comprometer com nada. Por isso, nos assuntos domésticos que eventualmente dividam o país, o Dr. Cavaco refugia-se em copas e pouco ou nada diz não vá o diabo tecê-las ou comprometê-las. Assim, também não é de admirar que as grandes bandeiras do Dr. Cavaco sejam um conjunto alargado de lugares comuns onde entra o desenvolvimento, a inclusão, a competitividade e outras banalidades que nenhum político jamais se atreveria a não defender ou a não desejar. A última do Dr. Cavaco, sem contar com a promulgação de leis inconstitucionais, tem a ver com a saúde dos portugueses e com essa monumental cruzada estatal que nos pretende ensinar a comer, a beber, a fazer exercício e a viver pelo menos até aos cem anos. Para o Dr. Cavaco o combate aos vícios privados é um assunto que deve merecer consensualidade entre os portugueses e uma odisseia que justifica um excesso de zelo legislativo. Não sei quem lhe deu autorização ou legitimidade para perorar sobre o assunto, mas esta intromissão indecorosa sobre os estilos de vida dos portugueses é infelizmente cada vez mais recorrente entre uma classe política decrépita e sem qualquer ideia que se veja. Garanto-vos que li a notícia enquanto saboreava um McDonald’s acompanhado de batatas fritas molhadas em ketchup e de uma Coca-Cola bem fresquinha. E lembrei-me que o Dr. Cavaco está de facto muito magrinho. Coitado.

O voto obrigatório

Talvez por receio legítimo da abstenção, o voto obrigatório tem andado novamente a ser comentado. A ideia não é nova, nem original mas confesso-vos abertamente que não concordo com a mesma porque entendo-a como um absurdo sem muito sentido. Reparem que o Brasil, por exemplo, utiliza este método, de algum modo repressivo, para legitimar uma espécie de ladroagem instituída e não me parece que os brasileiros sejam mais felizes por isso.

Votar é um direito e, simultaneamente, um dever. Ou seja: eu tenho o direito de voto, logo tenho o dever de ir votar. Mas esse direito ou dever não devem ser impostos como meios de aumentar a participação dos portugueses nos processos eleitorais apenas para satisfazer o capricho de políticos totalmente incapazes de mobilizar um eleitorado desiludido e amargurado com o quotidiano. Nem neste assunto nem noutro qualquer.

O problema da abstenção no país, aliás um problema generalizado em boa parte da Europa civilizada, é mais vasto e implica o combate efectivo às suas causas para que o guião não seja menosprezado. O que é preciso saber é porque não vão os portugueses votar. O que é preciso saber é porque preferem (os portugueses) passar os domingos de eleições em todo o lado menos numa fila ou numa mesa de voto. O que é preciso saber é porque desprezam (os portugueses), de ano para ano e cada vez mais, os políticos que se apresentam a eleições. O que é preciso saber é por que é que a imagem dos políticos está sempre conotada negativamente no espaço público. O que é preciso saber é por que razão o aborto não mobiliza [mobilizou] ninguém. Talvez muita gente se surpreendesse com as respostas.

O referendo

Mais que uma hipotética vitória do Sim sobre o Não, o resultado do referendo mostra bem o quanto os portugueses se estão marimbando para os mecanismos de participação democrática. De facto, o aborto, ao contrário do que muitos radicais por aí apregoaram, diz respeito a muito pouca gente ou afecta um número muito reduzido de portugueses, razão mais que suficiente para o assunto não merecer mais que cinco minutos de atenção. Tudo isto é também sinónimo imutável do nosso atraso, agora que aparentemente entramos na civilização defendida pelo Eng. Sócrates e o Dr. Louçã.

Infelizmente, para uns e outros, a coisa veio liminarmente mostrar que muitas vezes os políticos estão a mais no processo, que as pessoas estão fartas desta intromissão e deste visível descaramento que apenas procura um protagonismo fácil e mediático que renda votos. Quem viu o Dr. Louçã a cantar vitória percebe bem o desprezo que ele gera e o mal que ele faz à nossa jovem democracia. A mesma democracia que ele abomina, combatendo-a inapelavelmente, mas que o admite no seu seio, recebendo-o de braços abertos. Como, e muito bem, escreveu alguém um destes dias, curiosamente a democracia está cheia de pequeninos candidatos a ditadores. Disfarçados de cordeirinhos e de democratas, acrescento eu. Mandassem eles cinco minutos nas nossa vidas e o mundo nada teria de cinzento.

10.2.07

O mal dos outros

Um dia destes dei boleia a dois jovens.
Disseram que o destino era o Entreposto da Cancela.
Eu não lhes perguntei nada, mas fizeram questão Justificar a viagem: – vou receber umas “massas” que o patrão me deve!

Não sei porque é que os toxicodependentes insistem, em não assumir a verdade.
É óbvio que o objectivo era comprar produto.

Ainda falamos do jogo, Portugal – Brasil, do tempo, da vida que estava difícil para eles, mas que eu estava bem…. Às tantas, o que ia no banco da frente adiantou mais qualquer coisa. Isto depois do intenso cheiro a cigarro já ter poluído o ar do habitáculo do carro. Ainda tentei olhar de esguelha, para ver se o que estava sentado ao meu lado tinha o braço picado. Foi quando disse que o destino era a Camacha (Bairro da Nogueira). A Justificação foi que tinha que chegar cedo, caso contrário, já não apanhava o patrão. Ainda olhei para o relógio para confirmar a hora. Já passavam 35 minutos do meio-dia.

Deixei-os no local que pediram, com a certeza de que os toxicodependentes são os únicos que não querem enxergar o mal.

9.2.07

Porque é fim de semana


Le Bonheur de Vivre
Henri Matisse

Um grande equívoco

Para Sócrates, a escolha entre o sim e o não resume-se a optar pela "modernidade" - curioso conceito - ou pelo conservadorismo. Esta espécie de desafio aos eleitores demonstra mais uma vez que todo o pensamento e que toda a "práxis" política de Sócrates se alicerçam em básicos "lugares comuns". Sócrates é aliás, todo ele, um enorme equivoco transformado em "lugar comum".

8.2.07

O Regresso d`Oliveira

Manoel de Oliveira anunciou que vai filmar no Porto Santo a vida de Colombo. Espero que o mestre não cometa o mesmo erro do navegador. Apontou um destino, desembarcou noutro.

Foi necessário 20 anos de férias na ilha dourada, para o mais proclamado cineasta da pátria fazer um filme no local de repouso.(todos os anos Oliveira faz 15 dias de férias no Porto Santo). É caso para afirmar que, uma vez mais, Manoel de Oliveira tem um ritmo próprio. Demasiado pessoal para a maioria dos telespectadores. Detestam os filmes do autor. Apesar disso, Oliveira continua a fazer sucesso lá fora. Sobretudo, junto crítica francófona.
Eu falo com à vontade. Já “gamei” Oliveira.( http://www.citi.pt/cultura/cinema/manoel_de_oliveira/index.html ) Até de mais. Tanto, que hoje sou um detractor do mestre. Se há 10 anos atrás era uma agradável descoberta, hoje é uma chata revisitação ver um filme do portuense.

Na altura valeu o esforço. Por causa do trabalho consegui despertar o interesse de uma lindíssima colega da faculdade. Julgo que se não fosse Oliveira, nunca teria namorado com ela.

A semana passada também chegou às nossas salas o último trabalho de Clint Eastwood. O realizador. O actor há muito que se retirou.
O filme dá pelo nome de “” – As Bandeiras dos Nossos Pais.
Vi e não fiquei deslumbrado. Gostei de algumas coisas. De outras não.
Achei-o demasiado longo. Demasiado primário na forma como foram executados os regressos ao passado. Insuportável nalgumas cenas. Ao contrário de um amigo, não senti na película o sofrimento daqueles soldados. Os ditos heróis. Também não deixa de ser irónico que Eastwood se tenha aliado a Steven Spielberg para fazer este filme. Sobretudo porque “O Resgate do Soldado Ryan” é uma obra quase perfeita.

Já sabíamos que Eastwood é exímio na realização. “Flags of Our Fathers” tem momentos muito bons. Em especial, os de combate. São autênticos cenários de guerra. Por instantes esqueci-me que estava a ver um filme. Pensava que estava confortavelmente sentado, a assistir à batalha. Quando assim é, as palavras são sempre poucas. Noutros aspectos o filme pecou. Não gostei da entrada nem do recurso constante ao presente. Por causa disso perdeu-se um excelente filme, ganhou-se um bom bocado de cinema.

6.2.07

Pequenas notas soltas.

1. Deplorável esta estratégia assumida por José Sócrates (não sei se enquanto PM, ou como Secretário do PS) de intimidação, relativamente ao referendo sobre o aborto. “Ou votam como eu quero, ou não mexo uma palha” é o que parece dizer o nobre líder nas intervenções de campanha. Mas é demonstrativo do espírito democrático do nosso Governo e muito especialmente do seu líder que confirma assim o seu despotismo.

2. Sobre o indulto a um foragido da Justiça; sobre as afirmações miseráveis do Manuel Pinho na China; do Presidente da República, nem uma palavra. Num país decente, seria motivo para o Primeiro-Ministro ser chamado à pedra e demitir o seu Ministro. Mas não em Portugal, somos um país de brandos costumes... O País implode devagarinho, e Cavaco Silva continua agarrado à sua estratégia de cooperação e condecora loucos como o anterior Procurador-Geral da República. Elucidativo!

3. Menti! Afinal assisti a mais um debate sobre a liberalização do aborto. Foi ontem, no programa Prós e Contras. Sinceramente, gostei. Houve alguma elevação por parte dos intervenientes técnicos, isto é, por parte dos juristas e dos médicos. Curiosamente (ou não) as brejeirices, as futilidades, as ofensas gratuitas, praticamente foram inexistentes e integralmente assumidas pelos poucos políticos presentes. Começo a achar que o mal de Portugal é efectivamente a classe política.

4. Acho piada ao Francisco Louçã: primeiro adjectiva-me de hipócrita por defender o Não, depois diz que os portugueses entendem a necessidade de mudança da lei. Fiquei perplexo e (pior) com uma dúvida: serei português ou hipócrita? Será que ele falou também para mim, ou pura e simplesmente já assume que eu sou carta fora do baralho? Este homem ainda criar-me um problema existencial, fazendo com que eu tenha que procurar ajuda especializada de psicólogos. E só por isso (e porque não tenho dinheiro) jamais receberá o meu voto.

5. O que é que se passa com a classe política portuguesa? Será que agora é moda fazer visitas de Estado aos países asiáticos? Primeiro o Cavaco foi à Índia, depois vai o Sócrates à China (não é uma delícia denominar a viagem de visita de Estado?), agora o Amado vai para o Japão e Jaime Magalhães (Secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna) para Timor-Leste. Para além do evidente desperdício, haverá algum motivo para estas visitas? Será uma tendência pan-lusitânica (perdoem o neologismo), ou uma nova versão expansionista? Fica a dúvida.

Herberto Hélder


Herberto Hélder foi indicado hoje pelo Penn Club Português como candidato ao Nobel da Literaura. Isso tem a importância que tem ou que se lhe quiser dar, mas a verdade é que a possibilidade de um autor de lígua portuguesa ganhar o dito prémio nos próximos mil anos é absolutamente remota. De qualquer maneira, fiquei contente que se tenham lembrado de Herberto Hélder, para mim o melhor poeta português da segunda metade do século XX. Um madeirense absolutamente ignorado por cá (para bem dos seus pecados, diga-se de passagem!).

Já agora, o outro escritor que o Penn Club indicou foi o também poeta António Ramos Rosa. Merecidamente, digo eu...

Os animais carnívoros

Os Animais Carnívoros

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina eurgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.

Herberto Hélder

Se houvesse degraus na Terra...

Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder

Poema de um funcionário cansado

Poema de um Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para uma amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo da algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra,
quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa

3.2.07

Há Ministro!

Este sábado, o "Sol" tem uma notícia surpreendente: O Ministro do Ambiente desmentiu que ameaçara demitir-se. É verdade, meus caros amigos. Há um tipo que é Ministro do Ambiente. Tem nome e tudo. Chama-se Nunes Correia. É a surpresa geral!

Cavaco enganado

Confesso que não morro de amores por Cavaco. Nem pelo actual ministro da Justiça, Alberto Costa. Por isso, dá-me uma espécie de prazer sádico vê-los "meter a pata na poça". Esta de conceder um indulto a um tipo que andava foragido à Justiça é de morte... Enfim, mais uma trapalhada do Governo (esta semana, foram várias). Mais uma vez com a serena complacência do homem que nunca se engana... E que raramente tem dúvidas, para mal dos nossos pecados.

Só!!!

11 dos 25 árbitros das ligas profissionais serão suspensos no âmbito do "Apito Dourado". A mim, sinceramente, só me espanta serem tão poucos...

Cavaco

Cavaco não quer que o BPI seja espanhol. Pois bem, mas o que tem Cavaco a ver com isso? Ainda ninguém lhe explicou as competências de um presidente da república? Só se for isso...

Parabéns, camarada

O Magno foi nomeado Vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto Santo. Eu, que o conheço bem, acho que é a melhor escolha. Tem capacidade de trabalho, tem formação e tem... cultura. Parabéns, camarada. Diverte-te. E vê se continuas a escrever qualquer coisa por cá.

A Figura de Dürer

Recuperámos a figura de Dürer: Uma força poderosa manipulando o mundo. Está a direita de quem entra.

2.2.07

Poema de fim-de-semana

Como já fui acusado de machista e até de misógino, deixo aqui um poema de fim-de-semana algo feminista. Divirtam-se!

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Sátira aos HOMENS quando estão com gripe

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai mulher que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai mulher , mulher , não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai mulher, mulher fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior, Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai mulher, mulher nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai mulher, mulher que vou morrer.

1.2.07

Referendo ao Aborto - Algumas questões aos partidários do Sim.


Como quase todos os portugueses, quando se reiniciou o debate do referendo sobre o aborto, eu já tinha uma opinião formada. Também como quase todos os portugueses, já estou cansado de ver uma campanha de agressões, insultos, falta de respeito democrático e, acima de tudo, farto das certezas de todos os que se envolveram directamente nela. Dos dois lados. Por isso, recuso-me a ver e a ouvir mais debates, mais conferências, mais argumentos.
Mas, por motivos familiares – a minha casa é uma verdadeira democracia! – tenho discutido e argumentado e fiz o exercício de ponderar razões para votar Sim, porque o aborto clandestino não é apenas uma preocupação dos que apoiam a mudança da lei.

Deixo aqui perguntas que, se forem respondidas categoricamente, serão suficientes para eu mudar de opinião.

1. Os defensores do Sim argumentam que apesar do embrião ser humano, não é pessoa humana (antes de mais, acho curioso ver esta distinção na boca de um Francisco Louça, de um Jerónimo de Sousa, ou mesmo de um Jorge Coelho. Então não é esta mesma Esquerda que nunca aceitou a distinção entre Indivíduo Humano e Pessoa Humana proposta pela Democracia Cristã, cujo expoente máximo é o Personalismo, de Mounier? Mas…adiante!).
Assim sendo, em que fase do desenvolvimento é que o embrião passa a ser pessoa? Sabemos que a ciência nos diz que o processo de vida é ininterrupto desde o momento da fecundação. O que falta então para conferirmos ao embrião a mesma dignidade que nos merece a mulher?

2. A formulação da pergunta: basta apenas a grávida manifestar o desejo de abortar. Então e se esta tiver 13 anos, ou 14, ou 15? Bastará dirigir-se a um estabelecimento de saúde e solicitar o aborto? O natural é que não, pois o Estado não lhes reconhece capacidade de decisão. Será, portanto, normal que exija a presença dos pais. Mas então, surge outra questão: o estudo da própria APF (feito por encomenda, diga-se de passagem) demonstra que a maior parte dos abortos são feitos por adolescentes, cuja principal razão é evitar que os seus encarregados de educação descubram. Estas miúdas passarão, por artes mágicas, a conversar com os pais, ou continuarão a recorrer ao aborto clandestino?;
3. Na maior parte dos países onde o aborto é feito a pedido da grávida, esta tem que se submeter a sessões de aconselhamento. Como será em Portugal? Estará um sistema de saúde que não promove educação para a saúde, que não consegue responder a cirurgias urgentes (conheço um senhor que tem marcada uma cirurgia oncológica de carácter urgente há 6 meses), apto a prestar este serviço? Estará este mesmo sistema apto para proceder às determinações legais antes das 10 semanas? Haverão unidades suficientes no país com capacidade para responder, atendendo ao encerramento de centros de saúde, maternidades e à legítima objecção de consciência de alguns médicos?
4. Como procederá o tal sistema repressivo do Estado quando uma mulher fizer um aborto às 11 semanas? Que atitude tomar em relação a ela, à clínica-de-vão-de- escada e à abortadeira? Mas e se for num estabelecimento de saúde legalmente autorizado? Que atitude será tomada em relação à entidade, ou mesmo à equipa?

5. As tais mulheres que não têm dinheiro para recorrer às clínicas espanholas e com as quais parecem muito preocupados os movimentos e partidos pelo Sim recorrerão a estes serviços, se o Estado não garante o seu anonimato?

6. Diminuirá o número de crianças espalhadas pelos bairros de lata, se estas famílias desestruturadas não estão formadas sequer para o uso do preservativo?

Eu sei que os movimentos pelo Sim não querem responder a estas perguntas (são incómodas, não são?), alegando não serem essenciais. Pois, para mim são. Respondam-nas e terão o meu voto!

PS – É curioso que num debate sobre um tema de ético-social, alguns defensores no SIM à mudança da lei façam da sua campanha uma perseguição à Igreja Católica. É ver cartazes contra a Fé dos Outros, são as suspeitas lançadas, são as invectivas, enfim, uma multiplicidade de ultrajes à escolha. Esta contemporaneidade, que assume como politicamente correcto perseguir os crentes, cheira a revolução jacobina. Eu já ouvi mesmo da boca de uma certa esquerda “mata-frades” que o Extremismo Islâmico é mais digno de respeito do que a Igreja Católica. Cada vez mais me convenço que esta não é apenas mais uma teoria da conspiração. A diferença é que, há 100 anos, esta mesma Esquerda usava como argumento para os levantamentos populares a miséria que então grassava, culpabilizando a Igreja por todos os males. Hoje, usa a Cultura, mas o objectivo é sempre o mesmo.

31.1.07

Quem muito se agacha, professora Caré...

Os professores que se manifestaram na Madeira contra Sócrates vão, esta tarde, à PSP prestar declarações pelo facto de terem "ousado contestar o glamoroso primeiro. E eu estou curioso para ver a reacção da sra. professora Caré.

É que, afinal, a maioria daqueles que foram intimados a ir à Polícia são, para além de docentes, dirigentes do Sindicato dos Professores da Madeira (SPM). O mesmo que a sra. professora Caré dirigiu durante anos. O mesmo que lhe deu a projecção política que hoje tem. ~

São, em muitos casos, antigos "companheiros de armas" da actual deputada socialista. Que fizeram - alguns deles - parte das direcções por ela presididas. E que hoje afirmam "nunca ter passado por situação semelhante", a ponto da intervenção das autoridades só ser comparável às famosas entrevistas "da PIDE" - as palavras entre-aspas são da autoria da actual presidente do SPM, uma das manifestantes intimadas.

Estou em crer que a sra. professora Caré não terá qualquer reacção. É que a cadeira de São Bento é tão... confortável. E o PS-M tão...subserviente.

Esquece-se a senhora professora Caré de uma frase que todos ouvimos da boca dos nosos avós: "quem muito se agacha o rabo lhe aparece". Mas era tão bom que de vez em quando se lembrasse...

A honestidade do Pinho


Com o primeiro ministro Sócrates na cadeira ao lado, o bom do ministro Pinho foi à China dizer que Portugal é um país convidativo para o investimento estrangeiro porque tem, e passo a citar, "os mais baixos salários da União Europeia".


Com esta afirmação, o apatetado Pinho - com o primeiro ministro sentado na cadeira ao lado - revelou a estratégia do Governo para o país captar dinheirinho de fora: Manter os salários baixos e mostrar a pátria lusa "na estranja" exactamente como era apresentada há 20 anos, ou seja, sítio bom para investir porque se paga pouco a quem trabalha.


Resumindo, enquanto todos os outros países da UE (incluindo os "novos") investem na tecnologia e na qualificação da mão-de-obra para atrair investimento, criando estratégias baseadas nesses dois vectores para aumentar a competitividade, Portugal tenta, segundo aquilo que o eufano Pinho orgulhosamente afirmou - com o primeiro ministro da cadeira ao lado - manter os baixos salários, porque essa é a nossa estratégia competitiva.


Creio que pela primeira vez o Pinho foi completamente honesto - com o primeiro ministro sentado na cadeira ao lado. Foi preciso ir à China, mas lá honesto o homem foi... Uma vez na vida. E ficámos assim a saber aquilo que nos espera nos próximos tempos...

27.1.07

Breves

- A CGTP faz campanha pelo Sim, no referendo ao aborto. E ainda me perguntam porque não sou sindicalizado! É que gosto pouco de ser marioneta ou pedra de arremesso!

- Os manifestantes que na Madeira criticaram Sócrates estão a ser interrogados pela PSP. É a beleza da democracia socrática (do nosso, pois claro)!

- Parece que o Governo da República anuncia investimentos que (acredite se quiser) já estão concluídos. Só não é de levar às lágrimas, porque infelizmente este é o Governo de Portugal.

- Ontem o FCP perdeu. É apenas a 2º derrota do actual campeão e já o professor lançou suspeitas sobre a equipa de arbitragem. Parece que o tempo de formação no Porto é bastante curto. Mas isto vai ser bonito, quando o Porto começar a perder com maior frequência.

Bom fim-de-semana a todos.

Liberdade para a economia ("tadinha"...!)

Uma tal Economic Freedom Network publicou um anuário sobre a liberdade económica, cotando os diversos países de acordo com uma série de critérios neo-liberais. De acordo com este relatório, Portugal está em 20º lugar, à frente de (pasme-se!) Espanha e mesmo da Suécia (não é piada. É mesmo verdade). Aliás, no que toca à liberdade económica, Portugal situa-se em 6º lugar entre os países que integram a UE, sendo a avaliação superior à média Europeia (a 25).

Parece uma boa notícia, mas nós, leigos em economia, temos algumas perguntinhas para colocar a este movimento neo-liberal:

1) A liberalização absoluta da economia é vendida como a banha da cobra, prometendo resolver todos os nossos problemas económico-sociais. Ora, estando Portugal tão bem classificado, porque raio não saímos desta cepa torta?

2) Como poderão os espanhóis e os suecos viverem melhor do que os portugueses, se a economia deles é tão oprimida?

3) Em que é que a liberalização total dos despedimentos melhorará a vida de todos nós?

É que sinceramente não percebo. Mas isto deve ser defeito de formação.

PS - É por estas e por outras que cada vez mais olho com desconfiança para este liberalismo contemporâneo. Perdeu-se tudo o que de político havia neste movimento, passando a ser apenas um cálculo económico. Não me venham é pedir que acredite ainda ser possível encontrar políticas sociais.

Debaixo d`olho

A JSD faz campanha na Madeira pelo “nim”.
É uma opção pouco inteligente da mulher eleita para comandar a maior organização política-juvenil na região. Até compreendo a ideia, mas quem quer fazer carreira política, tem que ter posição firme. Falo do aborto.


O clero madeirense continua órfão. Está difícil a escolha do novo líder da Igreja Católica regional. Já foi o ano passado que o actual bispo despediu-se com uma missa e ainda não se conhece o sucessor de D. Teodoro Faria. Fontes próximas da igreja, dizem que todos os eventuais candidatos demonstram pouco interesse pelo cargo. O homem que se segue, dizem, vem da diocese de Évora. Será?


Conceição Estudante, secretária com a pasta da saúde, “puxou as orelhas aos enfermeiros”. Foi um dia destes. É pena que a senhora não tenha coragem para fazer o mesmo com os médicos. Já ouvi vários discursos dela e em nenhum atreveu-se a chamar “os bois pelos nomes”. No auditório estavam os intocáveis senhores doutores. É pena que só faça política a reboque dos mais fracos. Foi, inclusive, deselegante com a classe. A única que é para mim, o motor do hospital. Isto porque os senhores doutores vão lá, fazem o mínimo, ganham o ordenado, e vão encher os bolsos para o privado. Não todos. A maioria.

25.1.07

Estamos em obras. Quer dizer, o Gonçalo & Companhia estão. Eu observo. Pelo incómodo pedimos desculpa. Eles renovam a imagem. Nada de confundir com outras paixões (FCP).