12.4.08

Memórias de Branca Dias

Há muito que não via uma peça que gostasse tanto. Não é só o texto que é fabuloso (de Miguel Real), não é apenas a encenação que está muito bem conseguida (Filomena Oliveira), não é apenas a interpretação da Rosário Gonzaga (parabéns Rosário) que é magistral, não é só a banda sonora original (de David Martins) que reúne numa única sonoridade a tradição brasileira com sons da modernidade, não é apenas a iluminação encontrada. O que faz deste monólogo um espectáctulo de ser revisto é a conjugação de todos estes elementos. Memórias de Branca Dias, matriarca de Pernanbuco e mulher quase feliz, quase realizada, quase amada, quase... é um regresso ao passado do teatro. É um revisitar do teatro puro e duro, onde um cenário simples serve de enquadramento a uma interpretação que não fica nada a dever a Maria do Céu Guerra ou Eunice Muñoz. Uma hora e meia de interpretação feroz. Muito bom.

10.4.08

E o mau tempo chegou.................

É inadmissível que o número um da Câmara do Funchal esteja preocupado com as horas extraordinárias dos funcionários.

O que Miguel Albuquerque não disse, mas quer dizer, é que não pode fazer mais porque a autarquia não tem dinheiro para fazer face às adversidades provocadas pelo mau tempo.

Será que é este o papel de uma Câmara Municipal, quando os munícipes mais precisam de ajuda???

9.4.08

8.4.08

Espreitar a chuva II

Santa cruz

Marina do Lugar de Baixo
Ponta do Sol

Ribeira Brava
Recordam-se. Comecei o dia a pensar na chuva, saí de casa, e foi agarrá-la.

Quem sai aos seus...

Ora, que razão haveria para que o senhor Vara se arrependesse?... Só porque a senhora é uma criminosa (que eu saiba, pelo menos fugir à justiça é crime), não há cá razões para suspeitar da sua honestidade.

Atenção

Naturalmente que me dá igual ao litro se a nova ponte sobre o Tejo é feia ou bonita, ou se é berrante ou se passa despercebida. Qualquer posição é perfeitamente defensável. A mim o que me preocupa é saber se a nova estrutura responde às necessidades não só da zona metropolitana de Lisboa mas do país e se não haveria soluções economicamente mais vantajosas.
Preocupa-me, também, saber a quem será entregue a empreitada. Estaremos atentos para ver se empresas onde trabalham políticos integrarão os inevitáveis consórcios...

Ciranda da Bailarina

Porque me apetece. E digam lá se não é de enternecer...

Ciranda da Bailarina
Composição: Edu Lobo / Chico Buarque

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Procurando bem
Todo mundo tem.

Declaração de interesse: prefiro a versão original. Mas esta, da Adriana Calcanhoto, também é deliciosa.

Espreitar a chuva

O dia está frondoso.
Consigo ver através da minha janela a chuva. Em simultâneo oiço-a cair na terra.
Apetece agasalhar-me no refúgio de um tecto e contemplar a queda livre da água que vem do espaço. Cai como meteoritos. Só não dizima espécies, como aconteceu há milhões de anos. Eu não estava lá. Nem agora sei se estou cá. Apenas sinto que existo, mas não consigo medir o tamanho da minha dimensão face ao universo. Também não importa.

Imagino que a chuva já tenha feito estragos. Imagino que a esta hora, já existam danos colaterais nos sapatos de muitas mulheres. Talvez no cabelo. Talvez nas calças. Também não importa.

Há muito tempo que não chovia. Pelo menos assim.

Há muito tempo que não escrevia. Pelo menos assim. Acho que estive de férias. Acho que me assaltaram o cofre das letras. Quando parar de chover, vou iniciar a busca. Se entretanto, alguém encontrar palavras entre os destroços da água, avise.
Podem ser minhas.

7.4.08

Entre idiotas, patetas e imbecis, venha o diabo e escolha

Alguns idiotas gostam de reclamar como seu exclusivo património os sonhos e as utopias de Abril. Como se Abril apenas representasse os ideais de esquerda (mais ou menos radical). Como se o desejo de liberdade não fosse também partilhado por alguns sectores da direita. Como se toda a actividade social e vontade de participação fosse prerrogativa apenas dos socialistas e comunistas. Como se o PREC se resumisse à dicotomia Soares/Cunhal.
Nalguns casos, sei bem o que os move. Mas não basta a intenção: para ser eficaz é preciso alguma substancia. E os que por aqui pululam já demonstraram que os seus horizontes mais longíquos são mesmo os seus ricos umbigos...
Portanto, a característica que mais os identifica não será bem a patetice: é a imbecilidade!

Afinal Paretto estava errado


Vilfredo Paretto criou, em 1897, a Regra 20/80, demonstrando que 80% da riqueza estava nas mãos de 20% da população.

Eu estou cada vez mais convencido que neste momento 95% da riqueza está nas mãos de apenas 5% da população. O que demonstra que desde o século XIX a justiça social poderá a estar a regredir. É preciso ficar atento...

Vão roubar pó c...

Assumo-me cada vez menos como liberal. Do liberalismo à portuguesa, então, fujo a sete pés. Por isso enoja-me o discurso supostamente liberal que atribui a uma eventual esquerda inimiga da propriedade privada a crítica aos lucros formidáveis de alguns, quando a grande maioria passa por dificuldades. O argumento é velho e está gasto: é preciso produzir valor para ser redistribuído, pois não se pode distribuir o que não existe.
Ora, tudo isto estaria muito bem (e eu, por princípio, subscrevo-o), se a prática consubstanciasse a teoria. Mas a realidade é bem diferente. Exemplifico: no ano passado a banca portuguesa apresentou rendimentos fabulosos (à custa de todos nós e dos funcionários, que trabalham em média mais 30%, sem direito a qualquer hora extraordinária e com o cúmulo de se esconderem quando há alguma inspacção do trabalho) e, que se saiba e ou se tenha visto, não representou nenhuma mais-valia para todos os portugueses que não são accionistas e dirigentes. Este ano, como se perspectiva um ano difícil, já vieram a terreiro os banqueiros, com a simpatia dos comentadores especialistas em assuntos económicos e o beneplácito do governo, informar que os prejuízos serão grandes mas redistribuídos por todos: clientes e restante população (através dos regimes de excepção). Ora, com exemplos destes, como é que poderemos alguma vez confiar nas empresas portuguesas. Porra para elas e que vão morrer para longe!
É como alguém dizia: a banca é exímia em privatizar lucros e em democratizar prejuízos.

Isenção à portuguesa

Há cerca de 20 anos, quando se iniciou o processo de implementação de sistemas de gestão da qualidade e a sua certificação em Portugal, foi criada uma entidade certificadora, composta pelo Instituto Português da Qualidade (IPQ) e algumas associações industriais e empresariais.
Passados alguns anos e alegadamente por forma a combater alguma promiscuidade, entendeu-se que o IPQ deveria sair dessa entidade certificadora, sendo criada a APCER (Associação Portuguesa de Certificação), uma vez que não seria transparente que a organização que responsável pelo Sistema Português da Qualidade (SPQ) fosse accionista da entidade certificadora.
Até aqui, tudo bem. O engraçado é que a necessidade de isenção vale apenas para um lado. Isto é, as associações industriais e empresariais mantiveram-se como accionistas na APCER, sendo que algumas das empresas associadas dessas organizações empresariais são os principais clientes da APCER. E, de acordo com o olhar do mundo empresaria português, aqui não há qualquer tipo de promiscuidade.
E assim se vai fazendo a vida portuguesa. É um salve-se quem puder...

6.4.08

Canto dos Poetas

Ontem voltei a assistir ao concerto Isabel Bilou Canta a Palavra dos Poetas, na Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar, integrado mas comemorações do 25 de Abril, desta centenária colectividade.
Este é mais um projecto da Associação do Imaginário que, apesar de acompanhar desde o seu início e de já ter assistido a muitos concertos, nunca deixou de me emocionar. Por razões familiares, claro que sim (porque nisto do canto dos poetas e de outras cantos, os afectos estão sempre próximos), mas essencialmente porque ouvir as palavras outrora cantadas por Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e Zé Mário Branco continuam a despertar o desejo de liberdade. Ainda para mais, num momento em que assistimos a um clima de perseguição inaudito em trinta e tal anos de democacria.
Sabe bem voltar a ouvir as canções de liberdade. E digo-o sem qualquer prurido, porque nisto de ideologias, apesar de ser insuspeito de manter qualquer simpatia pela esquerda, não posso deixar de reconhecer a importância do sonho de tantos e na esperança de quase todos.
Por isso, blogosfericamente (perdoem o neologismo), manifesto o meu agradecimento à direcção pela iniciativa Cafés de Abril. Pode ser que a palavra volte a despertar e assuma a sua real qualidade de arma em defesa da liberdade.

Anedotas

Há cerca de uma semana António Borges, ex-dirigente da Goldman Sachs, denunciou a perseguição que o banco sofreu por parte do governo, devido à sua actividade política, tendo mesmo sido anunciada por esse personagem macabro que dá pelo nome de Manuel Pinho (insisto, é preciso queimar o pinho).
Mas tudo isso parece ser normal.
Há dois dias soubemos que Jorge Coelho irá presidir uma empresa à qual entregou milhões em contratos públicos, enquanto ministro das obras públicas.
Mas também isto parece normal.
Os professores são agredidos nas escolas.
Ao que tudo indica e a crer nas afirmações do secretário da Estado, isso é normal.
Aumenta a criminalidade violenta.
O governo anuncia que essa é uma situação normal.
Portugal está a saque, o governo impõe acções persecutórias às vozes discordantes, mas a acreditar na opinião publicada, nada de anormal se passa.
Isto não é um país. Portugal é apenas uma anedota de mau gosto!