10.5.06

Aproveitando a deixa do Magno

Algures por aí, as elites divertem-se. De certeza absoluta que se riem perante a catástrofe enquanto mantêm inatacáveis os seus privilégios e o seu estatuto. Para ser sincero, acho que nunca houve verdadeira revolução em Portugal. Houve qualquer coisa parecida com isso, mas nunca foi uma verdadeira revolução, um verdadeiro movimento capaz de gerar uma verdadeira agitação. O sistema encarregou-se de deixar liminarmente tudo exactamente na mesma, porque afinal o país dos brandos costumes sempre existiu e sempre foi bem real. Culpa de quem? De muita gente certamente, mas essencialmente dos políticos a quem sempre faltou a coragem de mudar o que era preciso mudar e das elites dúbias que, traidoras, nunca cumpriram com o seu papel. O sistema está condenado por isso a perpetuar-se, a manter-se, a ciclicamente legitimar-se. A isto não é alheio o estado desastroso a que chegou o ensino em Portugal, por exemplo. E aqui, se calhar, não partilho das ideias de muitos que são tidos como grandes pedagogos do ensino, os grandes responsáveis pelo calamitoso poço sem fundo onde mergulhamos de cabeça. Quanto a mim, o logro está montado. E bem montado. A catástrofe reside em boa parte num ensino transformado em projectos alternativos e/ou centrados nos alunos, onde se desautoriza o professor e se transforma o conhecimento em algo secundário. Nada agora é obrigatório (nem ir às aulas, imagine-se!!!). Ainda hoje me lembro da minha quarta classe e da extraordinária professora que me acompanhou desde a primeira. Nesse tempo, era preciso conhecer os rios portugueses, as regiões portuguesas, os distritos portugueses, conhecer algumas regras elementares da gramática e, claro, saber ler e escrever, fazer contas de dividir ou multiplicar. Era preciso exigir, sem falinhas mansas e desde miúdo porque afinal é (era?) de pequenino que se torce o pepino. Hoje, passa-se consecutivamente sem nada saber, sem nada pedir, transmitindo aos nossos alunos a irresponsabilidade do sistema e uma forma errada de encarar e enfrentar a vida: com o inconsciente facilitismo como se alguma coisa na vida real fosse fácil. Ainda hoje ouvi incrédulo que 30% dos nossos estudantes acaba o primeiro ciclo sem saber ler. No meu tempo, e não foi assim há tanto quanto isso, nem um ousava passar. Serei eu que estou errado? Quando vejo a ignorância que grassa por aí não deixo de ficar preocupado. Mas então desmonta-se o logro e ele fica perfeitamente visível. As elites, claro está, protegem-se e não vão nestas cantigas nem nos inovadores projectos centrados nos alunos que nunca são tratados como aquilo que são: alunos que têm de aprender, que têm de obedecer e escolas que têm que ter professores capazes e projectos competitivos. Quem pode paga e tem (muitas explicações, por exemplo). Quem não pode contenta-se com o ensino que há (fugindo para áreas alternativas). As elites, dizia eu, fecham-se e colocam os seus rebentos bem longe desta tragédia. As melhores escolas são por isso boas soluções onde não há cantilenas nem lengalengas, nem os discursos dos habituais coitadinhos. A escola é para estudar e aprender; não para perpetuar situações intoleráveis, maus comportamentos ou determinismos sociológicos e psicológicos que fazem de boa parte dos nossos rebentos um bando de inimputáveis, que não se educam e que não se preparam. Tudo em nome daquilo que ainda recentemente alguém apelidou de eduquês. Eu apenas prefiro chamar de irresponsabilidade. Talvez, por isso, apenas uns poucos se safam. E a maioria naufraga algures por más decisões do capitão ou pela péssima qualidade do navio. Tanto faz porque o destino é o mesmo. As elites, sempre elas, entretanto reproduzem-se normalmente porque sabem que enquanto tudo se mantiver assim, ou seja, exactamente na mesma, elas continuarão a dominar o mundo que conhecem e a serem donas e senhoras do destino dos seus rebentos. Só o conhecimento pode trazer verdadeira riqueza. Dos ignorantes não reza a história e muita gente continua convencida de que há verdadeira mobilidade ou verdadeira meritocracia. Não é que não haja mobilidade. Ou meritocracia. Não vou tão longe. Não há é tanta como se pensa. É esse o logro. É esse o monumental embuste.