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2.3.08

Cinema


A minha última viagem ao cinema foi para ver “Sweeney Todd, o Terrível Barbeiro de Fleet Street”, de Tim Burton.

É um filme de uma extraordinária realização. Cada plano é um autêntico quadro. Nada foi deixado ao acaso. A ausência de cor dá-lhe a dimensão estética e dramática necessária para a pesada narrativa.

Minto. Há uns riscos de cor, mas só surgem a meio do filme. Quando o excepcional barbeiro inglês do século XIX, interpretado por Johnny Depp, coloca em marcha um maquiavélico plano para aniquilar o mal em troca do bem. O problema é que o ajuste de contas transforma-se num rosário de crueldade.


É nesta altura que as cenas ganham cor. Um vermelho explosivo que salta do ecrã e suja os telespectadores. Alguns não resistem à violência das imagens, e tentam, com as mãos, esconder o que os olhos desejam ver.

Há muito sangue neste filme. Há muita violência, muita vingança.

Será que esta estória poderia ser filmada de outra forma??? Acho que não.

“O Terrível Barbeiro de Fleet Street” é um documento único. A história nasceu na Londres do início do século XIX. Não existem provas. Apenas relatos orais que passaram de geração em geração, até que alguém adaptou a lenda ao teatro e depois ao cinema (1926 primeiro filme). Agora resurgiu através das mãos de Tim Burton. Recordo-me de "Existenz". Já tem alguns anos. Talvez 10. Uma vez mais foi engolido por esta envolvente história, cantada, (o filme é um musical) que me encantou.

Não lhe mudava nada. A obra é quase perfeita.

30.12.07

A Ilha do Dia Antes

Uma imprevisível queda ao mar, durante uma tormenta, dois dias a flutuar em cima de umas tábuas e o resgate do náufrago por um fluyt (navio holandês) onde aparentemente não há vivalma. Assim se inicia a descrição das aventuras e desventuras de Roberto de la Grive, o improvável herói piomontês d’A ilha do Dia Antes, romance de Umberto Eco, do qual já publiquei dois excertos (aqui e aqui). Com a ironia típica de Umberto Eco (cujo expoente máximo, na minha opinião, é o inacreditável Baudolino), é-nos descrito um Roberto inocente, pueril, manipulável, crédulo, idealista, aspirante a filósofo, apaixonado e o seu contrário, um Ferrante (irmão gémeo imaginário de Roberto), acusado pelo herói de todas as patifarias e das suas desgraças. Pelo meio disto tudo, uma Senhora, ou melhor, um anjo que Roberto ama castamente, mas cuja virtude não é respeitada por Ferrante - para regozijo da Senhora e tormento de Roberto. Discípulo de vários mestres – Saint Savin, filósofo autodidacta da vida e exímio espadachim; o padre Emanuel, especialista nas coisas divinas e em lógica gramatical; Salazar, político que ensina a arte da dissimulação(!); Igby, um inglês que se passeia pelos salões parisienses em tempos nada propícios à presença de ingleses por terras francesas, mas que lhe ensina os segredos do Pó de Simpatia; e o Padre Gaspar, que à moda dos filósofos gregos, é profundo conhecedor de teologia, geografia, astronomia, física e sábio em geral e que consegue conciliar sempre o conhecimento científico com a religião, recorrendo a uma erudição e a um poder de argumentação fora de série -, o jovem Roberto bebe de um cocktail de conhecimentos que reúne toda a erudição europeia da época. Depois ainda os mistérios do Ponto Fixo (perseguido por todas as potências do século XVII) e das longitudes - a cujos possuidores estariam prometidas todas as fabulosas riquezas das Ilhas de Salomão. Ainda o mistério do Pó de Simpatia e de alquimias são outros dos ingredientes deste romance que, à boa moda de Eco, mistura química, física, astronomia, religião e mitologia, em diálogos deliciosamente inverosímeis e improváveis, mas de uma riqueza rara. Por último, uma ilha, em cuja baía está ancorada Daphne - simultaneamente salvação e prisão do infeliz Roberto, que o mantém cativo dado não ter meio para de lá sair -, mas que está inacessível não só no espaço (algumas centenas de metros), como também e sobretudo no tempo (Roberto crê que o barco está separado da ilha pelo meridiano 360º, logo um dia antes – neste estranho e distorcido pensamento onde aqui é meio dia de hoje, ali é meio dia de ontem). Neste romance, nem Judas Escariote é esquecido, condenado a viver eternamente a trágica quinta-feira Santa – e que poderia ter retrocedido um dia a tempo de evitar a traição a Jesus Cristo, mas que o patife Ferrante não permite, mantendo assim a redenção dos homens, pela morte do Messias. E entre o que vive Roberto e aquilo que imagina ter vivido, se faz um romance absolutamente fantástico, onde Umberto Eco nos brinda uma vez mais com uma miscelânea de teorias improváveis, uma enorme diversidade de narrativas e temáticas, sempre com o rigor científico que todos lhe reconhecemos. Naturalmente, ficará desiludido quem procurar n’A Ilha do Dia Antes – assim como em toda a sua obra - o estilo ritmado com que já nos habituraram alguns dos autores de romances pseudo-históricos best-sellers. Este romance é para ser lido com calma, para ser apreciado convenientemente. Não é um romance pronto-a-consumir. Se necessário for, vale a pena ter uma enciclopédia por perto, para melhor percebermos os detalhes das tramas do enredo com que Eco nos enleia. Porque nem sempre é fácil acompanhar a sua profunda erudição. Mas se nos dispusermos a ler calmamente, o gozo proporcionado é proporcional à exigência. Mais um óptimo livro deste autor, que é uma referência na minha biblioteca pessoal.

13.12.07

Uma piadinha...

Apoio telefónico do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos.

Responde o atendedor de chamadas da Casa de Saúde:
"Obrigado por ter ligado para o Júlio de Matos (Instituto de Saúde Mental), a companhia mais adequada aos seus momentos de maior loucura.
Se você é obsessivo-compulsivo, marque repetidamente o 1;
Se você é co-dependente, peça a alguém que marque o 2 por si;
Se você tem múltipla personalidade, marque o 3, 4, 5 e 6;
Se você é paranóico, nós sabemos quem você é, o que você faz e o que quer. Aguarde em linha enquanto localizamos a sua chamada;
Se você sofre de alucinações, marque o 7 nesse telefone colorido gigante que você, e só você, vê à sua direita;
Se você é esquizofrénico, oiça com atenção, e uma voz interior lhe indicará o número a marcar; Se você é depressivo, não interessa que número vai marcar. Nada o vai tirar dessa sua lamentável situação;
Porém, se VOCÊ votou Sócrates, não há solução, desligue e espere até 2009.
Aqui atendemos LOUCOS, não atendemos PARVOS nem INGÉNUOS! Obrigado!

Ó rapaz, são moinhos!

Hoje, passando a revista diária pela blogosfera (socialista, neste caso) surgiram-me de repente as palavras de António Gedeão:
«Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.
Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes

Eles estão convencidos que são gigantes, mas o bom do Sancho é que sabe!

Pintura de Daumier

27.11.07

No comments

"Felizmente os seus confrades estavam realmente um pouco por toda a parte, de Pernanbuco a Goa, de Mindanau ao Porto Sancti Thomae e, se os ventos o impediam de atracar num porto, havia logo outro. Por exemplo em Macau, ah, Macau bastava só o pensamento daquela aventura para o padre Gaspar se transtornar. Era uma possessão portuguesa, os Chineses chamavam os europeus de homens de nariz comprido exactamente porque os primeiros a desembarcar nas suas costas foram os portugueses, que de facto têm um nariz compridíssimo, e também os jesuítas que vinham com eles. E portanto a cidade era uma só coroa de fortalezas brancas e azuis sobre a colina, controladas pelos padres da Companhia, que deviam ocupar-se também das coisas militares, visto que a cidade estava a ser ameaçada pelos hereges holandeses.
O padre Gaspar decidiu fazer rota por Macau, onde conhecia um confrade doutíssimo em ciências astronómicas, mas esquecera-se que navega num fluyt.
O que fizeram os bons padres de Macau? Avistado um navio holandês, agarraram-se logo aos canhões e às colubrinas. De nada valeu o padre Gaspar esbracejar à proa e haver feito imediatamente içar o estandarte da Companhia, aqueles malditos narizes compridos dos seus confrades portugueses, envoltos no fumo belicoso que os convidava a uma santa carnificina nem deram por isso, e força a fazer chover balas à volta de toda a Daphne. Pura graça de Deus se a nau conseguiu soltar as velas, dar meia volta e fugir a custo para o largo, com o capitão que na sua lingua luterana lançava vilanias àqueles padres de pouca ponderação. E desta vez tinha ele razão: está bem mandar ao fundo os holandeses, mas quando não há um jesuíta a bordo."

Umberto Eco, A Ilha do Dia Antes

22.11.07

Save me!

E já agora, porque não o Bring me to life, do albúm Fallen dos fabulosos Evanescence.

AENIMA

Decididamente Sentient, dos portugueses Aenima, é um belíssimo albúm, para quem é fã de música gótica!
Um albúm a ouvir com muita atenção e uma banda a seguir, tal é a qualidade da música que produzem e de todos os seus elementos, com especial incidência para a Susana, que tem uma voz dos céus.
Aconselho vivamente a passarem no site da banda, e a ouvirem algumas das suas músicas. Não se esqueçam de ouvir a Lilith. Para mim, a mais bem conseguida música desta banda de Almada. Passem, também, por aqui tenham atenção à música Shelter for a lesser God. Fantástica! Divirtam-se!

16.11.07

A Valsa do adeus

"As suas unhas sujas e a sua camisola esburacada não são coisa nova debaixo do sol - disse Bertelef. - Havia outrora um filósofo cínico que se exibia nas ruas de Atenas vestido com uma túnica esburacada, para que todos o admirassem, vendo-o ostentar o seu desprezo pelas convenções. Um dia Sócrates encontra-o e diz-lhe: Vejo a tua vaidade pelo buraco da tua túnica. Também a sua porcaria, senhor, é uma vaidade, e a sua vaidade uma porcaria."

Milan Kundera, A Valsa do Adeus

15.11.07

Two Tea to 222

Tá genial, de facto.

Na sua recente visita aos Estados Unidos, José Sócrates e a sua comitiva hospedaram-se num luxuoso hotel. Cerca das 17h00 Sócrates, pegando telefone, liga ao serviço de quartos e diz:

- "TU TI TU TU TU TU"

A recepcionista não compreende o que quer dizer o Primeiro-Ministro e, pensando que se trata de uma mensagem cifrada, avisa o FBI.

Num ápice, apresentam-se dois agentes que, postos ao corrente de tudo, mas não conseguindo desencriptar a mensagem, decidem chamar a CIA. Os serviços secretos mandam mais dois agentes ao hotel, os quais começam logo a investigar e a tentar decifrar a mensagem, mas sem qualquer resultado. Entretanto, José Sócrates volta a telefonar e todos o ouvem repetir:

- "TU TI TU TU TU TU"

Desesperados, CIA e FBI resolvem recorrer ao tradutor oficial da Embaixada dos Estados Unidos em Portugal. Um caça supersónico do Pentágono desloca-se ao Aeródromo de Figo Maduro e o tradutor é conduzido, sem mais delongas, aos Estados Unidos.


Chegado ao hotel, e posto ao corrente da situação, o tradutor disfarça-se de criado, vai aos aposentos de José Sócrates e... descobre o mistério: - O Primeiro-ministro português queria dizer, no seu inglês técnico (da Universidade Independente): " two tea to 222 "»

Memórias que não se apagam




Parece ser um bom filme, com argumento e realização de Dinarte Freitas e produção de Eduardo Costa. Para já, gostei muito dos arranjos musicais, do tom sépia e da fotografia (especialmente das paisagens). Parece que as interpretações também estão boas. O argumento não é genial ou original, mas pode estar bem trabalhado (não conheço o guião). Aguardo por poder vê-lo e desejo os maiores sucessos à equipa. Parabéns, por mais que não seja, pelo arrojo e coragem!
Fica, ainda, aqui uma entrevista ao realizador e ao produtor.

PS - Já estreou, ou não? De acordo com o Jornal da Madeira já, mas de acordo com a entrevista apenas estreou o trailer. Alguém pode me esclarecer?

14.11.07

Porque o original já tinha sido pedido


The Blower's Daughter, by Damien Rice

Quedas no Azul

"O Sol deixara de estar no meio do céu. A luz incidia na terra de forma oblíqua. Aqui, era a vez de um cantinho de nuvem se incendiar, de pronto se transformando numa ilha incandescente onde nenhum pé seria capaz de poisar. Aos poucos, todas as nuvens se deixavam apanhar pela luz, o que fazia com que as ondas se iluminassem com setas enfeitadas de penas, as quais caíam de forma desordenada no azul."

Virgínia Woolf, in As Ondas

26.10.07

Livros das Férias I


"O Fantasma de Hitler", de Norman Mailer, dá-nos a conhecer D.T., o pequeno demónio que guia Hitler (Adi) desda a infância até à sua conversão num dos maiores assassinos da História da Humanidade.

Partindo de factos verídicos, Mailer transforma a infância e juventude de Adi - um fruto de incesto - numa luta contínua entre o bem e o mal. Com a frase de Santo Agostinho Inter faeces et urinam nascimur como "banda sonora". E com colónias de abelhas em fundo - plataformas de estudo de onde o jovem Adi retirará as noções sobre as sociedades humanas.

Com a fluência narrativa habitual, Mailer constrõe um romance (há quem lhe chame "não-ficção criativa") de leitura agradável. Embora não seja aquilo que de melhor o autor, com 84 anos, já escreveu.

23.10.07

Uns partem, outros não!

Por lapso, deixei passar em claro o aniversário da morte de Adriano Correia de Oliveira. Associo-me, aqui, à homenagem a esse vulto ímpar da resistência e do cantar de intervenção.

13.10.07

Untitled

"(...) - Senhor de Saint-Savin - disse-lhe Roberto -, não temeis acabar na fogueira?
Saint-Savin ensombrou-se por um instante.
-Quando tinha mais ou menos a vossa idade admirava o que foi para mim como um irmão mais velho. Como um filósofo antigo chamava-se Lucrécio, e era também filósofo, e para mais padre. Acabou na fogueira em Toulouse, mas antes arrancaram-lhe a língua e estrangularam-no. Assim, vedes que se nós filósofos somos rápidos de língua não é só, como dizia aquele senhor na outra noite, para nos darmos bon ton. É para tirar partido dela antes que no-la arranquem. Ou não, brincadeiras à parte, para romper com os preconceitos e descobrir a razão natural das coisas."

Umberto Eco, in A Ilha do Dia Antes
Fotografia de Witkin

3.10.07

Áh pois é...

"A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida. E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta. O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer. "Quem? ", perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo? A própria música: "Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além..." era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim. Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora. O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas, lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual... E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração : O Verão Azul. Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada. Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos: Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca caiu de uma. É um mole. Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema. Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos. Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos. Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra. Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção. Confesso, senti-me velho... Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador. Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft. Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros. Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído. Doenças com nomes tipo "Moleculum infanticus", que não existiam antigamente. No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de "terno" nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse. Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos. Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo. Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia. E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração "rasca"... Nós éramos mais a geração "à rasca", isso sim. Sempre à rasca de dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos. Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto. Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo. Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta. Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos. Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas. É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada." (Nota: ...os chocolates não eram gamados no "Pingo Doce"... Ainda se chamava "Pão de Açúcar"!!!)"

Nuno Markl

1.10.07

Temple of love

Este foi um fim-de-semana de nostalgia. Jogatana na Luz, jantar e convívio na faculdade, onde, para cúmulo, ouviu-se alto e em bom som esta pequena maravilha. Ora, recostem-se, puxem de um cigarrinho e relembrem...

"(...) With the fire from the fireworks up above
With a gun for a lover and a shot for the pain
You run for cover in the temple of love
Shine like thunder, cry like rain,
And the temple of love grows old and strong
But the wind blows stronger cold and long
And the temple of love will fall before
This black wind calls my name to you no more (...)"


Fotografia de Kazuyoshi Nomachi/Corbis.