12.1.07

Ainda a propósito do aborto

Como já por diversas vezes afirmei, irei votar NÃO no referendo à alteração da lei sobre o aborto.
Mas, atendendo ao facto do Gonçalo ter resolvido promover uma discussão aberta no Conspiração às 7, deixo apenas alguns temas de reflexão, e a minha opinião sobre algumas das questões.

Assumo que acredito que a vida se inicia no momento da fecundação. O processo da vida é um processo ininterrupto, que se inicia no momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo. Esta é uma verdade contestável, é certo, mas apoiada por muitos cientistas, entre os quais um dos maiores especialistas portugueses, o Dr. Gentil Martins. Portanto, entendo que qualquer óvulo fecundado é já uma forma de vida, ainda que desconheçamos alguns dos seus processos.
Poderia evocar inúmeras razões para votar NÃO. Mas deixo apenas uma. Sou contra a alteração da lei porque entendo que a legislação portuguesa deve ser orientada para a protecção da vida, esteja esta em que estado estiver. Portanto, acho que uma legislação sobre o aborto deve ter sempre como orientação o seu impedimento, pois a regra deve ser a protecção da vida intra-uterina e em caso de dúvida, dou sempre o primado a esta forma de vida.
Aceito, contudo, algumas excepções, que de resto, estão previstas na Lei (Lei 6/84 de 11 de Maio e Lei 90/97 de 30 de Julho). Apenas neste casos (e acho mesmo que a lei portuguesa, por vezes, até é demasiado liberalizante), aceito o primado da liberdade de escolha, porquanto colocam-se questões profundas de dignidade e qualidade de vida.
Votarei,ainda, Não, porque entendo que as leis devem servir para resolver problemas e não a promiscuidade que os rodeia.

PS – Caro Gonçalo, não é o tigre, mas lince e ao contrário do que disse a Rubina, não se designa por Lince da Malcata, mas Lince Ibérico. Afinal, o bichinho – que é o felídeo mais ameaçado do mundo - já foi comum a toda a Península! Bom fim-de-semana.

17 comentários:

Anónimo disse...

Sancho Gomes

Instituiu-se na sociedade portuguesa a seguinte ideia: é chique e vanguardista todo aquele que é a favor do aborto. E, na linha de pensamento que descreves aqui no teu post, subscrevo-a totalmente. Um abraço.

Cláudio Torres disse...

lince da Malcata = lince Ibérico

Anónimo disse...

«Eu não quero viver num país onde a vida de um lince da Serra da Malcata (cf. código penal, art 278º) acaba por ser mais protegido pela lei do que a vida do nascituro humano!»

O artigo criminaliza os danos contra a natureza. Não especifica qualquer espécie animal ou vegetal.
Isto revela que a Rubina é uma de duas: ignorante ou desonesta.

Anónimo disse...

Extremamente redutor, afirmar que as pessoas que apelam pelo sim, fazem-no por moda. É um erro, reduzir as perspectivas diferentes dessa forma. Mas enfim, desde que o referendo está em cima da mesa, ouve-se muita coisa que seria de evitar. De ambos os lados...

Anónimo disse...

Caro Sancho,

Prometi que nesta questão do referendo só prestaria atenção a este 'blog' e estou a cumprir.

Permite-me rebater alguns dos teus argumentos para votar 'não'.

Em primeiro lugar, se acreditas que a vida começa no momento da fecundação há uma pequena incoerência no teu texto. A ser assim, nunca poderias aceitar as excepções que a lei já prevê, nomeadamente os casos de violação, má formação do feto, ou perigo de vida da mãe. Em todos estes casos já há fecundação e, seguindo o teu raciocínio, vida.
No caso da violação permite-me referir uma situação que considero vergonhosa e que só ajuda a que continue laico, agnóstico e por aí fora (Graças a Deus!. Na Irlanda, uma adolescente foi violada e engravidou. Como a legislação deste país é medieval e até proíbe o aborto nestes casos, os pais levaram a rapariga a Inglaterra e evitaram que passasse por outro trauma que seria uma gravidez indesejada. A Igreja Católica irlandesa foi rápida: excomungou os pais, a rapariga e o médico que fez o aborto! É por isso que me dá uma volta ao estômago quando vejo os senhores padres nestas coisas do 'não'. Eles também são contra métodos anti-concepcionais e até contra a educação sexual. O problçema deles é que não têm filhos (pelo menos legíitmos)...
Continuando com o teu texto... Se a vida começa na concepção, também deves ser contra a pílula do dia seguinte.
Finalmente o dr. Gentil Martins. É evidente que se trata de um dos médicos de maior destaque em Portugal, mas como ele há outros que têm opinião diametralmente oposta...

Jorge Freitas Sousa

P.S. - O lince é um animal tão bonito! Tenho uma gata que é uma miniatura de lince ibérico e acho que a sua vida deve ser protegida até às últimas consequências.

Anónimo disse...

É pena que o radicalismo, a intolerância e a demagogia cega (ideológica e partidária) insistam em enevoar o debate de um tema que, ganhe o sim ou o não, estará sempre longe de reunir o consenso... De qualquer modo é sempre mais fácil fazer campanha pelo sim: basta apresentar a liberalização do aborto, ou melhor a "interrupção voluntária da gravidez", como solução para todos os males.

Anónimo disse...

Parece que ficou toda a gente obcecado com o raio do lince! Para clarificar a questão - citei o art. 278º que diz respeito à protecção da natureza, pq a defesa de espécies em extinção (daí o exemplo do lince) recai neste artigo...
E para o ignorante E desonesto Anónimo(a) cá vai o artigo inteiro:

ARTIGO 278.º
(Danos contra a natureza)
1.Quem, não observando disposições legais ou regulamentares, eliminar exemplares de fauna ou flora ou destruir habitat natural ou esgotar recursos do subsolo, de forma grave, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa até 600 dias.

2. Para os efeitos do número anterior o agente actua de forma grave quando:

a) Fizer desaparecer ou contribuir decisivamente para fazer desaparecer uma ou mais espécies animais ou vegetais de certa região;

b) Da destruição resultarem perdas importantes nas populações de espécies de fauna ou flora selvagens legalmente protegidas;

c) Esgotar ou impedir a renovação de um recurso do subsolo em toda uma área regional.

3. Se a conduta referida no n.° 1 for praticada por negligência, o agente é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa.


Rubina

Anónimo disse...

Ainda não percebi a razão de o pobre do lince ibérico ser chamado para esta discussão. É precisamente por visões dessas ("Recuso-me a viver num país em que o lince é mais protegido que um feto!") que esta espécie já desapreceu de Portugal. Há uns meses, um indivíduo qualquer escreveu nas cartas do leitor do Diário que a Bíblia dizia que os animais estavam na Terra para o serviço do homem e por isso deviam ser sacrificados segundo a vontade da espécie dominante (?).reio que não deve ser esta a posição da Rubina, que até me parece uma jovem com ideias, embora discorde da sua posição em relação ao aborto.
Espero que não justifiquem as posições do 'não' com a Bíblia, o Corão ou a Tora, porque isso era reduzir o vosso raciocínio a dogmas religiosos medievais que indivíduos com um 'palmo' de inteligência devem rejeitar.
Penso que nesta questão do aborto, tudo o que ultrapassar a razão e entrar em campos metafísicos e religiosos é dispensável porque roça o totalitarismo da imposição de uma crença ou fé.
Voltando ao pobre do lince, até acho que a legislação portuguesa para protecção dos animais é demasiado branda. Chegamos ao ponto de admitir barbaridades como as touradas (desculpa Gonçalo mas é mesmo assim!) ou o uso de peles de animais raros.

Jorge F. Sousa

P.S. - Dra. Rubina, sem qualquer ofensa, tenho que dizer-lhe o seguinte: não há nada que me cause mais tristeza que ver um jovem conservador. É anti-natural. A rebeldia das ideias, a vontade de ir além do pensamento mais 'velho', são atributos que a juventude não pode perder, sob pena do próprio país ficar cinzento, triste e com aquele cheiro a mofo que o Salazar deixou. Quem lhe diz isto já tem mais de 40 anos...

Anónimo disse...

Sem querer entrar em discussões (muito menos na do lince), gostava de contribuir para esta troca de ideias.

A pouco tempo do referendo continuo sem saber bem em que corrente de opinião me hei-de enquadrar. Ambas são demasiado fundamentalistas para o que eu procuro. Não sou totalmente a favor mas também acho que não podemos cair da hipocrisia de fechar os olhos. Acho que sou a favor da despenalização mas parece que o que se pretende é a liberalização termo que, por si só, me parece um pouco leviano para o tema que é.
Muitas vezes falamos na prevenção, no planeamento familiar mas a verdade é que hoje, como antigamente também acontecia, os jovens (e outros menos jovens de idade mas algo ingénuos ou ignorantes mesmo) acreditam que "essas coisas só acontecem aos outros" e esses são os piores para ensinar porque não medem as consequências dos seus actos, nem depois de uma consulta, nem se nos centros de saúde lhes dão métodos contraceptivos gratuitamente.
Claro que, com todas as minhas dúvidas, a questão mantém-se: O que fazer? Confesso que não sei. O que sei é que no tempo que passou desde o último referendo nunca mais ouvi falar de nada disto e nem dei pela presença destas associações e movimentos que agora estão em cada virar de esquina. Talvez se tivessem aparecido um pouco antes, por exemplo a fazer campanhas junto dos centros de saúde, ou nas zonas rurais, ou nas escolas, talvez então os números agora fossem outros. E se os números fossem outros talvez também a conversa fosse outra.
Por isso, SIM ou NÃO? Continuo sem saber.

Anónimo disse...

Caro Jorge,

Agradeço a sua preocupação com a minha orientação política. Mas eu não me revejo no simples rótulo 'conservador'. Agora, se 'conservador' significa - neste debate sobre o referendo - ser contra a liberalização do aborto livre até às 10 semanas, então pode me chamar 'conservadora' a qualquer hora do dia. Aliás, pensava que viviamos numa democracia, onde todas as opiniões políticas - de todo o espectro ideológico - são de respeitar, e não só a suposta 'esquerda'...

um abraço,
Rubina
(dispenso o 'drª'- para alguém tão moderno, o Jorge não acha que usar estes títulos retrógrados é só mais uma prova do provincianismo em portugal? se calhar o Jorge tem mais de conservador dentro de si do que julga lol )

Anónimo disse...

Rubina

Acuso o toque e concordo totalmente com o provincianismo da utilização de graus académicos,algo que faço questão de banir das páginas do DIÁRIO. 1-0 a seu favor.
É claro que vivemos numa democracia e por isso mesmo é que trocamos ideias sobre estas questões, sem os insultos e radicalismos que aparecem na maioria dos blogs. (1-1)
Quanto a 'esquerdas' e 'direitas', há muito tempo que ultrapassei essas divisiões artificiais. Orgulho-me de, por exemplo, votar em pessoas e não em partidos e por isso mesmo já devo ter votado em quase todos, da 'direita' à 'esquerda'... Curiosamente a minha única militância foi na JSD (no Porto) mas isso já passou.
Quanto ao 'aborto livre até às 10 semanas', porque é exactamente disso que se trata, gostava de deixar mais umas ideias.
Em primeiro lugar, 10 semanas são dois meses e meio. Embora não seja especialista, penso que esse será o tempo para a descoberta de uma gravidez e a tomada de decisão de a interromper. Creio que nem se nota a 'barriguinha' da grávida, mas tenho que investigar.
Volto a afirmar que em causa está uma decisão de ser mãe, ou não, que competirá à própria e nunca à sociedade.
Na prática o que os defensores do 'não' estão a fazer é a obrigar mulheres a terem filhos contra a sua vontade. Em teoria pode parecer-lhes tudo muito bem, mas não estou a ver a Rubina a impor a sua vontade a outra pessoa numa questão destas. Lembre-se qu evivemo snum país democrático!
Deixava ainda mais um reparo. Só considero consciente e honesta a posição dos defensores do 'não' quando a acompanham com uma defesa incondicional de programas de planeamento familiar, educação sexual obrigatória e apoio, sem restrições orçamentais, às crianças abandonadas...
Por fim, numa terra como a nossa em que se gastam milhões de euros com o Jornal da Madeira, marinas inúteis, se perdem milhões com as consequências do 'off-shore' e outras brincadeiras irresponsáveis do poder regional, é totalmente hipócrita exigir que 'os nossos impostos' não sejam usados para pagar abortos. Aquela cartaz é uma vergonha e não é digno da maioria das pessoas que integram as plataformas do 'não', muitas delas gente coerente e com ideias.

Anónimo disse...

perdão,

a mensagem anterior não foi assinada

Jorge F. Sousa

Anónimo disse...

“Esta é uma verdade contestável, é certo”

não, não é, é cientifico o inicio da vida incontestável.
Os tratados de Medicina continuam afirmando que o início da vida humana acontece no momento da união do óvulo e do espermatozóide. Mesmo grandes defensores do direito irrestrito da mulher ao aborto concordam com esta afirmativa. Por exemplo, Peter Singer, filósofo e professor, defensor do “direito ao aborto”, ao ser perguntado: “Para o senhor, quando começa a vida?”, respondeu: “Eu não tenho dúvida de que a vida começa na concepção
Qualquer texto de embriologia clínica (ou humana) afirma que se inicia na concepção
Uma coisa é saber quando há vida biológica, outra vida sensitiva ou cognoscitiva e aqui entram em campo conceitos filosóficos ou religiosos mas não biológicos a vida com um ADN autónomo existe desde a fecundação

Sancho Gomes disse...

Jorge,
ainda bem que te sentes bem por aqui!

Quanto ao exemplo que dás sobre a Igreja, deixa-me fazer o papel do Diabo (nos dias que correm, parece que os crentes são umas aberrações!).

Lembro-me, quando era mais jovem (tinha, por aí, uns 17 anos), de ter ouvido João Paulo II exortar às mulheres bósnias vítimas de violação a não abortarem. Na época - do ponto de vista religioso, situava-me entre o agnosticismo e o ateísmo - esta posição da Igreja ofendeu-me profundamente. Entretanto passaram-se uns anos, re-descobri a minha fé e interessei-me por saber um pouco mais sobre a religião que professo. Descobri que o Cristianismo defende a vida incondicionalmente e que também o Amor cristão é incondicional, ainda que por vezes sejam os seus representantes os primeiros a violar este dogma. Por outro lado, a Igreja, apesar de não poder estar à margem dos desenvolvimentos civilizacionais, não pode andar ao sabor das marés, correndo o risco de ver todo o seu sistema axiológico ruir. É, portanto – pelo menos para mim – compreensível a posição da Igreja, mesmo que eu, por vezes, não me reveja nelas. Fará isto da Igreja uma entidade medieval, como a rotulas? Não, na minha opinião, uma vez que as suas posições precisam de ser um pilar moral para os seus crentes. A posição de fundo contra o aborto é apenas mais um exemplo disto.

Mas ao contrário da Igreja, eu não tenho qualquer necessidade de ser pilar moral. Por isso, quanto à minha hipotética incoerência fizeste bem em chamar a atenção, mas não existe. Há apenas uma hierarquização de valores.
Para mim, perante uma gravidez não deve existir opção, tal como não existe opção em milhentas outras coisas. Este é um dogma ético, ou um imperativo categórico, se assim preferires, como o é o “Não matarás” – repara que não é apenas religioso.
Todavia, aceito hierarquizar este dogma, se em causa estiverem outros que me pareçam dever estar numa posição superior. Reconheço que é um paradoxo ético, mas não é uma incoerência. Porque, por princípio entender que algo é incorrecto, não anula a possibilidade de abrir excepções. Repara que fazemo-lo diariamente, nas mais diversas situações.
Quanto à pilula do dia seguinte, sinceramente ainda não tenho qualquer opinião, mas à partida não me parece negativo. Mas devolvo-te a pergunta: se não és contra a possibilidade de escolha da mulher, como defendes, será que és a favor que essa escolha possa ocorrer aos 8 meses e meio? Qual será, então, o período da gravidez em que o aborto será aceite?

Por outro lado, quer a tua pergunta, quer as minhas, não serão já tentações de radicalizar demasiado as nossas posições?

Um abraço


PS – Gostei da provocação do “graças a Deus”. Teve piada!

Sancho Gomes disse...

Leopard,

bem-vindo!

Já agora, como cá chegaste??? (és o mesmo do Afixe, certo?)

Anónimo disse...

Sancho,

Não sou especialista nestas coisas de medicina, mas creio que não é possível um aborto (clinicamente assistido) aos oito meses e meio. Nem com metade desse tempo de gestação, salvo em situações extremas de risco de vida.
Acho as dez semanas (dois meses e meio) um prazo razoável. Como escrevi antes, ainda nem deve dar para ver a 'barriguinha'.
Como deves ter percebido eu não coloco esta questão no campo dos princípios científicos nem ético-religiosos, desculpem-me mas sou mais pragmático e vou votar 'sim' porque acho que o 'aborto livre até às 10 semanas' (como classifica e bem a Rubina) é correcto e responde à realidade do nosso país.
Aquele exemplo que dás do Papa João Paulo II é idêntico ao que eu dei daquele caso irlandês. É de uma insensibilidade a toda a prova. Imagina o que é pedir a uma mulher que foi violada que crie um filho fruto desse crime... Mais desumano não podia ser. Curiosamente é essa mesma Igreja Católica que só a custo reconheceu os crimes da Inquisição e até queria beatificar um Papa (Pio XII) que colaborou com os nazis... Sinceramnete, Fé é uma coisa, religião é outra. A segunda é perfeitamente dispensável.

Um grande abraço

Jorge F. Sousa

Anónimo disse...

Exacto Sancho sou o mesmo do afixe, cheguei aqui há tempos por mero acaso pesquisando alguns blogs, pareceu-me conhecer o nome e passei a ler alguns posts quando calhava de estar online mas sem nunca comentar.
Este mereceu-me esse reparo porque há muita ignorância em relação ao começo da vida, claro esta estou a falar do conceito biológico e isso não merece reparos a ciência dá resposta através da embriologia. Já agora e sendo fastidioso deixava aqui um depoimento de um cientista consultado pelo congresso norte americano, para quem tenha tempo de ler
Cumprimentos


[[“Estados Unidos da América ardente polêmica a respeito do aborto: estava comprovado que naquele país uma criança sobre três era eliminada antes de nascer. O Senado norte-americano, impressionado pela problemática, pôs-se a considerá-la com seriedade. E, a fim de tomar posição, procurou informações dos cientistas a respeito do momento em que o concepto pode ser considerado autêntico indivíduo humano, pois tal questão é decisiva para se definirem os direitos da criança. Em vista de uma resposta, foi consultado, entre outros, o prof. Jérôme Lejeune, francês; os títulos e méritos deste mestre e sua posição se acham expostos no texto que transcrevemos a seguir e que corresponde ao relatório apresentado à Comissão Senatorial encarregada do inquérito, aos 23 de abril de 1981. O próprio autor deu a seu trabalho o título de TESTEMUNHO.

2. O TESTEMUNHO DO DR. JÉRÔME LEJEUNE

"Meu nome é Jérôme Lejeune. Doutor em Medicina e Doutor em Ciências, sou responsável pela Clínica e pelo Laboratório de Genética do Hospital de Pediatria destinado aos pacientes feridos por debilidade mental. Após ter pesquisado em tempo integral durante dez anos, tornei-me professor de Genética Fundamental na Universidade René Descartes.

Há cerca de 23 anos descrevi a primeira doença cromossômica em nossa espécie, devida ao cromossomo 21 extra-numerário, típico do mongolismo. Em conseqüência, tive a honra de receber o Prêmio Kennedy das mãos do falecido presidente e a William Allen Memorial Medal da Sociedade Americana de Genética Humana. Sou membro da American Academy of Arts and Sciences.

Com meus colegas do Instituto de Genética de Paris, nos dedicamos à descrição das etapas fundamentais da hereditariedade humana. Pelo estudo comparativo de numerosas espécies de mamíferos, inclusive os símios antropóides, estudamos as variações cromossômicas registradas no decorrer da evolução. Na espécie humana, analisamos mais precisamente os efeitos desfavoráveis de certas aberrações cromossômicas.

Nestes anos demonstramos pela primeira vez que uma doença cromossômica pode ser combatida por um tratamento adequado... Mostramos que um tratamento químico pode curar a lesão cromossômica em culturas de tecidos. Mais: uma dosagem apropriada de produtos químicos (monocarbonatos e suas moléculas vetoras) melhora simultaneamente o comportamento e as atividades mentais das crianças afetadas. Assim a pesquisa meticulosa realizada sobre certos mecanismos da vida pode levar a uma proteção direta de vidas humanas em perigo. Quando começa um ser humano?

Desejo trazer a esta questão a resposta mais exata que a ciência pode atualmente fornecer. A biologia moderna ensina que os ancestrais são unidos aos seus descendentes por um liame material contínuo, pois é da fertilização da célula feminina (o óvulo) pela célula masculina (o espermatozóide) que emerge um novo indivíduo da espécie humana.

A vida tem uma longa história, mas cada indivíduo tem o seu início muito preciso, o momento de sua concepção.

O liame material é o filamento molecular do ADN. Em cada célula reprodutora, essa fita, de um metro de comprimento aproximadamente, é cortada em segmentos (23, na nossa espécie). Cada segmento é cuidadosamente enrolado e empacotado (como uma fita magnética em minicassete), tanto que no microscópio aparece como um bastonete: um cromossomo.

Desde que os 23 cromossomos do pai se juntam aos 23 cromossomos da mãe, está coletada toda a informação genética necessária e suficiente para exprimir todas as características inatas do novo indivíduo. Isto se dá à semelhança de uma minicassete introduzida num gravador; sabe-se que produz uma sinfonia. Assim também o novo ser começa a se exprimir logo que foi concebido.

As ciências da natureza e as ciências jurídicas falam a mesma linguagem. A respeito de um indivíduo que goza de boa saúde, o biólogo diz que tem boa constituição; a respeito de uma sociedade que se desenvolve harmoniosamente para o bem de todos os seus membros, o legislador afirma que ela tem uma Constituição equilibrada.

Um legislador não consegue entender uma lei particular antes que todos os seus termos tenham sido clara e plenamente definidos. Mas, quando toda essa informação lhe é oferecida e a lei foi votada, ele pode ajudar a definir os termos da Constituição. Como trabalha a natureza?

Trabalha de modo análogo. Os cromossomos são as tábuas da lei da vida; quando eles são reunidos no novo indivíduo (a votação da lei é figura da fecundação do óvulo pelo esperma), eles descrevem inteiramente a Constituição dessa nova pessoa.

É surpreendente a miniaturização da escrita. É difícil crer, embora esteja acima de qualquer dúvida, que toda a informação genética, necessária e suficiente para construir nosso corpo e até nosso cérebro (o mais poderoso engenho para resolver problemas, capaz até de analisar as leis do universo), possa ser resumida a tal ponto que seu substrato material possa subsistir na ponta de uma agulha!

Mais impressionante ainda é a complexa soma de informação genética por ocasião do amadurecimento das células reprodutoras, a tal ponto que cada concepto recebe uma combinação inteiramente original, que nunca se produziu antes e que não se reproduzirá tal qual no futuro. Cada concepto é único e, portanto, insubstituível. Os gêmeos idênticos e os hermafroditos verdadeiros são exceções à regra: cada ser humano é uma combinação genética. E notemos que as exceções devem ocorrer no momento da concepção. Acidentes posteriores não levam a um desenvolvimento harmonioso.

Todos esses fatos são conhecidos há muito tempo; todos os cientistas já outrora estariam de acordo em dizer que, se existissem bebês de provetas, eles evidenciariam a autonomia do concepto; a proveta não possuiria nenhum título de propriedade sobre eles. Ora os bebês de proveta já existem. Experiências recentes

Quantas células são necessárias para a construção de um indivíduo?

— A resposta nos é dada por experiências recentes.

Se conceptos precoces de camundongos são tratados com enzimas, as suas células se desagregam. Se, porém, misturarmos tais suspensões celulares provenientes de embriões diferentes, veremos que as células voltam a se reunir. O número máximo de células que operam para a elaboração de um indivíduo, é três.

O ovo fecundado normalmente divide-se em duas células: uma delas se divide imediatamente de novo. Assim se forma o número ímpar e surpreendente de três células, encapsuladas em seu invólucro protetor.

Segundo os nossos mais adiantados conhecimentos, a individuação (ou a formação de três células fundamentais) é a primeira etapa após a concepção, à qual se segue dentro de poucos minutos.

Tudo isto explica por que os doutores Edwards e Steptoe puderam ser testemunhas de fecundação, em proveta, de um óvulo da Sra. Brown por um espermatozóide do Sr. Brown. O minúsculo concepto que eles implantaram alguns dias mais tarde no útero da Sra. Brown, não podia ser nem um tumor, nem um animal. Era, na verdade, a extremamente jovem Luísa Brown, que tem hoje a idade de três anos.

A viabilidade do concepto é extraordinária. Por experiência, sabemos que um concepto de camundongo pode ser congelado ao frio intenso (até de 29 graus) e, depois de reaquecimento delicado, ser implantado com êxito. Para que haja o ulterior crescimento, requer-se necessariamente a acolhida numa mucosa uterina que forneça a alimentação apropriada à placenta embrionária. No interior da sua cápsula vital, que é a bolsa amniótica, o novo indivíduo é tão viável quanto um astronauta dentro do seu escafandro sobre a Lua: o abastecimento de fluidos vitais deve ser fornecido pelo organismo da mãe. Esta alimentação é indispensável à sobrevivência, mas ela não "faz" a criança; da mesma forma nem a nave espacial mais aperfeiçoada pode produzir um astronauta. Esta comparação ainda é mais significativa quando o feto se mexe. Graças a uma aparelhagem ultra-sônica muito requintada, o professor Ian Donald, da Inglaterra, conseguiu produzir no ano passado um filme que mostra a mais jovem "estrela" do mundo, ou seja, um bebê de onze semanas a dançar no útero materno. O bebê, pode-se dizer, brinca no trampolim! Dobra os joelhos, apoia-se sobre a parede, levanta-se e recai. Visto que o seu corpo tem a densidade do fluído amniótico, ele não sente a gravidade e dança muito lentamente, com uma graça e uma elegância totalmente impossíveis em algum outro lugar da terra. Somente os astronautas, em suas condições de não gravidade, conseguem tal suavidade de movimentos. A propósito notamos que, quando se tratava da primeira caminhada no espaço, os técnicos tiveram que escolher o lugar onde desembocariam os tubos portadores dos fluídos vitais. Escolheram então finalmente a fivela do cinturão do escafandro, reinventando assim o cordão umbilical.

Quando tive a honra de dissertar perante o Senado, tomei a liberdade de evocar o conto de fada do homem menorzinho do que o dedo mindinho.

Com dois meses de idade, o ser humano tem menos de um polegar de comprimento, desde o ápice da cabeça até a ponta do traseiro. Ele estaria muito à vontade numa casca de nozes, mas tudo já se encontra nele: as mãos, os pés, a cabeça, os órgãos, o cérebro, tudo está no seu lugar certo. O coração já bate há um mês. Olhando de mais perto, veríamos as dobras das suas palmas de mão e uma quiromante leria as mãos dessa minúscula pessoa. Com uma boa lente de aumento, descobriríamos as marcas digitais. Tudo estaria aí para se fazer a carteira de identidade civil deste indivíduo.

Com a extrema sofisticação da nossa tecnologia, podemos vislumbrar a vida privada desta criaturinha. Aparelhos especiais gravam a música mais primitiva: um martelar surdo, profundo, regular, de 60/70 batidas por minuto (o coração da mãe) e uma cadência rápida, aguda, de 150/170 batidas por minuto (o coração do feto) se sobrepõem, imitando os compassos de orquestra e realizando os ritmos básicos de toda música primitiva, sem dúvida, porque é a primeira que o ouvido humano consegue ouvir.

Assim observamos o que o feto sente, ouvimos o que ele ouve, provamos o que ele saboreia e vimo-lo realmente dançar, cheio de graça e de juventude. A ciência transformou o conto de fada do Pequeno Polegar numa história verídica, história que cada um de nós viveu no seio de sua mãe.

E, para que melhor percebais a exatidão das nossas observações, acrescentamos: Se, logo depois da concepção, vários dias antes da implantação, uma única célula fosse retirada desse indivíduo semelhante a uma amora minúscula, poderíamos cultivar essa célula e examinar os seus cromossomos. Se um estudante, observando-a ao microscópio, não fosse capaz de reconhecer o número, a forma e o aspecto das fitas de seus cromossomos, se ele não soubesse dizer com certeza se essa célula provém de um símio ou de um ser humano, seria reprovado no exame.

Aceitar o fato de que, após a fecundação, um novo indivíduo começou a existir, já não é questão de gosto ou de opinião. A natureza humana do ser humano, desde a concepção até a velhice, não é uma hipótese metafísica, mas sim uma evidência experimental".
quando se extrai do seio materno um feto, é um verdadeiro ser humano que vem assim extraído e... quiçá condenado à morte!”]]