29.9.09

Afinal, não será o partido vencedor responsável pela criação de condições de governabilidade?

Os socialistas reclamam que a vitória eleitoral foi deles e não compreendem porque é que a comunicação social (alegadamente) a subestima.
Nem sempre acontece, mas desta vez até estou de acordo com Sócrates. Foi uma vitória importante, sim senhor. Não percebo é porque raio o primeiro-ministro não informa Augusto Santos Silva e outros notáveis e ministeriáveis do seu partido acerca dessa vitória “estrondosa”. É que ao ouvir o ainda ministro dos Assuntos Parlamentares ficamos com a sensação que todos os restantes partidos foram vencedores. Confuso? Eu explico.
Alguns socialistas, preparando o choradinho do costume com o objectivo de condicionar as tomadas de posição dos restantes partidos, têm responsabilizado toda a oposição pela governabilidade do país. Parece que o PSD, ou CDS, ou o BE ou a CDU é que são responsáveis por formarem governo.
Ora, se algum partido tem a responsabilidade acrescida de garantir as condições de governabilidade, esse partido é o PS. Uma vez que será convidado a formar governo, tem de atender à realidade política do país, de forma a respeitar a vontade de todos os eleitores, porque será governo de Portugal. Não podem os socialistas assacarem responsabilidades aos outros partidos, demitindo-se das suas. Nem pode o PS exigir que a oposição respeite o voto dos eleitores que em si votaram e não atender que cerca de 60% dos votos fugiram para a oposição. E se o PS quer que respeitem os seus votos, tem de respeitar os votos dos outros. Porque não são menos legítimos, nem menos importantes, nem menos democráticos.
Deve o PS submeter-se aos ditames de partidos menos votados? Não sei, esse é um problema que o PS terá de resolver. O que os portugueses esperam do partido mais votado é que forme governo e aja responsavelmente. Terá de ceder? Provavelmente, mas isso é o que se exige a um bom governante. Saber governar em democracia implica saber negociar, implica interagir com os outros e não assumir atitudes arrogantes e prepotentes como o PS fez nos últimos 4 anos. O que não pode, o que não é democrático é que tendo a maioria parlamentar venha agora responsabilizar os partidos menos votados pela governabilidade do país. Porque isso sim, seria inverter o ónus da responsabilidade e essa é que seria a atitude dos que crêem que o PS não foi o verdadeiro vencedor das eleições.

E agora, José (poema)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

28.9.09

Reequacionar prioridades

Bernardo Trindade é o principal responsável pela derrota (mais uma) do PS-M nas eleições de ontem. Foi ele quem fez a campanha. Foi ele quem escolheu a equipa. Foi ele quem ocupou o espaço mediático dedicado aos socialistas.

João Carlos Gouveia (antecipando o desastre?) esteve ausente durante 15 dias, dando todo o tempo do mundo a Trindade, com o resultado catastrófico que se conhece. E agora Bernardo? Há que reequacionar uma série de prioridades. Ou não?

Post-Scriptum 1: Na Madeira, a agenda dos meios de comunicação social não coincide, de facto com as preocupações do povo. O resultado de Bernardo Trindade é mais uma prova.

Post-Scriptum 2: A conferência de imprensa do líder do PS-M após os resultados eleitorais terem sido conhecidos entra no campo do surrealismo...

Parabéns a Rodrigues

Não posso deixar passar em claro a eleição de José Manuel Rodrigues para a Assembleia da República. Um prémio para a forma tranquila e segura como o líder centrista encara a política, fazendo uma oposição firme mas clarividente.

E agora, José?*

E agora, José? Ontem ganhaste. Mas em relação a 2005 perdeste votos, mandatos... uma maioria absoluta que viste escapar por entre os dedos, como grãos de areia no deserto em que ameaçaças transformar Portugal inteiro. Serás obrigado a governar sozinho, em minoria, com um presidente da Republica que, apesar de apregoar a estabilidade, nunca será teu aliado.

À esquerda é impossível fazer maiorias José, o que em princípio inviabilizará uma camaleónica viragem política. Repara que muito que cante vitória, Louçã ficou longe do estatuto que queria para si e para os seus: o de chefe de um partido capaz de influenciar, de forma decisiva, a governação.

Maioria, José, só com CDS ou com o PSD. Portas está numa posição invejável, com uma amplitude de movimentos e uma margem de manobra muito confortáveis. O tipo é um bom negociante, José. Gere, como mais ninguém na política portuguesa, a agenda mediática. Veremos até que ponto consegue que cedas em matérias que são caras ao eleitorado de direita, tais como a segurança, a imigração ou o Rendimento Mínimo de Inserção.

Oh, José, assim terás um problema: Se cederes ao CDS, em temáticas nas quais Bloco e PC têm uma visão quase coincidente, e radicalmente oposta à posição da direita, terás contra ti a extrema esquerda e a tua própria esquerda interna... Que dilema, José!

Já agora, enquanto Manuela Ferreira Leite liderar o PSD enfrentarás uma oposição firme, porém responsável. Depois...

A teu favor jogam os "timings" legais e políticos que condicionam Cavaco. Diz a Constituição que o Parlamento não pode ser destituído nos primeiros seis meses de uma legislatura e no último semestre de um mandato presidencial.

As contas são fáceis, José, mesmo para ti. Até Março ninguém te pode fazer mal e, como o Sr. Silva irá a votos em Janeiro/Fevereiro de 2011, estás seguro a partir de Julho do ano anterior. Complicado? Nem por isso. Se fosse inglês técnico...

Para acrescentar mais peças ao puzzle digo-te claramente que é mais fácil ser eleito contra ti do que a teu favor, ou seja, é impensável que te tirem o tapete em Belém antes de Cavaco garantir uma calma e tranquila reeleição. Terás de assistir calmamente ao processo, empurrando para a frente, alegremente, um qualquer candidato, e assobiando a internacional para o lado direito.

Terás dois anos e meio de segurança, embora com alguns sobressaltos prometidos. Mas depois de Cavaco ganhar tudo pode mudar, José... Estarás preparado?

O que eu duvido é que Portugal aguente mais três anos contigo. Talvez Nossa Senhora de Fátima ajude... Mas tu não crês, pois não?

São os dilemas de uma vitória, José...

* Título roubado a Carlos Drummond de Andrade

Duas razões para ter votado em Sócrates

Estas foram as duas razões que mais ouvi da boca de eleitores de Sócrates:

  1. Ela (Manuela Ferreira Leite) é muito velha.
  2. Com aquela idade e com aquela cara representa mal o país l á fora. Pelo menos ele tem boa re(a)presentação.

E estes são os motivos que levaram os portugueses a eleger Sócrates.

Como diz o ditado, cada povo tem o governo que merece!

What we've got here is failure com to communicate (...)!*

O povo português é
IMBECIL!
* Cool hand luke