15.5.07

Direito à crítica (a altura da relva na área do guarda-redes)

Não me compete, de forma alguma, comentar textos publicados nos jornais. E raramente o faço. Fui jornalista durante tempo suficiente para perceber que muitas vezes as informações recolhidas no terreno levam os profissionais a valorizar factos, por vezes menos importantes, em deterimento de outros, se calhar bastante mais significativos. Aconteceu-me muitas vezes. Em condições normais não vejo, por isso, em cada texto jornalístico uma espécie de elemento de uma cabala contra "A", "B" ou "C".

Este esclarecimento vem a propósito de um texto hoje publicado no Diário, com chamada à primeira página. E que vou comentar, abrindo uma excepção.

O trabalho do meu amigo Ricardo Freitas conduz - inadvertidamente, estou em crer - o publico a encarar a Feira do Livro 2007 como um espaço onde os livros estão fechados em local quase inacessivel, protegidos pela altura dos balcões dos stands. Essa "barreira", conclui um leitor menos atento, marca o evento de forma indelével, contribuindo, quiçá, para afastar os espirítos menos tenazes do universo da leitura!

No texto do Ricardo, que se supõe ser um balanço intermédio ao evento, não há uma única referência a uma série de projectos postos em práctica este ano e que são absolutamente inovadores por cá. E que têm tido excelente aceitação por parte do público.

Basicamente, foi como ir ao Estádio dos Barreiros fazer um relato de um jogo e gritar, ao intervalo, que o elemento mais significativo da primeira parte fora... a altura da relva na área do guarda-redes. Esquecendo quantos ataques cada equipa fizera, quantos remates tinham seguido para a baliza e quantos fora-de-jogo assinalara o fiscal de linha.

Convém por isso esclarecer o equívoco.

Em primeiro lugar, os stands são cerca de 5 cm mais altos em comparação com aqueles que foram utilizados em anos anteriores. Mas permitem mais espaço para arrumação - consequentemente mais livros - e mais gente para informar os leitores.

Não me parece que o sucesso ou insucesso de uma Feira, ou que a qualidade (ou falta dela) de uma organização se possa medir por 5 cm. E muito menos que o apelo e o incentivo à leitura tenham alguma coisa a ver com a altura dos pavilhões. Embora, voltando aos treinadores de futebol, alguns utilizem desculpas como altura da relva na área do guarda-redes!

E então vamos aos factos, ou seja, àquilo que não foi escrito pelo Ricardo.

Este ano fez-se um esforço notável para angariar novos leitores. Que se traduziu na criação de eventos e de actividades como o "Ler a Andar". No primeiro dia do evento, 14 alunos do Conservatório fizeram dezenas de carreiras dos Horários do Funchal, devidamente identificados, a ler pequenas obras de escritores como Helena Marques, José Viale Moutinho, Rui Fino, Tolentino Mendonça e José Agostinho Baptista. Enquanto liam, distribuíam livros pelos passageiros, ou por quem estava nas paragens. E anunciavam a Feira. A Câmara Municipal do Funchal e a organização distribuiram, nos primeiros dias do certame, 10.000 livros. De forma absolutamente gratuita.

Este ano promoveu-se um concurso entre as escolas secundárias da Região. Participam 11 establecimentos de ensino de quase todos os concelhos, que se prepararam durante meses e que constituiram equipas de sete elementos para disputar, no auditório do Jardim Municipal, um concurso que ontem (primeira sessão) levou centenas de pessoas ao Jardim.

Este ano criaram-se, ao fim-de-semana, percursos pedonais pela baixa do Funchal, começando e acabando no recinto da Feira. Ao logo do passeio, os concorrentes (equipas) são obrigados a passar por vários pontos, respondendo a questões relacionadas com o Funchal e com livros. Sábado, primeiro dia do evento, participaram nele mais de 150 pessoas.

Este ano todas as apresentações de livros foram feitas em espaço aberto. Tornando-as mais visiveis e permitindo a participação de mais gente. De pessoas que, muitas vezes, não frequentam círculos culturais redondos e fechados. Rogério Marques, um estreante, apresentou um livro e conseguiu que a ficassem ocupados todos os locais disponíveis na plateia. É um bom exemplo.

Este ano foram criados espaços para os mais novos. Ateliers infantis que funcionam ao fim de semana, e nos quais os miúdos têm livros à disposição (em pequenas mesas, convém esclarecer), ouvem histórias - Irene Lucilia foi a narradora do fim de semana passado - vêem sessões de teatro de fantoches (Companhia de Teatro de Bonifrates, de Maria Aurora), têem workshops sobre o manuseamento de fantoches entre outras actividades. Sábado e domingo passados o atelier infantil recebeu centenas de crianças.

Este ano fez-se uma leitura colectiva de uma obra de um dos escritores madeirenses que mais se recomendam. Sábado passado, dezenas de pessoas de todos os quadrantes sociais leram extratos de "Ilhéus", de Horácio Bento de Gouveia. Gente conhecida e gente anónima partilhou o prazer da ler. E de ouvir.

Este ano a organização incluiu no programa da Festa do Livro uma peça de Teatro da Companhia Com.Tema. "Comichão Europeia", de Nuno Morna.

Este ano a Feira está mais bonita. Há mais gente a circular por entre os stands.

Este ano há mais participação de gente nova.

Este ano, provavelmente, vender-se-ão mais livros que em anos anteriores.

Este ano, até a Livraria Esperança, a maior do país, veio à Feira.

Este ano deram-se oportunidades às bandas regionais, aos musicos do conservatório ou do Gabinete Coordenador de Educação Artística.

Este ano deram-se oportunidade aos escritores madeirenses. A quem quer mostrar aquilo que faz, mesmo que não agrade a uma certa elite instituida.

Este ano procurou-se inovar.

Este ano o Diário faz uma primeira página com uma diferença de 5 cm. Que ainda por cima já tinha sido falada na comunicação social. Que ainda por cima já tinha sido assumida como erro pela organização. Erro a corrigir em edições futuras.

Neste, como em qualquer ano, dia, ou mês, a critica é sempre bem vinda. É absolutamente necessária. No caso em apreço, entendo que se critique o formato ou a dimensão dos stands. E a altura dos respectivos balcões. Mas não entendo que numa análise se sobrevalorize essa variável, subvalorizando, ou mesmo esquecendo, todas as outras.

É como dizer que se ganhou, ou se perdeu, por causa do tamanho da relva na área do guarda-redes!

Só para concluir, que fique bem claro que faço este texto como leitor. E não noutra condição qualquer. E já agora, repito, tenho grande respeito profissional e pessoal pelo Ricardo, a quem prezo como amigo.

E para que não fiquem dúvidas, nada me move contra o Diário, antes pelo contrário. Continuo a considerar aquela como sendo a casa onde passei alguns dos melhores anos da minha vida. E onde aprendi tudo o que sei sobre jornalismo. Uma casa de bons profissionais, onde se faz excelente jornalismo. Mas desta vez o Diário (e o Ricardo) falharam. E da mesma maneira que têm o direito à crítica, têm também de assumir a crítica como algo próprio.