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24.2.08

Estaremos atentos?!

Jesus deixou a Judeia e voltou para a Galileia. Tinha de atravessar a Samaria. Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia.
Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.» Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-Lhe então a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» É que os judeus não se dão bem com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que Lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!»
Disse-Lhe a mulher: «Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?»
Replicou-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.»
Disse-Lhe a mulher: «Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.» (...)

Disse-Lhe a mulher: «Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.»
Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora - e é já - em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que O adoram devem adorá-l’O em espírito e verdade.» Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir. Quando vier, há-de fazer-nos saber todas as coisas.» Jesus respondeu-lhe: «Sou Eu, que estou a falar contigo.


Evangelho segundo São João (Jo 4, 3-42)

Porque em tempo quaresmal é necessário lembrarmo-nos a razão de sermos cristãos! E para que não nos esqueçamos que a maior parte do tempo agimos como a samaritana. Sem ouvir o que nos é dito!

8.2.08

Bilhetes de Colares


Em boa hora a Assírio&Alvim decidiu compilar e editar em livro os "Bilhetes de Colares", crónicas assinadas em diversos jornais e revistas, durante 16 anos, pelo embaixador José Cutileiro, sob o pseudónimo A. B. Kotter.

De uma ironia refinada, os textos de Cutileiro confrontam-nos com o Portugal das décadas de 1980 e 1990. São a visão de um conservador que nos ajuda, de forma mordaz, a perceber este país que teima em querer ser moderno.

Altamente aconselhável.

30.12.07

A Ilha do Dia Antes

Uma imprevisível queda ao mar, durante uma tormenta, dois dias a flutuar em cima de umas tábuas e o resgate do náufrago por um fluyt (navio holandês) onde aparentemente não há vivalma. Assim se inicia a descrição das aventuras e desventuras de Roberto de la Grive, o improvável herói piomontês d’A ilha do Dia Antes, romance de Umberto Eco, do qual já publiquei dois excertos (aqui e aqui). Com a ironia típica de Umberto Eco (cujo expoente máximo, na minha opinião, é o inacreditável Baudolino), é-nos descrito um Roberto inocente, pueril, manipulável, crédulo, idealista, aspirante a filósofo, apaixonado e o seu contrário, um Ferrante (irmão gémeo imaginário de Roberto), acusado pelo herói de todas as patifarias e das suas desgraças. Pelo meio disto tudo, uma Senhora, ou melhor, um anjo que Roberto ama castamente, mas cuja virtude não é respeitada por Ferrante - para regozijo da Senhora e tormento de Roberto. Discípulo de vários mestres – Saint Savin, filósofo autodidacta da vida e exímio espadachim; o padre Emanuel, especialista nas coisas divinas e em lógica gramatical; Salazar, político que ensina a arte da dissimulação(!); Igby, um inglês que se passeia pelos salões parisienses em tempos nada propícios à presença de ingleses por terras francesas, mas que lhe ensina os segredos do Pó de Simpatia; e o Padre Gaspar, que à moda dos filósofos gregos, é profundo conhecedor de teologia, geografia, astronomia, física e sábio em geral e que consegue conciliar sempre o conhecimento científico com a religião, recorrendo a uma erudição e a um poder de argumentação fora de série -, o jovem Roberto bebe de um cocktail de conhecimentos que reúne toda a erudição europeia da época. Depois ainda os mistérios do Ponto Fixo (perseguido por todas as potências do século XVII) e das longitudes - a cujos possuidores estariam prometidas todas as fabulosas riquezas das Ilhas de Salomão. Ainda o mistério do Pó de Simpatia e de alquimias são outros dos ingredientes deste romance que, à boa moda de Eco, mistura química, física, astronomia, religião e mitologia, em diálogos deliciosamente inverosímeis e improváveis, mas de uma riqueza rara. Por último, uma ilha, em cuja baía está ancorada Daphne - simultaneamente salvação e prisão do infeliz Roberto, que o mantém cativo dado não ter meio para de lá sair -, mas que está inacessível não só no espaço (algumas centenas de metros), como também e sobretudo no tempo (Roberto crê que o barco está separado da ilha pelo meridiano 360º, logo um dia antes – neste estranho e distorcido pensamento onde aqui é meio dia de hoje, ali é meio dia de ontem). Neste romance, nem Judas Escariote é esquecido, condenado a viver eternamente a trágica quinta-feira Santa – e que poderia ter retrocedido um dia a tempo de evitar a traição a Jesus Cristo, mas que o patife Ferrante não permite, mantendo assim a redenção dos homens, pela morte do Messias. E entre o que vive Roberto e aquilo que imagina ter vivido, se faz um romance absolutamente fantástico, onde Umberto Eco nos brinda uma vez mais com uma miscelânea de teorias improváveis, uma enorme diversidade de narrativas e temáticas, sempre com o rigor científico que todos lhe reconhecemos. Naturalmente, ficará desiludido quem procurar n’A Ilha do Dia Antes – assim como em toda a sua obra - o estilo ritmado com que já nos habituraram alguns dos autores de romances pseudo-históricos best-sellers. Este romance é para ser lido com calma, para ser apreciado convenientemente. Não é um romance pronto-a-consumir. Se necessário for, vale a pena ter uma enciclopédia por perto, para melhor percebermos os detalhes das tramas do enredo com que Eco nos enleia. Porque nem sempre é fácil acompanhar a sua profunda erudição. Mas se nos dispusermos a ler calmamente, o gozo proporcionado é proporcional à exigência. Mais um óptimo livro deste autor, que é uma referência na minha biblioteca pessoal.

23.12.07

A ler

Uma entrevista a ler, do Homem do Ano, para o Jornal de Negócios. Bom registo, para melhor conhecer essa figura controversa da economia e cultura portuguesas.

13.12.07

Ó rapaz, são moinhos!

Hoje, passando a revista diária pela blogosfera (socialista, neste caso) surgiram-me de repente as palavras de António Gedeão:
«Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.
Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes

Eles estão convencidos que são gigantes, mas o bom do Sancho é que sabe!

Pintura de Daumier

27.11.07

No comments

"Felizmente os seus confrades estavam realmente um pouco por toda a parte, de Pernanbuco a Goa, de Mindanau ao Porto Sancti Thomae e, se os ventos o impediam de atracar num porto, havia logo outro. Por exemplo em Macau, ah, Macau bastava só o pensamento daquela aventura para o padre Gaspar se transtornar. Era uma possessão portuguesa, os Chineses chamavam os europeus de homens de nariz comprido exactamente porque os primeiros a desembarcar nas suas costas foram os portugueses, que de facto têm um nariz compridíssimo, e também os jesuítas que vinham com eles. E portanto a cidade era uma só coroa de fortalezas brancas e azuis sobre a colina, controladas pelos padres da Companhia, que deviam ocupar-se também das coisas militares, visto que a cidade estava a ser ameaçada pelos hereges holandeses.
O padre Gaspar decidiu fazer rota por Macau, onde conhecia um confrade doutíssimo em ciências astronómicas, mas esquecera-se que navega num fluyt.
O que fizeram os bons padres de Macau? Avistado um navio holandês, agarraram-se logo aos canhões e às colubrinas. De nada valeu o padre Gaspar esbracejar à proa e haver feito imediatamente içar o estandarte da Companhia, aqueles malditos narizes compridos dos seus confrades portugueses, envoltos no fumo belicoso que os convidava a uma santa carnificina nem deram por isso, e força a fazer chover balas à volta de toda a Daphne. Pura graça de Deus se a nau conseguiu soltar as velas, dar meia volta e fugir a custo para o largo, com o capitão que na sua lingua luterana lançava vilanias àqueles padres de pouca ponderação. E desta vez tinha ele razão: está bem mandar ao fundo os holandeses, mas quando não há um jesuíta a bordo."

Umberto Eco, A Ilha do Dia Antes

24.11.07

Absoluta falta de sentir ambientalista, ou a ditadura do dinheiro

A edição do Público de hoje vinha muito bem acompanhada por uma revista sobre as maiores 250 empresas de Leiria. E eu, incauto que fui, não percebi imediatamente a importância do suplemento que, atente-se bem, apresentava exaustivamente as maiores 250 empresas de Leiria!, atirei-a para o primeiro papelão que encontrei. Shame on me!

Vasco Pulido Valente: 10 - Miguel de Sousa Tavares: 0

Vasco Pulido Valente faz hoje uma crítica absolutamente arrasadora ao Rio das Flores, último romance de Miguel de Sousa Tavares.
De forma exaustiva, Pulido Valente aponta a completa falta de estilo do jornalista-aspirante a escritor-comentador-moralista, a inconsistência dos personagens - logo, da própria estória -, a presunção e superficialidade das conclusões apresentadas e uma infinidade de falhas, erros e incorrecções históricas. E faz isto tudo (Pulido Valente, leia-se), justificando, pontualmente, a necessidade do rigor quando se pretende escrever um romance histórico, pois ainda que ficção, não se pode subverter a nosso bel-prazer os factos. Quando muito, podemos defender uma ou outra tese interpretativa desses mesmos factos. Não podemos, pura e simplesmente, adulterá-los ou fingir que não existiram. Pulido Valente apresenta ainda indícios de que a bibliografia apresentada no romance ou não foi consultada de todo, ou o foi superficialmente, havendo, por parte do autor recorrentes afirmações que denotam ignorância relativamente aos assuntos a que se refere.
Não sou minimamente competente para avaliar a exaustiva lista de erros apontada por Vasco Pulido Valente. Não será, contudo, difícil acreditar nele, conhecendo a falta de rigor, a superficialidade e o olhar light com que Miguel de Sousa Tavares vê o mundo que o rodeia.
Reconheço que para além das crónicas do Expresso, apenas li O Menino do Rio de Sousa Tavares. É um livro pateta, como o são todos os livros de literatura infantil - apesar de fundamentais. Insistentente, têm me recomendado a leitura de "Equador". Confesso que mantinha uma forte resistência. Mas, após esta crítica, apenas se algum dos meus amigos resolver me presentear com romances de Sousa Tavares é que equacionarei a possibilidade de o ler. A questão de ler ou não ler Sousa Tavares deixou sequer de ser uma questão.

PS - Vasco Pulido Valente não o faz, mas após aquela crítica apetece dizer que Miguel Sousa Tavares se alguma coisa literarária tem, é a sua mãe. Cujo sobrenome teve o bom senso de não adoptar!

PS2 - Conhecendo o carácter intempestivo de Miguel Sousa Tavares, conforme alerta muito bem e com ilustrações Vasco Pulido Valente no início da sua crítica, não será de estranhar uma reacção violenta. Aguardo ansiosamente!

16.11.07

A Valsa do adeus

"As suas unhas sujas e a sua camisola esburacada não são coisa nova debaixo do sol - disse Bertelef. - Havia outrora um filósofo cínico que se exibia nas ruas de Atenas vestido com uma túnica esburacada, para que todos o admirassem, vendo-o ostentar o seu desprezo pelas convenções. Um dia Sócrates encontra-o e diz-lhe: Vejo a tua vaidade pelo buraco da tua túnica. Também a sua porcaria, senhor, é uma vaidade, e a sua vaidade uma porcaria."

Milan Kundera, A Valsa do Adeus

14.11.07

Quedas no Azul

"O Sol deixara de estar no meio do céu. A luz incidia na terra de forma oblíqua. Aqui, era a vez de um cantinho de nuvem se incendiar, de pronto se transformando numa ilha incandescente onde nenhum pé seria capaz de poisar. Aos poucos, todas as nuvens se deixavam apanhar pela luz, o que fazia com que as ondas se iluminassem com setas enfeitadas de penas, as quais caíam de forma desordenada no azul."

Virgínia Woolf, in As Ondas

21.10.07

Prazer de nada fazer, ou a revolta do prisioneiro!

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca. O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

13.10.07

Untitled

"(...) - Senhor de Saint-Savin - disse-lhe Roberto -, não temeis acabar na fogueira?
Saint-Savin ensombrou-se por um instante.
-Quando tinha mais ou menos a vossa idade admirava o que foi para mim como um irmão mais velho. Como um filósofo antigo chamava-se Lucrécio, e era também filósofo, e para mais padre. Acabou na fogueira em Toulouse, mas antes arrancaram-lhe a língua e estrangularam-no. Assim, vedes que se nós filósofos somos rápidos de língua não é só, como dizia aquele senhor na outra noite, para nos darmos bon ton. É para tirar partido dela antes que no-la arranquem. Ou não, brincadeiras à parte, para romper com os preconceitos e descobrir a razão natural das coisas."

Umberto Eco, in A Ilha do Dia Antes
Fotografia de Witkin

3.10.07

Áh pois é...

"A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida. E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta. O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer. "Quem? ", perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo? A própria música: "Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além..." era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim. Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora. O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas, lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual... E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração : O Verão Azul. Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada. Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos: Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca caiu de uma. É um mole. Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema. Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos. Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos. Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra. Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção. Confesso, senti-me velho... Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador. Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft. Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros. Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído. Doenças com nomes tipo "Moleculum infanticus", que não existiam antigamente. No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de "terno" nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse. Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos. Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo. Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia. E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração "rasca"... Nós éramos mais a geração "à rasca", isso sim. Sempre à rasca de dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos. Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto. Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo. Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta. Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos. Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas. É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada." (Nota: ...os chocolates não eram gamados no "Pingo Doce"... Ainda se chamava "Pão de Açúcar"!!!)"

Nuno Markl

31.8.07

A sul, sempre a sul

"Peregrinos de líquidas estradas. Peregrinos dos metálicos subúrbios, onde o grito mudo nos anestesia. Viajante das luas marítimas, beijar-te, ter-te nos dedos e no calor ardente da pele. Acredito, amor, que a sensação de uma luminosidade percorre o teu corpo navegante. Viajar contigo nas flores húmidas do bosque, no musgo sumarento dos ventos que te devastam o corpo. Descansar em cima do gigantesco nenúfar lavrado na tempestade. Viajar contigo dentro de uma flor branca, carnívora. Adormecer os sentidos no pólen metálico do mastro, sem horas, viajar como qualquer coisa atirada ao rio que, flutuando, se desintegra no tempo. E ficaremos ali, imóveis, à espera de nada. Múrmurio de estiolada lua que me povoa o sonho. Ilha nua em canto fúnebre. Ó meu amante, meu porto de regresso, templo nu, junto ao mar que arrasta nossos corpos liquefeitos, e semeia ossos na marítima memória."

Al Berto, O Medo.

7.8.07

A ler (linguagem popular da Madeira)

Um texto que me foi enviado por e-mail. Numa linguagem muito própria, que infelizmente se está a perder.

Há frases que só se percebem pelo contexto, mas creio que todos nós já ouvimos a maioria das expressões.

Para ler, pois tem graça.

Post Scriptum: Infelizmente, não sei quem ffoi o autor do texto. Se alguém souber, a caixa de comentários fica excepcionalmente aberta...

Era uma vez.....
Tava o vendeiro ao paleio com o vadio do vilhão quando ouviu uma zoada.
Era a água de giro.
O buzico do levadeiro que vinha mercar palhetes à venda, vinha às carreiras e às parafitas com bizalho.
Dá-lhe uma cangueira, trompicou no matulhão do vilhão. Bate cas ventas no lanço e esmegalha a pucra. O vilão dá-lhe uma reina vai a cima dele para lhe dar uma relampada, patinha uma poia.
Ficou todo sovento.
O vendeiro dá-lhe uma resonda por ele querer malhar num bizalho dum pequeno. Vem o levadeiro e, ao ver o vasola , que anda à gosma e a encher o pamdulho à custa dos outros, a ferrar com o filho, fica variado do miolo e diz-lhe umas.
O vilhão atazanado, atremou mal e pensou que ele lhe tinha chamado de
chibarro, ficou alcançado, deu-lhe uma rabanada e foi embora todo
esfrancelhado.
O levadeiro ficou mais que azoigado mas lá foi desatupir a levada.
O piquene chegou a casa todo sentido, com um mamulhão. A mãe que é uma rabugenta, mas abica-se por ele, ao vê-lo todo emantado, deu-lhe um
chá que era uma água mijoca, pensando que canalha é mesmo assim, mas, como
ele não arribava, antes continuava olheirento , entujado e da chorrica foi
curar do bucho virado e do olhado.
O buzico arribou e até já anda a saltar poios de bananeiras na Fajã.

23.7.07

Os amantes

"Voltas a retrair-te e a entregar-te da mesma maneira, a deixar-me na boca o mesmo travo de orquídea, de sândalo queimado e de bruma salina. Acabas agora de me puxar para ti, vagarosamente ao longo de ti, num ritmado movimento que ninguém te ensinou, que retomas sempre com igual cadência e de que nunca inteiramente te aperceberás. Estou já de novo a olhar-te nos olhos, a sorver lentamente a leve crispação da tua boca. Começa o mar a castigar-te os flancos e a resumir, em poucos minutos, uma sonâmbula evolução de muitos milénios, convertendo em pedra o que era peixe, desfazendo em areia o que foi pedra, incorporando cada vez mais pó no volume das suas águas... Passam entretanto pelo céu nocturno cavalgadas de nuvens magnéticas; entre as estrelas mais longínquas estabelecem-se pactos efémeros; e morrem aves nos pântanos da Lua, sob a luz que da terra lhe enviamos. Não sei se principias a gemer, se é a lenha mais alto a crepitar. Luzes, luzes! Luzes soltas no meio da escuridão... Instala-se o firmamento nas tuas entrenhas. O êmbolo do vento acelera-te o ritmo. O teu último gemido, nem o consegues dominar: derrapou no pavor de ser um grito, suicida-se na curva do teu ombro."

David Mourão Ferreira, in Os Amantes e Outros Contos.

18.7.07

Por uma pequena falha

"No entanto... tinha vergonha, sim, mesmo da Sónia, por isso a fazia sofrer, tratando-a com modos desdenhosos e grosseiros. Não era vergonha pelos grilhões e pela cabeça rapada, estava ferido no seu orgulho. Adoeceu de orgulho ferido. Oh, como seria feliz se conseguisse acusar-se a si mesmo! Então aguentaria tudo, até a vergonha e o opróbrio. Mas, por mais severamente que se julgasse, a consciência não via no seu passado uma culpa especialmente terrível, a não ser talvez uma simples falta, uma falha que qualquer um podia ter. O que o envergonhava era precisamente o ter-se perdido (desta maneira tão cega, desesperada, torpe e estúpida) só por uma sentença qualquer do destino cego; e o ter de resignar-se perante o absurdo de tal sentença, se quisesse sossegar-se ao menos um pouco.
Uma inquietude indefinida e sem objecto no presente e no futuro, um mero e infinito sacrifício sem finalidade e pelo qual nada se podia alcançar - era isso que tinha pela frente o resto da vida.
Que importava, passados estes oito anos, ter apenas trinta e dois e poder recomeçar a vida? Viver para quê? Com que objectivos? Com que aspirações? Viver para existir? Mas, se já antes ele estava mil vezes pronto a trocar a existência por uma ideia, por uma esperança, por uma fantasia! Existir, apenas, nunca tinha sido bastante para ele, sempre quisera mais. Talvez tivesse sido só por força dos seus desejos que se considerara a si mesmo como um homem a quem era permitido mais do que aos outros."

Fiódor Dostoiévski, in Crime e Castigo

17.7.07

Igualdade de oportunidades, ou pura "mariquice"?

"A celebração do Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos tem sido aproveitada para insinuar a necessidade de redefinir o casamento, de modo a abranger a união entre pessoas do mesmo sexo, supostamente em homenagem ao princípio da igualdade.
Contou-se, para esse efeito, com a oportuna propaganda: misturando imagens de pessoas portadoras de deficiência ou de diversas raças com gestos de intimidade entre indivíduos do mesmo sexo, sugerindo subliminarmente que a recusa do "casamento" homossexual seria o alinhamento com uma espécie de apartheid. (...)
Ora, a união homossexual é algo radicalmente diferente do casamento (heterossexual monogâmico). É de outra natureza, de outra espécie. Antropologicamente diverso. Diferente quanto ao seu valor social. Em particular, o casamento é uma instituição singularmente valiosa - e como tal regulado e protegido pelo Estado - como lugar natural da renovação das gerações e da formação do carácter e primeira socialização dos futuros membros da sociedade; e como sinalizador da bondade e riqueza da dualidade sexual sobre que se estrutura a sociedade.
O casamento é, portanto, um bem público (em sentido lato), ao contrário de outras formas de união sexual. Por um lado, gera benefícios para a sociedade como um todo, para além daqueles que proporciona aos próprios cônjuges. (...)
É certo que a alternativa de se casar (a sério) poderia manter-se no menu de opções disponíveis de uma sociedade que a incluísse, em posição paritária, entre outras formas sociais - como a união homossexual, a união de facto, a poligamia, etc. Mas a inteligibilidade e o significado social de se casar e ser casado - ter uma mulher ou um marido - nessas circunstâncias não seria semelhante ao significado social e simbólico do casamento vigente numa sociedade que se compromete com essa instituição: a dignidade única da opção do casamento e a percepção do seu valor seriam obscurecidas aos olhos dos indivíduos se a sociedade deixasse de reconhecê-la e distingui-la.
Aliás, se o estatuto jurídico de casamento fosse violentado de forma a albergar as uniões entre pessoas do mesmo sexo, isso significaria a imposição desse conceito bizarro - e profundamente hostil - de "casamento" a todas as outras a quem repugna essa assimilação. Implicaria uma injustiça ou discriminação contra aqueles que reivindicam poder verdadeiramente casar.
A recusa do "casamento" homossexual não é, portanto, uma discriminação ilegítima (que, por exemplo, infrinja o tão invocado art. 13.º da Constituição). Qualquer pessoa tem (igual) direito a casar. Simplesmente, o casamento é, por definição e natureza, uma aliança entre um homem e uma mulher.
Mesmo nas sociedades em que foi tolerada ou aceite, nunca se concebeu ou pretendeu fazer da homossexualidade uma instituição social dotada de estatuto público equiparável ao casamento. E ninguém é obrigado a casar...
A campanha do lobby gay para a reconceptualização do casamento, de modo a incluir a união homossexual, não tem nada a ver com a igualdade de oportunidades. Visa antes a promoção da conduta homossexual e a desconstrução - não apenas semântica - do casamento e da família, tal como a esmagadora maioria das pessoas (com boas razões) os entende e preza.
Todavia, há em Portugal verdadeiros e graves casos de desigualdade, discriminação de facto e exclusão: pessoas com deficiências, jovens em situação de reinserção social, minorias étnicas, desempregados de longa duração, os sem-abrigo (para não falar da discriminação fiscal dos casados relativamente aos solteiros, ou da discriminação laboral das mulheres grávidas).
Não seria melhor aplicar os dinheiros públicos na sensibilização e correcção destas formas de desigualdade de oportunidades, em vez de os investir no marketing da ideologia gay?


Alexandra Teté, Associação Mulheres em Acção, in Público de 16 de Julho de 2007

16.7.07

Eterno

"Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes,
queiras mais, queiras diferente;
que gostes da cor e do risco forte de Miró
e do canto desiludido e fundo de Ferré;
quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidadedo
grande, bruto, grande, e do pequeno, sensível e pequeno;
quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes
representes a cortesã mais lassa para mim;
quero-te com mãos de pedra e de veludo;
quero que ames o chique e a Serra d'Aire-mais o safari que a recepção,
quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepaxe
que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina
quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini
felina e ondulante, numa ilha tropical
quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada, ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos
a quem atribuíssem um número de contribuinte
quero que ames o longe e a miragem, como o Régio
e que sejas louca e sábia
que tenhas lábios e mordas, língua e sorvas, sexo e sexes, salto e salto, riso e rias, sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne,
passos de corsa, graça de arlequim,
pose de Diva, corpo de areia e luz.
E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo,
e que abras as janelas de par em par ao Tejo
e fecundes um poema em cada gesto
e voes como a gaivota em cada espreguiçar
e partas para a Índia em cada cacilheiro
e que sejas, mores, vivas e creias
longe,
muito longe daqui...
quero que sejas profundamente minha e ritual
obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo
disposta a tudo e a mais e a muito mais,
boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema
e sobretudo Mulher e sobretudo amante.
Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal
responde-me
que eu fico aqui, eterno, à tua espera."

Pedro Barroso, Eterno

12.7.07

True love

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria.
O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade.
Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o Amor."

S. Paulo, in Bíblia (I Epístola aos Coríntios, 1.13)
PS - Nos posts com excertos não costumo fazer comentários, mas não resisto a este. Há alguns anos, um amigo disse-me que o Cântico dos Cânticos terá sido uma das leituras mais eróticas que alguma vez havia feito. Pois para mim, esta é uma das mais belas passagens sobre o Amor. Absolutamente divinal, que mostra bem o que deveria significar ser-se cristão.